Quatro dias depois da entrada maciça, persistem as discrepâncias sobre o número de pessoas que permanecem na cidade e sobre o balanço de falecidos, enquanto a Audiência Nacional investiga se houve uma ação concertada
Quatro dias depois da entrada maciça de migrantes em Ceuta desde Marrocos, a cidade autônoma continua longe de recuperar a normalidade. O Governo estima que permanecem na cidade cerca de 2.500 pessoas que entraram de forma irregular, enquanto o Executivo ceutiano eleva essa cifra provisória até entre 3.000 e 5.000 migrantes que ainda não retornaram a Marrocos.
A diferença entre ambas as estimativas reflete a dificuldade para quantificar com precisão as consequências de uma crise migratória sem precedentes, que colocou sob pressão as administrações e mantém desplegados cerca de 3.000 efetivos das Forças Armadas, da Guarda Civil e da Polícia Nacional.
Vivas: "Ceuta ainda não voltou à normalidade"
O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, assegurou que a cidade continua marcada pela "angústia, o temor, a sensação de impotência e o medo" vividos durante a chegada maciça de migrantes, que, segundo seus cálculos, alcançou as 80.000 pessoas, uma cifra superior às estimativas oferecidas pelo Governo central.
Em declarações televisivas, Vivas afirmou que a integridade territorial de Ceuta foi "violentada" e insistiu que a situação deixou uma profunda marca entre os cidadãos.
Embora a maioria de quem cruzou a fronteira tenha retornado voluntariamente a Marrocos, ainda permanecem grupos espalhados por diferentes pontos da cidade, especialmente nas imediações do Centro de Estância Temporária de Imigrantes (CETI), onde as autoridades reforçaram a atenção humanitária.
O Governo prepara novas repatriações
O delegado do Governo em Ceuta, Miguel Ángel Pérez, defendeu que o número de pessoas que continuam na cidade gira em torno de 2.500 e explicou que o Executivo trabalha para acelerar os procedimentos de repatriação de quem permanece em território espanhol.
Ao mesmo tempo, destacou que estão sendo reforçados os dispositivos de assistência humanitária para atender aos migrantes que ainda permanecem na cidade.
Vivas acusa o Governo de reagir tarde
O presidente ceutiano voltou a questionar a resposta do Executivo de Pedro Sánchez e assegurou que seu Governo vinha alertando há dias sobre movimentos incomuns na fronteira.
Segundo explicou, entre 1.800 e 2.000 pessoas já tinham tentado acessar a Espanha nos dias anteriores à entrada massiva, por isso reclamou a ativação de um comando único ao abrigo da Lei de Segurança Nacional.
"Comunicamos de maneira reiterada ao Governo, pedíamos medidas excepcionais e nada disso foi feito", afirmou Vivas, que considera que a resposta foi "manifesta e insuficiente".
Em uma entrevista concedida a El País, o dirigente popular também assegurou que "Marrocos não é um parceiro confiável".
Albares insiste na colaboração de Marrocos
Frente a essas críticas, o ministro de Assuntos Estrangeiros, José Manuel Albares, qualificou o ocorrido de "inusual", embora tenha sublinhado que Marrocos colaborou desde o primeiro momento para tentar frear o fluxo migratório.
Enquanto isso, o Ministério do Interior mantém que não existiam informações do Centro Nacional de Inteligência (CNI) que permitissem antecipar a magnitude da crise, uma versão que continua sendo questionada pelo Partido Popular.
Discrepâncias também sobre o número de falecidos
As diferenças entre administrações também afetam o balanço de vítimas mortais.
A Delegação do Governo situa em 74 o número de migrantes falecidos durante a crise, a maioria por afogamento.
No entanto, o Governo de Ceuta eleva essa cifra até 88 cadáveres recuperados, enquanto as autoridades marroquinas informaram sobre a descoberta de onze corpos em suas costas.
Em paralelo, a Audiencia Nacional solicitou um relatório policial para determinar se a entrada massiva de migrantes poderia responder a uma "ação concertada", uma investigação que tentará esclarecer se existiu algum tipo de organização por trás da maior crise migratória registrada na história recente de Ceuta.