O ex-dirigente do Vox Javier Ortega Smith anunciou nesta sexta-feira que abandona o grupo parlamentar do Vox no Congresso e fez duras críticas à liderança de Santiago Abascal à frente do partido. "O Vox está sequestrado por sua cúpula, uma cúpula que traiu seus valores e ideias", afirma.
Ortega Smith divulgou em sua conta na rede social X uma carta enviada a Abascal, antigo amigo e aliado político, redigida tomando como referência a missiva que o próprio líder do Vox enviou na época a Mariano Rajoy quando militava no Partido Popular. Nesse texto, comunica sua decisão de deixar o grupo parlamentar, após ter sido afastado da portavocacia na Câmara Municipal de Madrid, relegado de suas responsabilidades no Congresso e, finalmente, expulso do Vox.
Na carta, o ex-dirigente sublinha que a saída do grupo parlamentar na Câmara Baixa foi "uma das mais duras" de sua trajetória pessoal e política, e ressalta a "tristeza" que lhe provoca abandonar o grupo "que ajudou a fundar", embora o faça "com a consciência tranquila". Afirma que a decisão foi muito meditada e que "acumulo meses de demissões fulminantes e injustificadas, e até anos, desde minha demissão em outubro de 2022 como secretário-geral", segundo lamenta.
Em sua mensagem a Abascal, Ortega Smith sustenta que "sempre" se sentirá "vinculado emocionalmente" a quem integra o Vox e que, por essa razão, "arquiva com carinho e respeito" seu cartão de afiliado número 6 da organização. Em seguida, lembra que "houve um tempo em que o Vox foi uma ferramenta extraordinária em favor" dos espanhóis, deixando entrever que, em sua opinião, essa etapa ficou para trás. Além disso, aponta que "não se reconhece" na direção que é chefiada por Abascal.
Críticas à cúpula do Vox e prognóstico de novas saídas
Fora já do grupo parlamentar, afirma sentir-se "mais perto" da militância do Vox e de seus princípios fundacionais, e rejeita "falar mal de pessoas com quem fundou algo que valeu a pena". Nesse contexto, transmite a Abascal que está "seguro" de que, assim como outros já abandonaram a formação, sem citar identidades, muitos outros se marcharão "no futuro próximo, motivados em partes iguais" por suas "decisões e indecisões como líder do partido".
"Estou indo, presidente, com um sentimento de rasgo interior", insiste, mas sustenta que, ao contrário de quem continua no Vox, chegou à conclusão "definitiva" de que "não há nenhuma possibilidade de mudar as coisas de dentro" e de que o Vox "está sequestrado pela cúpula dirigente inamovível" que Abascal encarna, "cúpula que traiu" os princípios e postulados originais.
Além disso, acusa a Executiva de ter "encartonado" o partido e denuncia o que considera a ausência de democracia interna. Critica os "congressos extraordinários que não quisestes convocar, as assembleias sempre bem controladas e a implacável maquinaria do partido nos tornando dissidentes quando os verdadeiros dissidentes sois vós", concluindo com um contundente "Até aqui chegamos, presidente".
Seu futuro político no Grupo Misto
Apesar de tudo, adianta que não solicitará a baixa como filiado do Vox. "Não rompo um cartão, não renego do meu passado, pois tudo valeu a pena, sempre cumpri com meu dever e não penso que todo o esforço foi em vão", sustenta na missiva.
A partir de agora, Ortega Smith passará a integrar o heterogêneo Grupo Misto, onde compartilhará bancada com os quatro deputados do Podemos e os representantes do BNG, CC, UPN e Compromís. A este grupo se incorporam as formações que não alcançam os cinco assentos necessários para constituir grupo próprio ou os deputados que ficam sem partido, como acontece em seu caso. Após sua saída, o Vox ficará com 32 deputados no Congresso.
No plano municipal, também passou a ser vereador não vinculado na Câmara Municipal de Madrid, depois que um juiz rejeitou as medidas cautelares que havia solicitado ao recorrer sua expulsão do Vox perante os tribunais.
Os integrantes do Grupo Misto preveem tratá-lo de forma similar a como fizeram na época com o ex-ministro socialista José Luis Ábalos, a quem não cederam tempos de intervenção próprios nem cota para apresentar iniciativas, nem lhe reservaram lugares nas comissões parlamentares.
Em qualquer caso, o critério definitivo sobre a adequação de Ortega Smith deverá ser adotado de forma colegiada, embora a maioria do Misto já tenha manifestado sua preferência por reproduzir o precedente de Ábalos, expulso do Grupo Socialista, e não o da última deputada que se integrou no Misto, a representante do Compromís Àgueda Micó, que abandonou voluntariamente o grupo de Sumar em julho do ano passado.
Precedentes no Grupo Misto e situação atual
Atualmente, o Grupo Misto conta com oito deputados de cinco formações: quatro do Podemos e um do Bloco Nacionalista Galego (BNG), Coalición Canaria (CC), União do Povo Navarro (UPN) e Compromís, respectivamente.
Quando Micó chegou ao Misto, o restante dos membros a considerou uma integrante de pleno direito, reorganizou as portavocias na comissão, permitiu que registrasse iniciativas dentro do quociente do grupo e a incluiu na distribuição de tempos nas Plenárias, inclusive nos debates com o presidente do Governo, Pedro Sánchez.
Em contrapartida, nada disso foi aplicado em fevereiro de 2024 após a incorporação de Ábalos. O ex-ministro, investigado em duas causas de corrupção, não podia intervir nas sessões plenárias, apenas registrar perguntas escritas — um direito individual irrenunciável dos deputados — e passou a fazer parte apenas da Comissão de Petições, um órgão que se reúne a portas fechadas e no qual raramente se vota.
Ábalos recebeu o mesmo tratamento que na legislatura anterior foi dado a Pablo Cambronero, que acabou no Misto após abandonar o grupo de Ciudadanos, formação com a qual havia concorrido às urnas. Por isso, os membros do Misto o equipararam à figura de deputado não vinculado, uma categoria que existe em prefeituras e parlamentos autonômicos, mas que não está regulamentada no Congresso.
Recursos econômicos e condições de Ortega Smith no Misto
Como o restante dos grupos, o Misto recebe uma subvenção fixa mensal de 30.346,72 euros, que é repartida entre seus integrantes, além de uma quantia variável em função do número de assentos, de 1.746,16 euros por mês por deputado.
Dessa forma, esses quase 1.750 euros por assento serão agora atribuídos ao novo membro do grupo, embora, por se tratar de uma subvenção finalista, só possam ser destinados a cobrir despesas vinculadas à sua atividade parlamentar, como a contratação de um assistente.
Com sua passagem do Vox para o Misto, Ortega Smith manterá praticamente a mesma remuneração que tinha após ser despojado pelo grupo de Abascal de todas as portavocias que havia ostentado nesta legislatura: a atribuição constitucional básica de 3.366,99 euros, à qual se soma a indenização de 1.032,38 euros que recebem os deputados eleitos por Madrid para cobrir os custos decorrentes de sua atividade parlamentar.
A mudança de grupo parlamentar implicará também uma nova localização no hemiciclo. Se na última etapa já havia sido deslocado para o chamado 'gallinero', agora deverá sentar-se na zona onde se encontram seus novos 'companheiros' do Mixto, ou seja, no 'gallinero' mas no 'quesito' situado à esquerda do salão de plenos.