Ortega anuncia o fim das eleições na Nicarágua e cinge seu poder junto a Rosario Murillo

Daniel Ortega afirmou que na Nicarágua "não haverá mais eleições", uma declaração que elimina qualquer possibilidade real de alternância e consolida o poder que compartilha com sua esposa, Rosario Murillo. O anúncio, realizado durante a comemoração da Revolução Sandinista, foi condenado pelos Estados Unidos e pelas Nações Unidas como um novo retrocesso democrático em um país onde a oposição, a imprensa independente, a Igreja crítica e antigos aliados sandinistas têm sido perseguidos durante anos.

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Los copresidentes de Nicaragua, Daniel Ortega y Rosario Murillo, en una fotografía de archivo Europa Press/Contacto/Jairo Cajina

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O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, anunciou que no país "não haverá mais eleições", uma frase que marca um novo salto na deriva autoritária do regime sandinista e que deixa sem horizonte eleitoral a oposição. O anúncio ocorreu durante a comemoração da Revolução Sandinista, em um ato de forte carga simbólica para o oficialismo e diante de uma estrutura política completamente controlada pelo próprio Ortega e por sua esposa, Rosario Murillo.

A decisão elimina de fato a possibilidade de que uma força oposicionista possa disputar o poder quando terminar o atual mandato. Ortega governa a Nicarágua desde 2007 e, após as últimas reformas institucionais, compartilha formalmente o poder com Murillo, reconhecida como copresidenta dentro de um esquema que concentra o Executivo, a Assembleia Nacional, a Justiça e os principais organismos do Estado nas mãos do oficialismo.

Um regime cada vez mais familiar

O anúncio consolida uma estrutura de poder cada vez mais fechada e familiar. Ortega e Murillo não apenas controlam o Governo, mas também os mecanismos institucionais que deveriam servir de contrapeso: Parlamento, tribunais, autoridade eleitoral e aparato administrativo. Nesse contexto, a desaparecimento das eleições não aparece como um fato isolado, mas como a culminação de anos de deterioração democrática.

A incógnita agora é como se articulará juridicamente a eliminação dos pleitos e que fórmula utilizará o regime para justificar a continuidade do poder sem competição eleitoral. Também fica aberta a questão sucessória, especialmente pelo peso crescente de Rosario Murillo e pelo papel que possa desempenhar o entorno familiar dentro de uma estrutura política desenhada para impedir qualquer alternância.

Repressão contra opositores, jornalistas e religiosos

O Governo nicaraguense encarcerou, expulsou ou privou da nacionalidade dirigentes opositores, jornalistas, religiosos, ativistas e antigos aliados sandinistas. A repressão se intensificou após as protestas de 2018, quando o regime respondeu com dureza às mobilizações sociais e começou uma ofensiva sustentada contra qualquer expressão organizada de dissidência.

Desde então, Nicarágua tem fechado espaços políticos, meios de comunicação, organizações civis, universidades e canais de participação. Muitos opositores vivem no exílio, outros foram despojados de seus direitos políticos e uma parte da sociedade civil opera fora do país. A frase de Ortega não inaugura esse processo, mas sim o verbaliza de forma definitiva: o regime já não apresenta as eleições como uma via legítima de competição.

Condenação dos Estados Unidos e das Nações Unidas

Estados Unidos condenou o anúncio e pediu para aumentar o isolamento internacional do regime nicaraguense. Washington interpreta a declaração de Ortega como uma confirmação de que o poder sandinista não pretende permitir uma competição democrática real nem abrir uma transição política supervisionada.

Também Nações Unidas denunciou o deterioro dos direitos políticos e civis na Nicarágua. O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos advertiu nos últimos meses sobre o desmantelamento dos controles democráticos e a construção de um Estado autoritário, com instituições subordinadas ao Executivo e sem garantias efetivas para a oposição.

O fim das eleições como ponto de não retorno

A frase de Ortega supõe um ponto de não retorno na crise democrática nicaraguense. Até agora, o regime mantinha uma aparência eleitoral, embora marcada pela exclusão de candidatos, a perseguição de opositores e o controle absoluto do órgão eleitoral. Ao anunciar que não haverá mais eleições, o presidente abandona até mesmo essa fachada e apresenta a permanência no poder como um objetivo explícito.

O resultado é uma Nicarágua sem alternância, com a oposição desmantelada e com um poder concentrado em torno de Ortega, Murillo e seu círculo mais próximo. A pergunta já não é se haverá eleições competitivas no curto prazo, mas quais instrumentos internos ou pressão internacional podem alterar uma estrutura projetada precisamente para que o poder não volte a se submeter ao voto.

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