A Unidade Central Operativa (UCO) da Guarda Civil localizou mais de 18.000 euros em dinheiro de origem desconhecida à disposição de Santos Cerdán. Os investigadores consideram que o que foi secretário de Organização do PSOE utilizou além disso a empresa Servinabar para realizar pagamentos em nome próprio e atender despesas relacionadas com seu entorno.
Assim consta no relatório elaborado pela UCO sobre o patrimônio do ex-dirigente socialista e enviado ao magistrado do Tribunal Supremo Leopoldo Puente, instrutor do caso que investiga o suposto recebimento de comissões em troca de adjudicações de obras públicas.
A análise reforça as suspeitas da Guarda Civil sobre o controle que Cerdán teria exercido sobre a Servinabar, apesar de não figurar formalmente como administrador da sociedade. Tanto o ex-dirigente socialista quanto o empresário Antxón Alonso, proprietário oficial da companhia, negaram reiteradamente que Cerdán fosse sócio da mercantil.
Mais de 18.000 euros sem origem conhecida
A UCO reconstruiu as quantidades de dinheiro através da cruzamento dos movimentos bancários de Cerdán com as conversas e a documentação incorporadas ao caso.
Os agentes identificaram mais de 18.000 euros cujo origem não aparece refletido em retiradas de dinheiro das contas conhecidas do investigado nem encontra correspondência, por enquanto, com seus rendimentos declarados.
A Guarda Civil não conclui ainda que todo esse dinheiro proceda diretamente das supostas comissões investigadas. O que constata é que Cerdán teria disposto de quantidades em dinheiro cujo origem não pôde ser acreditada através da análise de seu patrimônio.
Essa falta de correspondência constitui um dos principais indícios coletados pelos investigadores, que tentam determinar se existiu um circuito de dinheiro opaco paralelo aos movimentos bancários ordinários.
Servinabar, ao serviço dos pagamentos de Cerdán
O relatório também atribui à Servinabar um papel central na operativa econômica do antigo número três do PSOE. Segundo a UCO, Cerdán teria recorrido à empresa para ordenar ou canalizar pagamentos sem necessidade de realizá-los diretamente de suas próprias contas.
A relação entre ambos não se limitaria, portanto, aos gastos pessoais e familiares que a sociedade assumiu durante vários anos. Os investigadores consideram que Cerdán tinha capacidade para pedir a Antxón Alonso que Servinabar realizasse determinadas transferências ou abonasse gastos por indicação sua.
Entre os episódios já incorporados à investigação figura uma transferência de 4.500 euros realizada por Servinabar à fundação Fiadelso, presidida então por José Luis Ábalos. A operação se produziu depois que a filha do ex-ministro reclamou o dinheiro e Cerdán trasladou o pedido a Alonso.
Para a UCO, esse tipo de operações evidencia que o ex-dirigente socialista dispunha de uma capacidade de decisão sobre o dinheiro da empresa dificilmente compatível com uma mera relação pessoal com seu administrador.
O contrato por 45% de Servinabar
A Guarda Civil encontrou durante o registro do domicílio de Antxón Alonso um contrato privado datado de 1 de junho de 2016 pelo qual Cerdán teria adquirido 1.350 participações de Servinabar. O pacote representava 45% da sociedade e tinha um preço de 6.000 euros.
A defesa de Cerdán sustenta que aquele documento nunca foi elevado a escritura pública nem teve efeitos jurídicos. O ex-secretário de Organização também nega ter sido proprietário da empresa.
No entanto, a UCO considera que o contrato, unido aos pagamentos ordenados por Cerdán e aos benefícios pessoais assumidos pela mercantil, permite atribuir-lhe uma vinculação real com Servinabar.
Aluguéis, móveis, viagens e um cartão de empresa
Os investigadores já haviam documentado que Servinabar pagou gastos pessoais de Cerdán e de sua família. Entre eles aparecem o aluguel de residências em Madrid, a compra de mobiliário, viagens, restaurantes e compras realizadas mediante um cartão bancário da sociedade.
A empresa também efetuou pagamentos ou contratações vinculados à esposa, à irmã e ao cunhado do antigo dirigente socialista. A UCO sustenta que Cerdán e seu entorno familiar foram beneficiários econômicos da mercantil durante vários anos.
Servinabar transferiu, além disso, mais de 367.000 euros entre 2020 e 2025 à cooperativa Erkolan, que contratou Belén Cerdán, irmã do ex-secretário de Organização. A Guarda Civil investiga se esses fundos serviram para financiar indiretamente sua remuneração.
A conexão entre Servinabar e Acciona
A relevância da Servinabar reside também na origem de suas receitas. Segundo outro relatório da UCO, cerca de 75% do dinheiro recebido pela sociedade procedia de sua relação comercial com a Acciona, principalmente através de contratos e uniões temporárias de empresas vinculadas a obras públicas.
Os investigadores mantêm que Servinabar cobrava aproximadamente 2% de determinadas adjudicações obtidas pela Acciona e analisam se esses pagamentos encobriam comissões por contratos supostamente manipulados.
Cerdán teria agido, segundo a tese policial, como elo entre a construtora, a Administração e o emaranhado empresarial. A investigação alcança também vários antigos diretores da Acciona e os empresários que participaram das sociedades sob suspeita.
Cerdán nega as acusações da UCO
Santos Cerdán mantém sua inocência e rejeita ter cobrado comissões, controlado a Servinabar ou participado na manipulação de contratos públicos. O ex-dirigente socialista qualificou os relatórios da Guarda Civil de “especulações policiais” e, mais recentemente, de “ficção científica”.
Será o juiz Leopoldo Puente quem avaliará os indícios apresentados pela UCO e determinará seu alcance dentro da causa por supostos crimes de organização criminosa, corrupção, tráfico de influências e lavagem de dinheiro.