O coordenador federal da Izquierda Unida (IU), Antonio Maíllo, instou o presidente do Governo, Pedro Sánchez, a oferecer total transparência sobre a crise migratória de Ceuta, ao mesmo tempo que considera imprescindível convocar o Conselho de Segurança Nacional e realizar uma "mudança estratégica" na relação com Marrocos.
Nessa linha, defendeu a necessidade de reunir o máximo órgão de segurança do Estado, ao entender que a entrada massiva de migrantes na cidade autônoma deixou "buracos negros" em torno do papel do Centro Nacional de Inteligência, especialmente sobre sua capacidade para antecipar um deslocamento de dezenas de milhares de pessoas na fronteira e sobre a cooperação com os serviços secretos marroquinos.
Em uma entrevista com a Europa Press, Maíllo sublinhou que é essencial que o Executivo detalhe tudo o que diz respeito à "crise humanitária" do passado 30 de julho, que qualifica de "tragédia de dimensões colossais" pelo elevado número de falecidos e desaparecidos, algo que, em sua opinião, deveria suscitar muito mais "indignação".
"Se não fossem pobres, estaríamos falando de outra tela e de outra resposta institucional", manifestou, lamentando a ausência de luto oficial pelas vítimas, um gesto que, em sua opinião, serviria para mostrar às famílias marroquinas que "não estão sozinhas" e que a Espanha, como país vizinho, sabe identificar o que é uma "satrapia".
Segundo o líder da IU, a crise de Ceuta evidenciou que Marrocos "despreza a vida de seu povo" e que "ninguém acredita" que a chegada de 70.000 pessoas à fronteira tenha ocorrido "sem a aquiescência do Estado marroquino".
Iluminar a relação do CNI com Marrocos
Aguardando explicações detalhadas por parte do Governo, Maíllo insiste que existem "buracos negros" sobre os quais se deve "dar luz", especialmente quando se "presume" que o CNI mantém boas relações com os serviços de inteligência do país vizinho.
Diante de um movimento de até 70.000 pessoas na fronteira de Ceuta, levanta como primeira hipótese que os serviços secretos marroquinos "não fossem leais" com seus homólogos espanhóis e, portanto, não transmitissem a informação sobre a iminência de uma entrada massiva.
No entanto, acrescenta uma segunda possibilidade: que o CNI careça de ferramentas eficazes para detectar deslocamentos de milhares de pessoas apesar dos recursos tecnológicos disponíveis. Por isso, reprova que ainda não tenha sido convocado o Conselho de Segurança Nacional, quando considera "incontestável" que a suposta boa sintonia com a inteligência marroquina não corresponde à realidade.
Marrocos interpreta "fraqueza" na política do PSOE
Em paralelo, o dirigente de IU reclama um reexame profundo da política em relação a Marrocos, ao considerar que a estratégia de "apaziguamento" foi um "fracasso" e que o país magrebino leu como "fraqueza" determinados gestos da ala socialista do Governo, entre eles o apoio ao plano de autonomia para o Saara Ocidental defendido por Rabat, rompendo assim décadas de consenso na ação exterior espanhola.
"O apaziguamento não nos trouxe nenhum tipo de resultado positivo", reiterou Maíllo, lembrando que se o próprio presidente definiu o ocorrido como um "ataque" à integridade territorial da Espanha, isso implica que há um responsável e que deveria ter havido uma reação com a criação de um gabinete de crise e a convocação do Conselho de Segurança Nacional, ainda mais diante das aparentes discrepâncias entre Interior e Defesa.
Em qualquer caso, defende que a relação com o país vizinho deve se orientar para uma autêntica "boa vizinhança", mas deixando claro, desde a assertividade, que se deve exigir respeito aos direitos humanos e ao direito internacional.
O papel do Rei na crise de Ceuta
Antes de que Felipe VI se reunisse com o presidente de Ceuta para lhe transmitir seu "carinho e apoio" e de que Juan Jesús Vivas afirmasse estar convencido de que o monarca viajará à cidade porque o Rei "cumpre com seus compromissos", o líder de IU já considerava insuficiente a atuação do Chefe de Estado.
Maíllo se mostra surpreso de que o Rei tenha ido a lugares atingidos por tragédias com vítimas mortais ou danos ecológicos "incalculáveis", como as áreas afetadas por incêndios, mas ainda não tenha feito uma visita à cidade autônoma, sendo seu presidente quem deve se deslocar às Baleares para "prestar homenagem" durante as férias do monarca. "Alguém pode argumentar que, efetivamente, se fosse a Ceuta provocaria um grau de tensão muito maior, mas eu acho que com Marrocos é preciso ter muita clareza quanto às posições".
"Parece-me um erro como me pareceu também um erro que Sánchez mudasse a relação com o Saara Ocidental com a aceitação da proposta marroquina (para a zona)", censurou o coordenador da IU.
Além disso, apontou que o PSOE mantém "uma contradição em seu seio, dado que conhece militantes que apoiam a causa saharaui enquanto tiveram relevância no partido, como os ex-presidentes Felipe González e José Luis Rodríguez Zapatero, que tiveram muitas relações com Marrocos.
O ministro da Transformação Digital e secretário-geral do PSOE de Madrid, Óscar López, garantiu nesta sexta-feira que o Rei visitará Ceuta "quando for oportuno" e "em coordenação com o Governo" ao ser questionado sobre as declarações do presidente ceutí, Juan Jesús Vivas, que assegurou que Felipe VI lhe havia reiterado seu compromisso com essa visita pendente à cidade autônoma.
Excluir Marrocos da Copa do Mundo de 2030
Por outro lado, Maíllo propõe deixar Marrocos fora da organização da Copa do Mundo de Futebol de 2030 após esta crise, e por isso a IU impulsionou no grupo Sumar o registro no Congresso de uma proposição não de lei para abrir este debate.
"O povo marroquino que sofre com seu governo deve saber que outros países sim lutam pelos direitos humanos (..) E a magnífica seleção de futebol de Marrocos tem que saber que o principal inimigo é seu governo e seu Estado", acrescentou.
Além disso, criticou que a FIFA, responsável por este torneio, cometeu "erros gravíssimos" em sua trajetória, como a concessão da Copa do Mundo ao Catar, e por isso reclama que o Governo dialogue com o organismo para exigir que não se conceda a sede a países sem garantias em matéria de direitos humanos.
"Portugal e Espanha têm que ver se Marrocos, como Estado, é merecedor de organizar conosco a Copa do Mundo, que nós acreditamos que não (...) Lança-se uma mensagem muito grande: se um país não despreza a vida de seu povo, se despreza os direitos humanos, será um país que não será atendido nem respaldado pela comunidade internacional", argumentou, advertindo que o principal problema geopolítico é que Rabat conta com o "apoio ativo" dos Estados Unidos e seu presidente, Donald Trump.
Questionado pelas informações que apontavam que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e que esta mesma entidade negou, Maíllo enfatizou que independentemente da credibilidade desta notícia acredita que este levou o organismo a "níveis ínfimos de dignidade institucional", comportando-se como um "lacaios" de Trump.