Financiamento autonômico: o que o Governo quer mudar e o que cada comunidade joga

Hacienda quer aprovar um novo sistema que entraria em vigor em 2027 e mobilizaria 20.975 milhões de euros adicionais para as comunidades de regime comum. O modelo aumenta a parte do IRPF e IVA cedida às autonomias, modifica o cálculo da população ajustada e cria novos mecanismos de nivelamento. Andaluzia seria a que mais ganharia em termos absolutos, Catalunha obteria 4.686 milhões adicionais e a Comunidade Valenciana e Múrcia melhorariam especialmente sua posição, mas o acordo está longe de estar fechado.

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A reforma do financiamento autonômico volta ao centro da agenda política. O Ministério da Fazenda convocou para a próxima sexta-feira, 4 de setembro o Conselho de Política Fiscal e Financeira (CPFF) com o objetivo de submeter à votação sua proposta e desbloquear um modelo que está pendente de renovação desde 2014. A reunião deveria ter sido realizada em julho, mas foi adiada a pedido das comunidades governadas pelo PP.

A reforma não consiste simplesmente em entregar mais dinheiro. Muda quais impostos são repartidos, como se calcula quanto cada território precisa e quais mecanismos são utilizados para compensar as diferenças entre comunidades. A Fazenda estima que em 2027 o sistema distribuiria 224.507 milhões e aportaria 20.975 milhões adicionais em relação a manter o modelo vigente. O projeto ainda não está aprovado: após o CPFF, teria que passar pelo Conselho de Ministros e posteriormente pelas Cortes, onde sua viabilidade parlamentar não está garantida.

Mais IRPF e mais IVA para as comunidades

Uma das mudanças mais importantes afeta os impostos. Atualmente, as comunidades recebem 50% do IRPF e 50% do IVA. A proposta eleva a participação autonômica até 55% do IRPF e 56,5% do IVA, o que, segundo a Fazenda, representaria cerca de 16.000 milhões adicionais em capacidade tributária durante 2027. Também entrariam no sistema figuras como Patrimônio, o imposto sobre depósitos bancários, determinadas atividades de jogo e o imposto sobre o depósito de resíduos em aterros.

O Governo quer introduzir ainda um mecanismo voluntário vinculado ao IVA gerado pelas pmes. Uma comunidade onde o peso relativo do IVA declarado por pequenas e médias empresas seja superior ao seu índice de consumo poderia receber uma transferência adicional. Junto a isso, propõe-se um sistema de "caixa compartilhada" para que determinados ingressos tributários cheguem com maior rapidez às autonomias e reduzir o desfasamento atual entre as entregas a conta e as liquidações definitivas.

Muda a população ajustada: idade, estudantes, desemprego e despovoamento

A outra grande batalha está na denominada população ajustada, que não conta simplesmente quantos habitantes tem cada autonomia. Tenta calcular quanto custa prestar saúde, educação e serviços sociais em função das características de sua população.

A proposta reserva um 38% do cálculo para as necessidades sanitárias, diferenciando agora 20 grupos etários; um 30% para a população geral; um 17% para os menores de 18 anos e outro 3,5% para a população universitária e mobilidade de estudantes. Os maiores de 65 anos pesam um 7% e os desempregados sem prestação, um 1,5%. Também entram superfície, dispersão, insularidade e um novo indicador de custos fixos pensado para territórios pouco povoados.

O último rascunho acrescenta ainda uma correção para as comunidades que perdem população, tomando como referência o máximo de sua população ajustada dos três anos anteriores. A intenção é evitar que uma queda demográfica reduza imediatamente seus recursos quando hospitais, escolas ou serviços públicos não podem diminuir seus custos no mesmo ritmo.

O que receberia cada comunidade

Os números publicados inicialmente pela Fazenda permitem observar quem parte como principal beneficiário. São estimativas do Governo para 2027 em relação ao que receberia cada território mantendo o sistema atual e podem sofrer modificações durante a negociação antes da aprovação definitiva.

Andaluzia: 4.846 milhões. É a maior beneficiária em euros absolutos e busca corrigir seu financiamento por habitante.

Catalunha: 4.686 milhões. É um dos grandes vencedores e o modelo incorpora elementos vinculados à ordinalidade e maior autonomia fiscal.

Comunitat Valenciana: 3.669 milhões. Parte de uma das posições mais baixas de financiamento por habitante e reclama uma correção estrutural de sua infrafinanciamento.

Madri: 2.555 milhões. Aumentaria seus recursos, embora sua elevada capacidade fiscal a torne também referência dos mecanismos de nivelamento.

Castela-La Mancha: 1.248 milhões. Obteria mais fundos, mas seu Governo rejeita o desenho atual e exige maior igualdade na distribuição.

Murcia: 1.188 milhões. Uma das autonomias historicamente pior financiadas; teria uma melhoria significativa.

Aragão: 629 milhões. Reclama que território, dispersão e custo de prestar serviços pesem mais.

Canárias: 611 milhões no desenho inicial. As negociações posteriores melhoraram sua posição e o Governo canário cifra já em torno de 1.300 milhões o aumento anual ligado ao acordo global.

Galícia: 587 milhões. O envelhecimento e a dispersão territorial são suas principais reivindicações.

Ilhas Baleares: 412 milhões. Busca que a insularidade e sua elevada capacidade tributária fiquem corretamente refletidas.

Castilla y León: 271 milhões. Considera insuficiente o peso de superfície, dispersão e despovoamento.

Astúrias: 248 milhões. Seu Governo considera insuficiente a cifra e rejeita atualmente a proposta.

La Rioja: 25 milhões. O pequeno tamanho e os custos fixos são determinantes para sua posição.

Cantábria: A Fazenda propõe mecanismos complementares, entre eles cerca de 46 milhões vinculados ao Fundo de Compensação Interterritorial.

Extremadura: O Governo propõe aproximadamente 216 milhões adicionais através de mecanismos complementares.

País Basco e Navarra não fazem parte do sistema de regime comum, já que contam com seus próprios modelos forais de concerto e convênio econômico. Ceuta e Melilla também têm um tratamento específico.

Catalunha: 4.686 milhões e a polêmica da ordinalidade

Catalunha constitui o principal foco político da reforma. A Generalitat calcula que receberia 4.686 milhões adicionais, um incremento de 13,35%, e sustenta que o sistema permitiria aplicar pela primeira vez o princípio de ordinalidade sobre população ajustada: Catalunha manteria a terceira posição como comunidade aportadora e passaria também a ocupar a terceira em recepção de recursos segundo esse indicador.

A ordinalidade pretende evitar que uma comunidade que ocupa uma determinada posição por capacidade fiscal termine muito mais abaixo depois da redistribuição. É precisamente um dos elementos que gera maior rejeição em outras autonomias. Castilla-La Mancha considera que pode introduzir um trato desigual, enquanto Astúrias fixou a ordinalidade como uma de suas linhas vermelhas.

Valência e Múrcia: as comunidades que buscam sair da infrafinanciamento

A Comunitat Valenciana e Múrcia partem das posições mais baixas do atual sistema. Segundo os últimos dados liquidados analisados pela Fedea, ambas se situavam em torno de 94,6% da média de financiamento normativa por habitante ajustado, enquanto territórios como Cantábria superavam amplamente a média.

Por isso a reforma tem para ambas um impacto especialmente importante. A Fazenda calcula inicialmente 3.669 milhões adicionais para a Comunitat Valenciana e 1.188 milhões para Múrcia. No entanto, o Governo valenciano mantém sua oposição política ao procedimento seguido e acusa o Executivo de ter partido de um acordo prévio com Catalunha.

Andaluzia ganharia mais dinheiro que nenhuma outra comunidade

Em termos absolutos, a maior beneficiária seria Andaluzia, com 4.846 milhões adicionais, inclusive ligeiramente acima da Catalunha. Sua elevada população e seu atual financiamento por habitante explicam boa parte do resultado.

O Governo sustenta que o novo mecanismo de nivelamento está desenhado precisamente para reduzir as diferenças. Sua proposta garante que as comunidades alcancem pelo menos 75% da média de recursos por habitante ajustado a partir de sua capacidade tributária e adiciona uma contribuição estatal de cerca de 19.000 milhões para aproximar os territórios que estão mais afastados dos que dispõem de mais recursos. A Fazenda calcula que a distância entre a comunidade melhor e pior financiada passaria de cerca de 1.500 euros por habitante ajustado para aproximadamente 700 após todas as correções.

Galícia, Castela e Leão e Astúrias querem mais peso para o território

As comunidades envelhecidas e com uma elevada dispersão de população mantêm outro frente. Galícia, Castela e Leão e Astúrias sustentam que atender a uma população envelhecida repartida entre milhares de núcleos pequenos encarece hospitais, colégios, transporte sanitário ou serviços sociais.

O novo sistema aumenta o detalhe da idade da população e cria um indicador de custos fixos, mas superfície e dispersão continuam tendo um peso relativamente reduzido: 1,6% e 0,5%, respectivamente. Astúrias já anunciou que votará contra se não houver modificações importantes e considera insuficientes os 248 milhões que lhe correspondem na estimativa inicial.

Canárias muda de posição e apoiará o modelo

Canárias é uma das poucas comunidades que passou da desconfiança inicial ao apoio. Após negociar com a Fazenda, o Governo de Fernando Clavijo anunciou que apoiará a reforma depois de obter garantias para que os recursos vinculados ao Regime Econômico e Fiscal (REF) não sejam contabilizados como financiamento ordinário. O Executivo canário calcula agora que o conjunto de acordos pode lhe reportar aproximadamente 1.300 milhões adicionais por ano, uma cifra superior aos 611 milhões da primeira simulação publicada em janeiro.

Essa evolução demonstra também que a tabela inicial não deve ser interpretada como o resultado definitivo: a Fazenda mantém abertas negociações sobre aspectos específicos de cada território.

Um fundo climático de 1.000 milhões

O projeto incorpora além de um fundo climático de cerca de 1.000 milhões de euros. Dois terços seriam reservados para as comunidades do litoral mediterrâneo, consideradas especialmente expostas ao aquecimento do mar e a fenômenos meteorológicos extremos, enquanto o terço restante seria distribuído entre os demais territórios conforme a população ajustada.

Esta partida beneficia especialmente autonomias mediterrâneas como Catalunha, Comunidade Valenciana, Múrcia, Andaluzia e Ilhas Baleares, embora represente uma fração pequena do conjunto do sistema.

Ninguém perderá dinheiro, segundo a cláusula de statu quo

Para tornar politicamente mais viável a transição, a Fazenda introduz uma cláusula de statu quo: nenhuma comunidade deveria começar o novo modelo recebendo menos dinheiro do que com o sistema anterior. O Estado aportaria cerca de 400 milhões para cobrir essas compensações, especialmente relevantes na Cantábria e na Extremadura.

Este mecanismo evita perdas imediatas, mas também recebeu críticas técnicas. A Fedea adverte que manter indefinidamente essas compensações pode perpetuar as posições herdadas do modelo anterior e dificultar que a distribuição se aproxime realmente dos critérios objetivos estabelecidos pela nova fórmula.

A condonação de dívida é outra reforma distinta

O debate de financiamento coincide com a tramitação da condonação parcial de dívida autonômica, mas são dois assuntos diferentes. O projeto sobre dívida permitiria ao Estado assumir até 83.252 milhões de euros atualmente suportados pelas comunidades de regime comum; a reforma de financiamento determina, por outro lado, como serão repartidos os ingresos a cada ano no futuro.

Uma comunidade pode, portanto, beneficiar-se de uma eventual redução de dívida e ao mesmo tempo discutir quanto recebe com o novo sistema.

Em 4 de setembro, primeira votação decisiva

O próximo passo chegará nesta sexta-feira. A Fazenda pretende que o CPFF aprove a proposta em 4 de setembro para elevá-la posteriormente ao Conselho de Ministros. Catalunha e Canárias adiantaram uma posição favorável, enquanto as comunidades governadas pelo PP mantêm fortes objeções e governos como os de Astúrias ou Castilla-La Mancha também rejeitam atualmente o desenho.

Superar o CPFF não resolverá a questão. A reforma requer depois mudanças legais e sua aprovação definitiva no Congresso não está assegurada. O Governo mantém como objetivo que o novo sistema possa entrar em vigor em 1 de janeiro de 2027, mas para conseguir isso deverá resolver uma discussão que enfrenta interesses territoriais muito diferentes: as comunidades subfinanciadas querem recuperar terreno, as mais envelhecidas reclamam que se valorize o custo da despovoação e as de maior capacidade fiscal buscam que a solidariedade não altere excessivamente sua posição.

Em definitiva, a reforma distribui mais dinheiro, mas a verdadeira batalha está em como se decide quem precisa mais e até onde deve chegar a redistribuição entre territórios.