A Bolsa do Brasil afunda 17%, saltam os rendimentos da dívida e o real perde 11% frente ao dólar.

A reeleição de Lula desencadeia uma queda do Bovespa, uma forte punição ao real e um aumento da rentabilidade da dívida em dólares.

4 minutos

fotonoticia 20261026180526 1920
Adicione DEMOCRAT no Google

Publicado

4 minutos

Os mercados financeiros do Brasil reagiram nesta segunda-feira à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente com um forte castigo aos ativos do país: disparou a rentabilidade dos títulos soberanos em dólares, o real se depreciou com força frente ao dólar e a Bolsa de São Paulo chegou a ceder em torno de 17%.

No trecho longo da curva, o rendimento dos títulos a 10 anos em dólares subiu para 6,478%, o que implica um aumento próximo a 20 pontos base em relação ao fechamento de sexta-feira. Em paralelo, o dólar chegou a ser trocado por 5,6056 reais, frente aos 4,9777 reais da última sessão antes da votação, o que representa uma perda de valor da moeda brasileira superior a 11%.

Lula, à frente do Partido dos Trabalhadores (PT), venceu neste domingo no segundo turno das eleições presidenciais com 51,79% dos votos frente aos 48,21% obtidos pelo ultraconservador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, conseguindo assim um quarto mandato não consecutivo à frente do maior país da América do Sul.

A reação atual contrasta com o que ocorreu após o primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. Naquela ocasião, Bolsonaro ficou à frente de Lula, embora nenhum tenha alcançado o apoio suficiente para evitar o segundo turno. Nos dias posteriores, o real se apreciou frente ao dólar e as rentabilidades dos títulos em dólares recuaram, desenhando um cenário oposto ao registrado agora.

"Além do caótico final da jornada eleitoral, a vitória de Lula é uma surpresa em si mesma. As últimas pesquisas apontavam para um resultado muito apertado, mas as plataformas de previsão davam ao senador Bolsonaro como vencedor com folga. Os ativos brasileiros também haviam descontado um resultado favorável para os mercados, baseando-se nas expectativas de que um Governo de Bolsonaro realizaria rapidamente um profundo ajuste fiscal", explicou o gestor de carteiras e analista da Vontobel, Thierry Larose.

A dívida em dólares rebota para 6,5%

O juro da dívida soberana brasileira denominada em dólares havia caído na última sexta-feira ao seu nível mínimo do período analisado, até 6,295%, para agora subir para 6,478%, de acordo com cifras da "Bloomberg" coletadas pela Europa Press.

Apesar deste aumento, a rentabilidade se mantém abaixo de 6,78% que marcava em 2 de outubro, última sessão antes do primeiro turno eleitoral, situando-se 30,2 pontos básicos abaixo daquele registro. Após essa primeira votação, o comportamento foi inicialmente favorável para o preço dos bônus, cujo movimento é inverso ao de sua rentabilidade: na segunda-feira seguinte, o rendimento caiu para 6,595%, 18,5 pontos básicos a menos.

Convém diferenciar esses dados dos correspondentes aos títulos emitidos em reais. Os números mencionados referem-se à dívida soberana em dólares, cujo rendimento inclui, entre outros elementos, as expectativas sobre a solvência do Estado brasileiro e a evolução das taxas de juros internacionais. Por outro lado, os bônus em moeda local respondem a uma estrutura de taxas diferente, mais condicionada pela política monetária do Banco Central do Brasil e as previsões de inflação interna.

O dólar supera os 5,60 reais

No mercado de câmbio, a taxa de câmbio do dólar chegou nesta segunda-feira a 5,6056 reais, frente aos 4,9777 reais do fechamento de sexta-feira, 23 de outubro. O encarecimento do dólar medido em reais é de 12,6%, enquanto que, visto como perda de valor do real frente à moeda americana, implica uma depreciação de 11,2%.

Com esse movimento, a cotação se situa em seu pior nível para a moeda brasileira desde 31 de julho de 2025, quando terminou a sessão em 5,6015 reais por dólar. A trajetória posterior ao primeiro turno foi, no entanto, muito diferente: em 2 de outubro, última jornada antes da primeira votação eleitoral, o dólar cotizava a 5,2133 reais e, na segunda-feira seguinte, caiu para 4,9936 reais, uma queda de 4,2% no preço do dólar expresso em reais.

As fortes oscilações em renda fixa e câmbio já estavam no radar das grandes gestoras e bancos de investimento. O analista sênior de Mercados da Ebury, Diego Barnuevo, lembra que os últimos cinco anos de presidência de Lula se caracterizaram por um elevado gasto público, um déficit fiscal elevado e taxas de juros altas, enquanto a razão da dívida pública sobre o PIB aumentou em mais de dez pontos percentuais.

Apesar disso, o especialista da Vontobel considera que o novo Executivo de Lula "não terá outro remédio senão também adotar medidas de consolidação fiscal", embora advirta que a maioria dos investidores "duvida que sejam suficientes para reencaminhar a sustentabilidade da dívida".

A Bolsa de São Paulo despenca mais de 17%

No mercado de ações, a Bolsa de Valores de São Paulo chegou a afundar nesta segunda-feira mais de 17%. O índice Bovespa (B3) despencou na abertura até a faixa dos 170.000 pontos, desde os 205.083 pontos em que havia fechado na sexta-feira.

"Lula não assumirá o cargo até o início de janeiro, portanto, provavelmente nos esperam dois meses de fraqueza e volatilidade, com a possibilidade de que ocorram protestos e distúrbios. Além da volatilidade de curto prazo, o rumo dos mercados financeiros no próximo ano dependerá da correção da política fiscal de Lula, que deverá ser percebida como duradoura e crível", concluiu o economista de mercados emergentes na J. Safra Sarasin Sustainable AM, Mali Chivakul.

Após a correção desta segunda-feira, o índice brasileiro apaga praticamente toda a alta acumulada no ano, ficando apenas 8% acima do nível de fechamento de 2025.

Lula enfrenta assim seu quarto mandato presidencial não consecutivo, após ter vencido nas eleições de 2002, 2006, 2022 e 2026. Seus dois primeiros mandatos ocorreram entre 2003 e 2011; ele retornou à Presidência em janeiro de 2023 e tomará posse de seu novo período de governo em janeiro de 2027.