Em uma tribuna publicada este domingo em El País sob o título "El Mundial de nossas vidas", o presidente do Governo liga a Espanha de Naranjito, a campeã da África do Sul e a nova seleção que esta noite enfrentará a Argentina pela segunda estrela mundialista masculina.
Sua ideia central é simples e emocional: os Mundiais que se vivem durante a infância ficam aderidos para sempre à memória. Sánchez tinha quase 11 anos quando a Espanha organizou o campeonato de 1982. As crianças de 2010 viram depois o gol de Andrés Iniesta. E uma nova geração pode viver este domingo o jogo que lembrará durante o resto de sua vida.
"Hoje todos voltamos a ter 11 anos"
Sánchez encerra o artigo com a frase destinada a concentrar toda a carga emocional de sua mensagem: «Hoje todos voltamos a ter 11 anos».
O presidente sustenta que cada geração conserva um Mundial como uma referência vital. No seu caso foi Espanha 1982, simbolizado por Naranjito e por um país que ainda não havia aprendido a ganhar. Para aqueles que cresceram no início do século XXI, esse momento chegou na África do Sul, quando a Espanha conquistou em 2010 sua primeira Copa do Mundo masculina.
A nova seleção herda agora aquela transformação. Muitos de seus jogadores eram crianças quando Iniesta marcou contra os Países Baixos. Lamine Yamal e Pau Cubarsí mal tinham três anos. Hoje fazem parte do grupo de 26 futebolistas que pode ampliar a história esportiva espanhola diante de uma audiência mundial.
O artigo apresenta assim a final como um revezamento entre gerações: aqueles que contemplaram a vitória de 2010 do sofá de suas casas são agora os responsáveis por tentar reproduzi-la sobre o gramado.
Sánchez enterra o «jogamos como nunca e perdemos como sempre»
A frase política e esportiva mais contundente da tribuna aparece quando Sánchez dá como superada uma antiga maneira espanhola de conviver com a derrota.
Durante décadas, a seleção esteve associada às eliminações dolorosas, os quartos de final, os pênaltis perdidos e aquela sentença resignada de que a Espanha jogava bem, mas acabava perdendo. O presidente contrapõe essa cultura com a etapa aberta pela Eurocopa de 2008 e o Mundial de 2010.
A Espanha, escreve, passou de «jogamos como nunca e perdemos como sempre» para jogar e ganhar como nunca.
A transformação não se atribui unicamente à coragem ou à capacidade de sacrifício. Sánchez reivindica uma identidade futebolística construída em torno do talento, da técnica, da precisão no passe, da solidariedade e do espírito de equipe.
A referência conecta diretamente com a seleção de Luis de la Fuente, que alcançou a final da Copa do Mundo de 2026 após eliminar Portugal, Bélgica e França e receber apenas um gol durante toda a competição.
De Naranjito a Iniesta e de Iniesta a Lamine Yamal
A tribuna utiliza três imagens para percorrer mais de quatro décadas de futebol espanhol.
A primeira é Naranjito, a mascote da Copa do Mundo realizada na Espanha em 1982. Sánchez lembra daquele campeonato como o primeiro que viveu com plena consciência, embora a seleção tenha sido eliminada na segunda fase e não tenha conseguido responder às enormes expectativas do país.
A segunda é Andrés Iniesta, autor do gol que tornou a Espanha campeã do mundo em 11 de julho de 2010. Aquele gol mudou a relação emocional de várias gerações com a seleção e acabou com a ideia de que a Espanha estava condenada a ficar sempre à porta.
A terceira imagem corresponde à geração de Lamine Yamal, Cubarsí, Rodri, Oyarzabal ou Cucurella, que pode transmitir essa memória às crianças que hoje assistem à final. Sánchez apresenta os atuais internacionais como herdeiros da filosofia com a qual a Espanha aprendeu a ganhar: o jogo associativo, a técnica e a confiança no conjunto.
A frase de Laporte que Sánchez transforma em lema nacional
O presidente recupera também uma resposta de Aymeric Laporte quando foi perguntado sobre as possibilidades espanholas de ganhar a Copa do Mundo: «E por que não?»
Sánchez utiliza essa frase como síntese de uma Espanha que, em sua interpretação, já não se impõe limites antes de competir. A seleção alcançou a final porque confia em sua capacidade, mas também porque substituiu o complexo histórico por uma vontade explícita de ganhar.
A seleção feminina também faz parte do relato
Sánchez incorpora expressamente a equipe feminina dentro da história das estrelas espanholas.
A primeira chegou com a seleção masculina em 2010. A segunda, lembra, foi conquistada pelas jogadoras espanholas na Copa do Mundo de 2023. Sua formulação evita apresentar o sucesso deste domingo como a segunda estrela absoluta do futebol espanhol e o situa como a oportunidade de conseguir a segunda do time masculino.
A referência permite construir uma continuidade entre duas seleções que colocaram a Espanha entre as principais potências mundiais e geraram referências esportivas para meninos e meninas.
O presidente menciona precisamente aqueles que sonham em se parecer com Rodri, Oyarzabal ou Cucurella. Em seu relato, o efeito da Copa do Mundo não termina com o resultado: começa na capacidade desses futebolistas de se tornarem a memória esportiva de uma nova geração.
Espanha-Argentina: a final que pode mudar o relato outra vez
Espanha e Argentina disputarão a final neste domingo, 19 de julho, no New York New Jersey Stadium.
O jogo começará às 21h00 na Espanha peninsular e Baleares, às 20h00 nas Canárias e às 16h00 em Buenos Aires. A Argentina chega como atual campeã do mundo e da América; a Espanha, como campeã da Europa.
A seleção espanhola busca seu segundo Mundial masculino após o conquistado na África do Sul. A Argentina aspira a revalidar o título obtido no Catar e somar sua quarta Copa do Mundo.
Para Sánchez, no entanto, o valor da citação já transborda o placar. A Espanha alcançou a final representando uma maneira de jogar e uma forma de se projetar: sem renunciar à competitividade, mas vinculando o sucesso à cooperação, à humildade e ao respeito.
A Copa do Mundo 2030 já aparece no horizonte
A tribuna termina olhando para o próximo grande campeonato. Em 2030, a Espanha voltará a ser um dos países organizadores da Copa do Mundo, junto com Portugal e Marrocos.
Para então, as crianças que hoje contemplam o Espanha-Argentina estarão quatro anos mais velhas. Alguns conservarão a final como sua primeira lembrança futebolística completa; outros a incorporarão a uma memória que começou com a Eurocopa ou com a Copa do Mundo feminina.
Sánchez sustenta que a de 2026 já se tornou, antes mesmo de conhecer o campeão, em outra Copa do Mundo de nossas vidas.
A afirmação contém algo de nostalgia antecipada. Esta noite ainda não ocorreu nada definitivo, mas milhões de pessoas já sabem onde estarão, com quem verão o jogo e a quem abraçarão se a Espanha marcar.