Numerosos residentes e visitantes optaram nesta sexta-feira por abandonar Ceuta rumo à Península, principalmente de ferry para Algeciras, diante do temor a novos incidentes e a carência de produtos básicos. Muitos comércios e supermercados permanecem fechados, o que levou parte da população a sair da cidade, segundo explicaram vários deles à Europa Press no porto. Uma maioria o faz de maneira temporária, com a ideia de retornar quando a situação "se normalizar".
Entre as pessoas que faziam fila para embarcar está Mari Carmen, vizinha de Ceuta que adquiriu nesta mesma tarde um bilhete de barco para se deslocar à casa de sua filha em Algeciras, com a intenção de voltar à cidade autônoma "quando se normalizar" o cenário atual.
"Me dá muita pena, tudo é muito triste e eles não têm culpa", apontou ao ser questionada sobre como percebe o que está acontecendo na cidade, embora tenha reconhecido que sente "medo" e que nas imediações de sua residência ocorreram altercações com vários migrantes.
Ana e José, por sua vez, viajam também para Algeciras por não conseguirem se abastecer de alimentos nos supermercados, fechados seguindo as recomendações das autoridades locais. "Vimos que no Mercadona havia uma avalanche, e estávamos sem comida e sem leite para meu filho", explicaram.
O casal deixou seu filho de cinco anos com familiares e planeja retornar neste sábado a Ceuta, uma vez que possam fazer uma compra com tudo o que é necessário.
A situação afeta igualmente os turistas. Ahmed, cidadão espanhol, e sua parceira, Wesal, residentes em Bruxelas (Bélgica), haviam escolhido Ceuta como destino de férias, mas a insegurança que dizem ter presenciado nas ruas os levou a antecipar seu retorno.
"Não conseguimos comprar comida nem bebida. Minha mulher tem medo", relatou Ahmed, que indicou a esta agência que sua ideia inicial era permanecer na cidade até o próximo 5 de agosto. "Espanha fica no meu coração, voltarei a Ceuta quando assegurarem que isso não acontece de novo", declarou.
Aumento de passageiros nos ferries para Algeciras
Empregados das três principais companhias de navegação que operam a rota entre Ceuta e Algeciras, consultados pela Europa Press, confirmaram um aumento incomum na venda de bilhetes desde a cidade autônoma rumo à Península para estas datas, nas quais normalmente o protagonismo é do início da feira ceutí.
Relatam que bastantes clientes lhes comentaram que estão indo para Algeciras pela situação que a cidade atravessa, e que alguns até decidiram não adquirir ainda a passagem de volta. Questionados sobre um número concreto sobre esse aumento, evitaram oferecer dados.
Beatriz, outra vizinha de Ceuta, sim comprou bilhete de volta, já que prevê retornar uma vez que termine o fim de semana. "Vou para Algeciras porque lá tenho uma casa", apontou, explicando que estava sozinha na cidade, dado que seu parceiro e seu filho estão fora.
"Tenho sentimentos mistos, sobretudo porque há muitas crianças. Mas também me dá medo, nota-se que há muita insegurança", manifestou.