Mariano Rajoy volta a ser tendência em um momento especialmente incômodo para a política espanhola: o da corrupção como principal arma de confrontação entre o PP e o PSOE. O ex-presidente do Governo reaparece na conversa não porque tenha retornado à primeira linha institucional, mas porque sua figura continua funcionando como referência inevitável toda vez que se fala de regeneração, de casos judiciais e da credibilidade dos partidos para denunciar a corrupção alheia.
O motivo principal é político. Alberto Núñez Feijóo tenta construir sua alternativa a Pedro Sánchez sobre a ideia de uma "reconstrução institucional" e de uma limpeza do Estado após o que o PP chama de "sanchismo". Mas essa ofensiva encontra um limite evidente: a esquerda lembra a etapa de Rajoy, a Gürtel, a Kitchen e aquela frase do ex-presidente em que defendia que não havia uma trama do PP, mas uma "trama contra o PP". Por isso Rajoy volta a circular: porque seu passado político continua sendo utilizado como espelho frente ao discurso atual do PP.
O passado do PP e a ofensiva contra Sánchez
A reaparição de Rajoy se entende melhor no contexto da estratégia de Feijóo. O líder do PP acusa Sánchez de governar para se proteger, de deteriorar as instituições e de estar cercado por uma rede de casos judiciais que, segundo os populares, tornariam insustentável a legislatura em qualquer democracia europeia. Essa mensagem busca situar o PP como o partido da limpeza institucional, mas obriga inevitavelmente a revisar o que ocorreu quando o PP esteve no poder e teve que enfrentar seus próprios casos de corrupção.
Aí é onde entra Rajoy. Para o PSOE e seus aliados, o ex-presidente representa o ponto fraco da ofensiva popular: se o PP exige demissões, eleições e responsabilidades pelas causas que afetam o entorno socialista, seus adversários lembram como o partido reagiu durante a Gürtel e como Rajoy defendeu durante anos sua organização frente às acusações. A tendência, portanto, não nasce apenas de uma frase recente, mas de uma disputa de memória política.
O que Rajoy disse em suas últimas aparições
Rajoy reapareceu também em atos e declarações recentes nos quais voltou a opinar sobre a situação política espanhola. Em uma intervenção nas Baleares, o ex-presidente alertou sobre o "déficit democrático" que, em sua opinião, vive a Espanha e falou de uma polarização especialmente intensa desde a Transição. Seu diagnóstico se encaixa com o discurso atual do PP: o problema não seria apenas a gestão do Governo, mas uma forma de exercer o poder que teria debilitado as instituições e tensionado a convivência.
Esse tipo de mensagens reforçam seu papel como voz de experiência dentro do espaço conservador. Rajoy já não compete pela liderança, não marca a agenda diária do PP e não está na direção do partido, mas conserva uma autoridade simbólica para uma parte do eleitorado popular, especialmente quando fala de estabilidade, gestão, Constituição e resistência institucional.
Uma figura confortável e incômoda para o PP
Rajoy é, ao mesmo tempo, uma figura útil e incômoda para o Partido Popular. Útil porque representa uma etapa de governo, experiência econômica, maioria absoluta e poder territorial. Para muitos eleitores do PP, continua sendo o presidente que gerenciou a saída da crise financeira, freou o desafio independentista de 2017 com a aplicação do artigo 155 e manteve uma ideia de política baseada na prudência, no BOE e na administração do poder.
Mas também é incômodo porque sua etapa ficou marcada pelos casos de corrupção que afetaram o partido e por uma forma de responder a essas crises que seus adversários continuam utilizando contra os populares. Cada vez que o PP tenta se apresentar como uma força de regeneração, o nome de Rajoy volta como lembrete de que a batalha contra a corrupção não se trava de forma abstrata, mas sobre biografias, hemerotecas e responsabilidades passadas.
A frase da "trama contra o PP"
Um dos motivos pelos quais Rajoy volta a circular é a recuperação de sua frase sobre a Gürtel: "Não é uma trama do PP, é uma trama contra o PP". Aquela defesa, pronunciada em um momento de máxima pressão judicial e política, se tornou com os anos uma das citações mais utilizadas pelos rivais do Partido Popular para questionar sua autoridade moral quando fala de corrupção.
A frase funciona agora como uma arma de comparação. Quando o PP acusa o Governo de Sánchez de se esconder atrás do argumento do "lawfare" ou de denunciar perseguições judiciais para não assumir responsabilidades, a esquerda responde que Rajoy também recorreu a uma explicação defensiva quando os tribunais cercavam seu partido. O debate não é apenas jurídico, mas narrativo: quem pode se apresentar como vítima, quem deve assumir responsabilidades e quem tem legitimidade para exigir limpeza institucional.
Rajoy e a batalha pela moderação
A figura de Rajoy também volta porque contrasta com o tom atual da política espanhola. Frente a uma conversa pública muito mais acelerada, polarizada e dominada por redes sociais, o ex-presidente conserva uma imagem de dirigente lento, irônico, institucional e pouco dado ao golpe de efeito. Essa imagem pode resultar atraente para uma parte do eleitorado que olha com cansaço a confrontação permanente, mas também pode parecer insuficiente para aqueles que acreditam que o momento exige uma oposição muito mais dura.
Feijóo tenta se mover precisamente entre esses dois registros: herdar a ideia de solvência e gestão associada a Rajoy, mas sem ficar preso em seu passado judicial nem em uma imagem de excesso de prudência. Por isso a reaparição do ex-presidente é politicamente delicada. Pode aportar autoridade, mas também reabre debates que o PP preferiria deixar fechados.
Do 155 ao debate institucional
O papel político de Rajoy continua vinculado a dois grandes elementos: a gestão econômica após a crise e a resposta ao procés. Para o PP, sua presidência culminou com a aplicação do artigo 155 na Catalunha, uma decisão que o partido continua reivindicando como exemplo de defesa do Estado frente ao desafio independentista. Para seus críticos, em contrapartida, aquela etapa também foi marcada pela falta de resposta política ao conflito catalão e por uma corrupção que terminou erosionando o Governo até a moção de censura de 2018.
Essa dupla leitura explica por que Rajoy não é uma figura neutra. Seu nome ativa lembranças distintas segundo o bloco político: para uns, estabilidade e Constituição; para outros, Gürtel, cortes e desgaste institucional. E em uma etapa em que o PP quer transformar as próximas eleições em um julgamento ao "sanchismo", Rajoy volta porque também foi o último presidente popular em La Moncloa e porque seu legado continua condicionando o relato de Feijóo.
Por que volta a ser tendência agora
Rajoy volta a ser tendência porque a política espanhola entrou novamente em uma fase de comparação entre passados. O PP quer que o debate se concentre em Sánchez, nos casos que afetam o PSOE e na necessidade de uma reconstrução institucional. Seus adversários, por outro lado, tentam levar a conversa para a memória dos governos populares e lembrar que o partido que hoje exige limpeza também arrasta sua própria história.
A isso se somam suas últimas aparições públicas e sua capacidade de gerar manchetes mesmo a partir da segunda linha. Rajoy não precisa ocupar um cargo para voltar ao debate: basta que o PP fale sobre corrupção, que o PSOE responda com a Gürtel ou que o ex-presidente faça uma intervenção sobre a situação política para que seu nome volte a circular nas redes.
O ex-presidente que continua pesando na política atual
Mariano Rajoy já não dirige o PP, mas continua fazendo parte da disputa central da política espanhola. Sua figura pesa porque conecta o presente de Feijóo com o passado do partido, porque serve à esquerda para questionar a ofensiva popular contra Sánchez e porque conserva uma voz própria dentro do espaço conservador.
Sua reaparição mostra que a batalha política não se trava apenas sobre os casos abertos hoje, mas também sobre como se lembram os casos de ontem. Rajoy volta a ser tendência porque a Espanha discute novamente sobre corrupção, instituições e poder, e nesse debate o último presidente popular continua sendo uma referência inevitável.