Bruxelas contradiz Sánchez e desvincula a Rússia da origem da crise migratória de Ceuta

A Comissão Europeia reconhece que canais russos amplificaram a crise nas redes sociais desde 30 de julho, mas assegura que não existem provas conclusivas de que a desinformação estrangeira desencadeou a entrada massiva de migrantes na cidade autônoma.

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Depois que o Governo espanhol sinalizou "evidências" da suposta implicação da Rússia e de Israel em campanhas de desinformação durante a crise de Ceuta, a Comissão Europeia evita apoiar publicamente a tese de que essas operações estivessem por trás da origem da entrada maciça de migrantes na cidade autônoma. Bruxelas reconhece que detectou atividade vinculada à desinformação russa durante a crise, mas estabelece uma diferença substancial: não existem provas conclusivas de que essas campanhas foram as que desencadearam a chegada irregular de mais de 80.000 pessoas.

"No caso de Ceuta, vimos tentativas da Rússia de explorar a crise na internet. No entanto, não temos provas conclusivas que sugiram que a crise em si foi desencadeada por desinformação proveniente de atores estatais estrangeiros", aponta um alto funcionário da Comissão Europeia.

O matiz é relevante porque Bruxelas situa a atividade de desinformação em uma fase posterior ao estalido da crise, e não como o elemento que teria provocado a entrada maciça de pessoas em Ceuta. Dessa forma, as instituições comunitárias reconhecem a existência de operações de influência vinculadas à Rússia, mas não atribuem ao Kremlin a responsabilidade sobre a origem da crise migratória.

Bruxelas reconhece a desinformação, mas questiona seu papel como detonante

Em uma entrevista concedida à Cadena SER, o presidente do Governo, Pedro Sánchez, vinculou a chegada maciça de pessoas a Ceuta com uma campanha de boatos difundidos através de redes sociais "associadas tanto à Rússia quanto a Israel e a uma internacional ultradireitista".

A afirmação do Executivo espanhol situou assim as operações de desinformação como um dos elementos que teriam contribuído para gerar as condições para a crise. A própria porta-voz do Governo, Elma Saiz, defendeu posteriormente que a informação manejada pelo Executivo procedia de "relatórios internos de Exteriores e da própria Comissão Europeia". No entanto, a interpretação transmitida agora de Bruxelas introduz uma diferença substancial em relação a essa leitura. A Comissão confirma que detectou conteúdos relacionados com a crise de Ceuta difundidos a partir de ambientes vinculados à Rússia, mas nega dispor de evidências que permitam estabelecer uma relação causal entre essas campanhas e o início da crise.

Bruxelas já havia reconhecido em agosto que, dentro da monitorização habitual que realizam as instituições comunitárias sobre as operações de manipulação e ingerência informativa, foram identificadas determinadas mensagens relacionadas com Ceuta. A Comissão evita agora pronunciar-se publicamente sobre o conteúdo concreto do relatório ao qual se referiu Sánchez e que teria sido remetido ao conjunto dos Estados membros. A sensibilidade deste tipo de avaliações impede as instituições comunitárias de entrar em detalhes sobre as fontes, os atores identificados ou as conclusões operativas incluídas nos documentos.

O papel de Israel, ainda mais acotado

A mesma cautela se estende às referências feitas pelo Governo espanhol a contas ou redes vinculadas com Israel. Bruxelas não entra publicamente a confirmar a participação de agentes relacionados com o Estado israelense e evita equiparar essa atividade com uma operação estatal coordenada. Fontes comunitárias situam, neste caso, as mensagens identificadas em contas pontuais, sem estabelecer publicamente uma estrutura de atuação que permita atribuir a campanha ao Estado de Israel.

Desde o Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) explicam que sua atividade faz parte dos mecanismos habituais de vigilância do ambiente informativo. "Como serviço aos nossos Estados membros, o SEAE fornece avaliações periódicas do ambiente informativo em torno de crises ou acontecimentos políticos relevantes para os interesses coletivos e os objetivos políticos da UE", apontam.

Além disso, Bruxelas lembra que a informação pode ser compartilhada individualmente com os Estados membros quando seus interesses são diretamente afetados, o que explicaria que os governos nacionais possam dispor de avaliações mais detalhadas do que as que posteriormente transcendem publicamente. O episódio volta a colocar sobre a mesa um dos principais desafios da política europeia frente às operações de ingerência estrangeira: diferenciar entre a existência de campanhas de desinformação e sua capacidade real para provocar ou desencadear uma crise.

No caso de Ceuta, a posição transmitida por Bruxelas é clara neste ponto. A UE reconhece que a Rússia tentou explorar informativamente a crise, mas não considera demonstrado que o Kremlin estivesse por trás de sua origem, como sugeriu o Governo espanhol. A diferença entre ambos os conceitos —explorar uma crise uma vez iniciada ou contribuir para provocá-la— é agora o principal elemento de discrepância entre a interpretação de Madrid e a cautela mantida pelas instituições comunitárias.