Tim Curry morreu aos 80 anos. O ator britânico faleceu durante a noite de terça-feira, segundo adiantou o TMZ e foi posteriormente recolhido pela revista People. Por enquanto, não foi comunicada oficialmente a causa de sua morte.
Curry deixa alguns dos personagens mais reconhecíveis do cinema e da televisão das últimas cinco décadas. Foi o exuberante doutor Frank-N-Furter de ‘The Rocky Horror Picture Show’, o aterrorizante Pennywise da primeira adaptação de ‘It’, o frenético mordomo Wadsworth de ‘Cluedo’ e o inquietante recepcionista do hotel Plaza em ‘Esqueceram de Mim 2’.
Mas seu legado vai além de uma galeria de fantasias, vilões e personagens excêntricos. Curry conseguiu que o estranho deixasse de ocupar as margens e entrasse na cultura popular sem renunciar à sua provocação.
‘Rocky Horror’, o fracasso que acabou mudando a cultura
Curry estreou o personagem de Frank-N-Furter na produção teatral de ‘The Rocky Horror Show’ de 1973. Dois anos depois, ele o levou ao cinema em ‘The Rocky Horror Picture Show’, vestido com corpete, meias e saltos para interpretar um cientista extraterrestre sexualmente livre e alheio a qualquer norma convencional.
O filme foi recebido inicialmente com indiferença. Sua segunda vida começou nas sessões de meia-noite dos cinemas americanos, onde o público ia fantasiado, cantava as músicas, respondia aos diálogos e transformava cada projeção em uma representação coletiva.
Aquele fracasso comercial acabou se transformando em um dos grandes filmes de culto da história. Durante décadas, ‘Rocky Horror’ ofereceu a diferentes gerações um espaço para celebrar a diferença, brincar com a identidade e desafiar as regras sobre como uma pessoa deveria se comportar ou se mostrar.
Curry explicou anos depois que assumir um personagem tão sexual e andrógino lhe pareceu arriscado, mas que sempre preferiu o risco. Também reconheceu que interpretar Frank-N-Furter foi uma experiência libertadora que lhe deu coragem para aplicar essa mesma liberdade à sua própria vida.
O ator que tornava os vilões divertidos
A carreira de Curry poderia ter ficado presa naquele personagem. Não aconteceu. O ator utilizou sua voz, seu sorriso e uma teatralidade inconfundível para construir uma sucessão de vilões que eram ameaçadores e divertidos ao mesmo tempo.
Foi o demoníaco Senhor das Trevas em ‘Legend’, o filme fantástico de Ridley Scott, e o cardeal Richelieu de ‘Os três mosqueteiros’. Em 1990, encarnou Pennywise na minissérie baseada em ‘It’, de Stephen King. Sua interpretação transformou um palhaço aparentemente amigável em um pesadelo para milhões de espectadores muito antes da versão cinematográfica de Bill Skarsgård.
Curry explicava sua capacidade de interpretar vilões por meio de dois elementos. Por um lado, a empatia que lhe permitia compreender até mesmo os personagens mais desprezíveis. Por outro, sua decisão de torná-los divertidos, porque o humor adicionava uma camada mais inquietante ao seu comportamento.
Em ‘Cluedo’ transformou o mordomo Wadsworth no motor de uma comédia acelerada e absurda. Também apareceu em ‘Annie’, ‘A caçada ao Outubro Vermelho’, ‘Os Muppets na ilha do tesouro’, ‘Scary Movie 2’ e ‘Esqueceram de Mim 2’.
De Broadway à voz de uma geração
Tim Curry nasceu em 19 de abril de 1946 em Cheshire, Inglaterra. Começou sua carreira profissional em 1968 na produção londrina de ‘Hair’, depois de garantir durante o teste que tinha uma experiência e uma credencial sindical que na verdade não possuía.
O teatro continuou sendo um dos pilares de sua trajetória. Recebeu três indicações ao prêmio Tony e duas ao Laurence Olivier. Na Broadway, interpretou o rei Arthur em ‘Spamalot’, o musical construído a partir do universo de Monty Python.
Também desenvolveu uma extensa carreira como ator de voz. Ganhou um Daytime Emmy em 1991 por ‘Peter Pan e os piratas’ e emprestou sua voz a dezenas de produções, audiolivros e videogames. Para uma geração mais jovem, foi Nigel Thornberry, o excêntrico explorador da série de animação ‘Os Thornberrys’.
Curry lançou três discos como cantor entre 1978 e 1981. Sua carreira nunca se deixou encerrar em uma única categoria: podia passar do musical ao terror, de Shakespeare a uma comédia infantil e de Broadway a um videogame.
O retorno de Frank-N-Furter para derrotar Trump
A dimensão política de ‘Rocky Horror’ reapareceu em outubro de 2020. A poucos dias das eleições presidenciais americanas, Curry voltou a interpretar Frank-N-Furter durante uma leitura virtual organizada para arrecadar fundos para o Partido Democrata de Wisconsin.
O ato reuniu integrantes do elenco original e artistas como Rosario Dawson, Lance Bass, Seth Green e Jason Alexander. O dinheiro foi destinado a mobilizar o voto e ajudar Joe Biden e Kamala Harris a derrotar Donald Trump em um dos estados decisivos daquelas eleições.
Frank-N-Furter retornava assim convertido no que sempre havia representado: uma celebração da individualidade frente àqueles que pretendiam impor uma única maneira de viver, comportar-se ou se mostrar diante dos outros.
O acidente vascular que mudou sua vida
Curry sofreu um grave acidente vascular em 2012 que o deixou paralisado do lado esquerdo do corpo e obrigou a realizar uma operação cerebral de urgência. Desde então, utilizou uma cadeira de rodas e reduziu drasticamente suas aparições públicas, embora continuasse trabalhando em projetos de voz.
Em 2016, participou como narrador na nova versão televisiva de ‘The Rocky Horror Picture Show’, protagonizada por Laverne Cox. Em 2025, publicou ‘Vagabond’, umas memórias nas quais revisitou sua carreira, seus excessos e o longo processo de adaptação posterior ao acidente vascular.
Em uma de suas últimas entrevistas, Curry explicou que o humor também havia se tornado uma ferramenta para conviver com suas limitações. Continuava esperando voltar a atuar e experimentar tudo aquilo que a vida pudesse oferecer-lhe.