A defesa de Francisco Martínez sustenta que o delitivo teria sido frear a investigação a Bárcenas e deter a Operação Kitchen

A defesa de Francisco Martínez sustenta que investigar Bárcenas foi legal e que frear a Operação Kitchen teria sido o realmente delitivo.

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A representação legal do ex-secretário de Estado de Segurança Francisco Martínez afirmou esta quarta-feira perante a Audiência Nacional que "não investigar" o ex-tesoureiro do PP Luis Bárcenas e seu círculo próximo teria constituído "verdadeiramente o delito", da mesma forma que seria que o antigo 'número dois' do Interior "tivesse parado" a denominada 'Operação Kitchen'.

O advogado Pedro Colina expôs essas considerações em seu relatório final perante o tribunal que julga a 'Operação Kitchen', o suposto dispositivo colocado em marcha em 2013 a partir do Ministério do Interior do Governo de Mariano Rajoy para subtrair informações a Bárcenas e, presumivelmente, obstruir assim as investigações sobre uma possível contabilidade paralela no partido.

Colina defendeu que "existia uma operação policial real, lícita e legal de inteligência para buscar dinheiro, patrimônio, do senhor Bárcenas e sua família". "Uma operação de Estado", resumiu o advogado, insistindo que a atuação policial se enquadrava na legalidade.

Nessa linha, ressaltou que o que "teria sido verdadeiramente delito" teria sido que "não se investigasse Bárcenas e seu entorno", e que, caso Martínez "tivesse parado esta operação", isso sim seria o "realmente delitivo", segundo seu posicionamento perante o tribunal.

Uma operação de inteligência "de tudo menos clandestina"

Por outro lado, o defensor de Martínez assegurou que "não há uma prova de que desde o topo do Ministério do Interior ou desde o PP se ordenasse" a operação, que, de acordo com sua versão, se gestou na Direção Adjunta Operativa (DAO) da Polícia Nacional.

O advogado explicou que o operativo teria surgido a partir de "a oportunidade de que o motorista de Bárcenas seja confidente" e sublinhou que se tratava de "uma operação de inteligência de tudo menos clandestina", ressaltou, aludindo à abundante documentação e testemunhos recolhidos.

"Nós nos jogamos quase três meses de julgamento, declararam aqui um monte de pessoas e nenhum testemunho, nenhum perito veio aqui nos contar que existe a 'Operação Kitchen' tal como as acusações a conceberam. Nenhum", disparou Colina, questionando assim o relato das partes acusadoras.

O próprio Martínez admitiu que "estava ciente desta operação" e que "foi informado sobre ela", já que estava "dentro de suas funções ser informado e coordenar determinadas atuações policiais que pudessem ter interesse para o Estado", justificou o advogado, enquadrando seu papel em suas responsabilidades institucionais.

Não obstante, o advogado negou que o ex-secretário de Estado de Segurança tivesse dado "instruções" ao comissário aposentado José Manuel Villarejo, acusado de ter captado e dirigido o motorista de Bárcenas, Sergio Ríos, também processado neste caso.

Em relação aos supostos pagamentos com fundos reservados ao ex-motorista, Colina defendeu que "pagar a um informante por uma operação lícita é lícito", sustentando que a utilização desses recursos se ajustou ao marco legal previsto para este tipo de trabalhos de inteligência.

A defesa solicitou a absolvição de Martínez dos crimes de encobrimento, malversação e contra a intimidade, pelos quais a Promotoria reclama 15 anos de prisão para quem foi o 'número dois' do ex-ministro do Interior Jorge Fernández Díaz.

Colina acrescentou que Bárcenas "jamais teve uma prova e, portanto, jamais lhe tiraram nada", pelo que, a seu juízo, "o caso Kitchen cai, desaparece".

"O senhor Bárcenas não tinha uma única prova contra o Partido Popular", afirmou o advogado, antes de ressaltar que "se ele tivesse, teve oportunidades de sobra para apresentá-las, inclusive antes de ser preso preventivamente".

As agendas e gravações de Villarejo, em questão

Em outro trecho de seu relatório, a defesa de Martínez qualificou como "não naturais nem espontâneas", mas "dirigidas" as gravações de Villarejo reproduzidas na audiência oral, e sustentou que não devem ser admitidas como prova porque "vulneram os direitos fundamentais" do ex 'número dois' do Interior. Além disso, sugeriu que os áudios apresentados pelo empresário Javier Pérez Dolset, investigado no 'caso Leire Díez', poderiam ter sido manipulados pelo próprio.

Igualmente, colocou em questão outra das principais evidências do procedimento, as agendas de Villarejo, ao apontar que "não podem ser um dado objetivo externo que corrobore as gravações" e que "sobretudo não é algo que em si mesmo tenha um conteúdo incriminatório".

Ao mesmo tempo, dirigiu uma crítica velada ao fiscal anticorrupção, César de Rivas, que havia sustentado que Villarejo "não se engana a si mesmo", replicando que "há um monte de elementos" nas anotações que desmentem essa tese. "Não podemos confiar em seu conteúdo", discordou o advogado.

"Quando alguém está mentindo constantemente ou está criando fábulas ou está em conversas contando histórias que não são verdadeiras para obter outro tipo de informação, então entendo que talvez anotem suas agendas para não esquecê-las e para lembrar", raciocinou Colina, diminuindo a credibilidade desses documentos.

Além disso, lembrou que nas agendas "não se fala de uma 'Operação Kitchen' consistente em roubar documentos a Bárcenas para beneficiar os dirigentes do PP", insistindo que, a seu ver, não respaldam a versão das acusações sobre o suposto plano para proteger o partido.

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