Vários meios de comunicação marroquinos atribuíram a uma campanha coordenada através das redes sociais a passagem maciça de jovens para Ceuta registrada nesta quinta-feira. Segundo essas publicações, a mobilização teria como objetivo projetar uma imagem de instabilidade em Marrocos e questionar a capacidade do país para controlar suas fronteiras coincidindo com as celebrações pelo 27º aniversário da entronização de Mohamed VI.
A imprensa do país vizinho repercutiu a entrada de milhares de pessoas na cidade autônoma, principalmente pela praia, nadando e contornando o espigão de El Tarajal. Alguns desses meios referem-se a Ceuta como território «ocupado», expressão que responde à posição oficial marroquina sobre a soberania da cidade espanhola.
As informações também registram o entendimento alcançado entre Madrid e Rabat para reforçar a coordenação e facilitar a entrega «o mais rápido possível» das pessoas que tenham entrado irregularmente em Ceuta.
Uma suposta mobilização digital
O diário marroquino Alyaoum24 questionou se a situação pode ser explicada unicamente como uma nova onda de migração irregular ou como uma decisão espontânea e simultânea de numerosos jovens.
A cabeçalho levanta a possibilidade de que exista uma campanha digital organizada com objetivos políticos e propagandísticos. «Quem está brincando com a mente dos jovens da região? E quem idealizou o telecomando e a campanha digital com fins e objetivos perversos?», aponta o periódico.
Embora reconheça a existência de fatores econômicos e psicológicos que empurram parte da juventude marroquina a emigrar, o meio vincula o momento escolhido para a passagem com as celebrações do Dia do Trono.
Segundo sua interpretação, a difusão de vídeos de jovens nadando em direção a Ceuta buscaria contrapor essas imagens às mensagens oficiais sobre os feitos alcançados durante o reinado de Mohamed VI e apresentar a situação como um «êxodo maciço».
Grupos de WhatsApp e Facebook
O meio Ajbarona também sustenta que as tentativas de entrada foram precedidas por uma campanha de mobilização em redes sociais e serviços de mensagens.
Segundo esta publicação, vários grupos de WhatsApp teriam difundido indicações para que os participantes se concentrassem em um mesmo lugar e a uma hora determinada. O diário assegura ainda que um desses grupos estaria administrado a partir de um número de telefone com prefixo argelino, extremo que não foi acreditado de maneira independente.
Os meios marroquinos também apontam para a existência de grupos fechados no Facebook nos quais teria sido incentivado a preparar a travessia e teriam sido compartilhadas referências a tentativas anteriores de entrada massiva pela fronteira.
Espanha e Marrocos apontam para as redes criminosas
As informações difundidas em Marrocos coincidem parcialmente com a versão transmitida pelos governos de ambos os países, que têm defendido a cooperação bilateral e têm apontado para redes dedicadas ao tráfico de pessoas como responsáveis por promover os movimentos migratórios.
O Ministério do Interior espanhol sustenta que essas organizações estariam tentando aproveitar a recente sentença do Tribunal Supremo sobre os migrantes que acessam nadando a Ceuta e Melilla. A decisão descarta aplicar-lhes o rejeição imediata na fronteira quando não tenham superado elementos físicos de contenção, por isso devem se submeter ao procedimento ordinário de devolução.
No momento, não existem provas públicas que permitam confirmar que a entrada massiva tenha respondido a uma única operação organizada nem que por trás da convocação se encontre um ator político concreto. As acusações difundidas pela imprensa marroquina se baseiam principalmente em publicações e grupos detectados em redes sociais.