Uma equipe de especialistas da Fundação de Pesquisa HM Hospitales (FiHM) realizou um estudo no qual identifica uma "janela de oportunidade para reverter a obesidade infantil", situada entre os dois e os cinco anos de idade.
"Este trabalho demonstra que a idade em que agimos é determinante", destacou seu presidente, o professor Alberto Muñoz Terol, que sublinhou que "existe uma janela biológica na qual o organismo responde muito melhor às intervenções sobre os hábitos de vida". "Se conseguirmos agir nesse momento, aumentam consideravelmente as possibilidades de recuperar um peso saudável", acrescentou.
Para alcançar essas conclusões, a pesquisa, cujos resultados foram divulgados na revista especializada 'Nutrients', acompanhou durante cinco anos uma ampla coorte de 37.465 menores de entre zero e 18 anos atendidos na rede assistencial de HM Hospitales.
"Esses resultados fornecem uma base científica para reforçar as estratégias de prevenção precoce da obesidade infantil", prosseguiu Muñoz Terol. O trabalho também constata que, a partir dos seis anos, essa capacidade de reverter o excesso de peso se reduz de forma notável e se instaura o que os pesquisadores denominam "armadilha da gordura", uma fase na qual o sobrepeso tende a persistir ao longo do tempo.
Atualmente, a obesidade infantil continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública: um em cada quatro crianças europeias de entre sete e nove anos apresenta excesso de peso e uma em cada 10, obesidade. Apesar de que nos últimos anos foram detectadas ligeiras quedas na prevalência, a Espanha continua se posicionando como o sexto país europeu em excesso de peso e o sétimo em obesidade infantil.
Com esse contexto, a FiHM impulsionou a primeira publicação científica derivada de seu Observatório da Obesidade Infantil, um projeto baseado na análise estratégica de dados clínicos reais provenientes da atividade assistencial do Grupo. Dirigido pela doutora Zelmira Bosch, o trabalho integrou informações de 102.228 consultas clínicas realizadas nos hospitais da entidade na Catalunha, Madrid, Galícia, Castela e Leão e Castela-La Mancha.
Evolução do IMC e "plasticidade metabólica"
Graças a este volume de dados, os especialistas puderam reconstruir a evolução longitudinal do índice de massa corporal (IMC) e analisar como o peso se modifica à medida que os menores crescem. "A principal descoberta do estudo demonstra que as crianças entre dois e cinco anos apresentam uma elevada plasticidade metabólica", apontaram.
"E independentemente de inicialmente apresentarem sobrepeso ou obesidade, aproximadamente três em cada quatro recuperam um peso normal, o que torna esta etapa uma autêntica janela de oportunidade para intervir por meio de mudanças na alimentação, na atividade física e nos hábitos familiares", insistiram os pesquisadores, para ressaltar que "pelo contrário, os dados mostram uma mudança muito significativa a partir dos seis anos".
Nesse sentido, os especialistas destacam que "neste grupo etário, 60 por cento das crianças com obesidade continuam apresentando obesidade um ano depois, enquanto que uma em cada quatro menores com sobrepeso progride para obesidade".
Além disso, ressaltaram "outro aspecto especialmente relevante para a prática clínica", que é que "após a primeira avaliação médica, muitas crianças com sobrepeso ou obesidade experimentam uma melhora rápida de seu IMC, o que sugere que a intervenção precoce e o acompanhamento clínico podem ter um efeito benéfico desde as primeiras fases do acompanhamento".
"Esta descoberta orientará as estratégias clínicas e de saúde pública para evitar que a obesidade se torne uma doença crônica", destacou o primeiro autor do trabalho, o doutor Juan Pablo González-Rivas, ao resumir a principal conclusão. Junto com os demais autores, ressaltou ainda que "atrasar a intervenção pode favorecer que a obesidade se consolide e resulte, posteriormente, muito mais difícil de reverter".