Espanha vive um dos piores anos de sua história em matéria de incêndios florestais. Mais de 123.000 hectares arderam até agora em 2026, segundo os dados do sistema europeu Copernicus, uma cifra que quadruplica a registrada no mesmo período do ano passado e que já supera amplamente os 101.000 hectares contabilizados pelo Ministério para a Transição Ecológica em seu último balanço provisório.
Os números não falam apenas de superfície queimada. 2026 já acumula 22 grandes incêndios florestais, mais do que o dobro da média da última década, e deixou imagens inéditas em boa parte do país: vilarejos evacuados durante dias, milhares de vizinhos desalojados, estradas cortadas e dois incêndios que marcarão um antes e um depois.
O primeiro foi o de Los Gallardos (Almería), que provocou 13 falecidos, sete hospitalizados e arrasou umas 7.000 hectares, tornando-se um dos incêndios mais mortais da história recente da Espanha.
O segundo foi o de La Mierla (Guadalajara), que com mais de 35.000 hectares calcinados se tornou o segundo maior incêndio florestal da história do país, apenas atrás do de Larouco (2025), e o mais devastador registrado nunca em Castilla-La Mancha.
Enquanto boa parte da Espanha continua sob risco extremo de incêndios devido à onda de calor, as chamas também reavivaram o debate político sobre como abordar a emergência. E sobre isso, como em tudo, cada um tem suas próprias conclusões.
Sánchez volta a reclamar um grande acordo frente à emergência climática
O presidente do Governo, Pedro Sánchez, se dedicou aos incêndios das últimas semanas e estruturou boa parte de seu discurso nas tragédias que assolam metade da península.
Após deslocar-se no dia 13 de julho até Los Gallardos, Sánchez anunciou que o Executivo colocaria à disposição da Andaluzia todos os recursos do Estado necessários para extinguir o incêndio e adiantou que, uma vez superada a emergência, o Governo também mobilizaria fundos públicos para reconstruir as áreas afetadas e ajudar a compensar as perdas sofridas pelos municípios.
Durante aquela visita, quis lançar além disso uma mensagem de unidade institucional. Acompanhado pelo presidente da Junta de Andaluzia, Juanma Moreno, defendeu que a resposta a esse tipo de catástrofes exige "cooperação, unidade e coerência de ação" entre prefeituras, comunidades autônomas e Governo central.
Mas a mensagem principal foi outra. Sánchez voltou a insistir na necessidade de alcançar "um grande acordo de país frente à emergência climática", uma proposta que o Executivo já havia defendido em anos anteriores e que agora recuperou após o pior verão de incêndios dos últimos tempos.
Para o presidente, o aumento de grandes incêndios demonstra que a Espanha deve adaptar sua estratégia diante de uma realidade climática diferente. "A emergência climática mata", afirmou durante sua coletiva em Almería, onde lembrou ainda que Espanha concentrou no ano passado cerca de um terço de toda a superfície queimada na Europa.
Seu planejamento passa por reforçar tanto a prevenção quanto a capacidade de resposta das administrações e aumentar a proteção das pessoas que vivem em áreas especialmente expostas ao fogo.
Entre as medidas que ele propôs durante as últimas semanas figura também uma proposta pouco habitual no debate político: impulsionar cursos dirigidos à cidadania para ensinar como agir durante um incêndio florestal, convencido de que a prevenção também depende de que a população saiba reagir corretamente durante uma emergência.
O presidente lembrou igualmente que o Governo aprovou em maio o Plano de combate a incêndios de 2026, com um reforço dos meios estatais de extinção, e assegurou que a Espanha continuará recorrendo, quando necessário, ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil para enfrentar campanhas cada vez mais complexas.
Esta mesma quarta-feira, durante sua visita ao incêndio de La Mierla, Sánchez voltou a insistir na mesma ideia. Reclamou novamente um grande pacto político para enfrentar a emergência climática e anunciou que o Executivo declarará a Sierra Norte de Guadalajara como zona gravemente afetada por uma emergência de Proteção Civil, uma medida que permitirá financiar parte da recuperação do território.
Feijóo propõe um acordo de Estado centrado na prevenção e na coordenação
O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, também colocou os incêndios entre as prioridades de sua agenda, embora com um enfoque diferente ao do Governo. Durante sua visita a Los Gallardos, Feijóo anunciou que, se chegar à La Moncloa, impulsionará um Acordo de Estado para a prevenção, a resposta e a coordenação diante dos riscos naturais.
Seu objetivo, explicou, seria garantir que todas as administrações trabalhem sob uma mesma estratégia quando ocorrerem grandes emergências como incêndios florestais, inundações ou fenômenos meteorológicos extremos.
O presidente do PP defendeu ainda que o entendimento institucional mostrado durante a gestão do incêndio de Almería deveria ser mantido além da crise.
"Espero que ninguém estrague isso", afirmou então. Feijóo também advertiu que a combinação de uma primavera especialmente chuvosa e as altas temperaturas do verão havia gerado "toneladas e toneladas de combustível" nas montanhas espanholas, pelo que reclamou para extremar a precaução e reforçar a prevenção para evitar negligências.
Esta quarta-feira, durante o balanço do curso político, voltou a referir-se aos incêndios após a evolução do fogo em Guadalajara.
O líder popular expressou sua solidariedade aos afetados, especialmente aos vizinhos de La Mierla e Tamajón, mas aproveitou para denunciar que Espanha continua sem dispor de uma estratégia nacional capaz de prevenir riscos naturais que a cada ano são mais intensos.
Vox coloca o foco na gestão do monte e reclama mais prevenção
Por sua parte, Vox registrou esta quarta-feira uma iniciativa na Assembleia Regional da Região de Múrcia com a qual pretende mudar o modelo de gestão florestal e reforçar as medidas de prevenção e resposta frente aos incêndios, uma proposta que também quer trasladar aos municípios onde tem representação.
O porta-voz de Vox na Câmara autonômica, Rubén Martínez Alpañez, defendeu uma gestão florestal "ativa", baseada na manutenção permanente do monte e na prevenção, e acusou tanto o PSOE quanto o PP de terem favorecido o "abandono" dos espaços florestais durante os últimos anos.
Entre as medidas que a formação propõe figura melhorar a coordenação entre administrações mediante mecanismos de colaboração interprovincial para a extinção de incêndios, incrementar os recursos humanos e materiais destinados às emergências e desenvolver ações preventivas como a criação e a manutenção de cortafuegos.
A iniciativa também aposta por recuperar a agricultura de sequeiro e outros usos tradicionais do meio rural como ferramentas para reduzir o risco de incêndios, ao considerar que contribuem para a manutenção do território e diminuem a acumulação de combustível vegetal.
Além disso, Vox propõe que as comunidades autônomas elaborem um censo de pessoas vulneráveis —por razões de idade, dependência, saúde ou circunstâncias familiares— para facilitar sua evacuação e atendimento em caso de grandes incêndios florestais.
Sumar aponta para o negacionismo climático
Para Sumar, o foco está sobre a mudança climática e a prevenção. A porta-voz de Sumar no Congresso, Verónica Martínez Barbero, chegou a responsabilizar no passado 11 de julho, após o incêndio de Los Gallardos, Vox e o Partido Popular por favorecer políticas que, em sua opinião, dificultam a luta contra os grandes incêndios.
"Que ninguém se engane. Esses incêndios têm um responsável, que é a não prevenção. E um responsável teórico, que é o negacionismo climático. Portanto, Vox e, portanto, agora já o Partido Popular", afirmou durante a assembleia do Movimento Sumar.
A dirigente vinculou suas críticas ao recente acordo alcançado entre PP e Vox na Andaluzia e reprochou aos populares terem pactuado com uma formação que, segundo sustentou, nega a mudança climática enquanto governa uma das comunidades mais expostas aos grandes incêndios florestais.
Martínez Barbero também acusou o PP de utilizar politicamente a tragédia de Los Gallardos para atacar o Governo central e lembrou que as competências de prevenção e extinção de incêndios correspondem, em grande medida, às comunidades autônomas.
Um debate que se repete a cada verão sem um pacto definitivo
Embora o debate sobre este assunto volte a se intensificar sempre que a Espanha enfrenta um verão especialmente grave, muitas das medidas que hoje os dirigentes propõem coincidem com as reivindicações que engenheiros florestais, bombeiros e especialistas vêm defendendo há anos.
A maioria concorda que a extinção por si só já não é suficiente. Entre as principais demandas figura uma gestão mais ativa do monte durante todo o ano, recuperar atividades tradicionais como a pecuária extensiva para reduzir o combustível vegetal, aumentar as queimadas preventivas sob controle técnico, reforçar as equipes de bombeiros florestais e combater o abandono do meio rural, considerado um dos fatores que favorecem a propagação de grandes incêndios.
Também insistem em melhorar a educação cidadã e o planejamento preventivo para reduzir o impacto de incêndios que são cada vez mais rápidos, mais intensos e mais difíceis de controlar.
Portugal dispõe de planos estatais e autonômicos para coordenar a resposta frente aos incêndios, além de estratégias florestais nacionais e mecanismos europeus de apoio quando as emergências superam a capacidade de uma comunidade autônoma.
No entanto, nunca se alcançou um grande Pacto de Estado específico sobre incêndios florestais que reúna as principais forças políticas e estabeleça uma folha de rota comum a longo prazo.
Este verão, com 123.000 hectares calcinados, 22 grandes incêndios florestais e 13 vítimas mortais, o debate voltou a se intensificar. A incógnita é se, uma vez terminada a campanha de incêndios, as propostas anunciadas pelos distintos dirigentes acabarão se materializando ou voltarão a ficar paradas até que as chamas retornem no próximo verão.