Fundação Secretariado Gitano na Extremadura alerta que o antigitanismo continua vigente e não ficou para trás

A Fundação Secretariado Gitano alerta na Extremadura que o antigitanismo continua vigente e reclama um Pacto de Estado contra os discursos de ódio.

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A diretora da Fundação Secretariado Cigano na Extremadura, Mercedes Moreno, sublinhou esta terça-feira que "o antigitanismo não é um problema do passado", mas uma realidade atual na qual "a discriminação" continua presente em relação à população cigana no acesso a bens e serviços, pelo que reivindicou a implementação de um Pacto de Estado contra os discursos de ódio que sofrem.

Moreno lançou este apelo durante a apresentação do XXI Relatório Anual "Discriminação e Comunidade Cigana" 2025, realizada na Assembleia da Extremadura. O documento compila 399 situações de discriminação contra pessoas ciganas em todo o território nacional, 25 delas na Extremadura, em um ano "especialmente relevante" em que se comemoravam 600 anos de presença do povo cigano na Península Ibérica.

O relatório detalha 118 casos de discursos de ódio nas redes sociais e 82 incidentes relacionados ao acesso a bens e serviços, com especial incidência em comércios e supermercados, onde ocorrem episódios de "hipervigilância" e "acusações infundadas" de roubo. Além disso, são registrados 48 casos de discriminação em meios de comunicação.

No âmbito laboral, foram detectados 35 casos, tanto por negativas a contratar como por não superar o período de experiência, e 25 no sistema educativo, na sua maioria pela não admissão de alunos ciganos em centros escolares "com todo tipo de desculpas".

O documento também registra 15 casos de discriminação no acesso à saúde e 45 relacionados com a habitação, principalmente pela negativa em alugar imóveis devido à condição de ciganos das pessoas solicitantes.

"Uma realidade cotidiana" que vulnera direitos

Durante sua intervenção, a responsável pela Fundação Secretariado Cigano na Extremadura destacou que "mais um ano" o relatório evidencia que "a discriminação e o antigitanismo não são um problema do passado, mas sim realidades cotidianas", quando "deveriam deixar de ser".

Insistiu que "a discriminação continua presente" em relação às pessoas ciganas no acesso a bens e serviços, nas redes sociais e no mercado de trabalho, o que, em sua opinião, "limita os projetos de vida de milhares de pessoas pelo mero fato de sua origem étnica".

Os 399 casos documentados em 2025 "refletem que apesar do avanço normativo e dos compromissos das instituições, a igualdade real e efetiva continua sendo uma meta a ser alcançada", ressaltou Moreno, que avisou que "cada caso registrado representa uma violação de direitos e uma experiência de exclusão" que afeta uma pessoa cigana e "coarta oportunidades".

Nessa linha, sublinhou que o relatório "não só recolhe cifras e casos", mas constitui "um chamado à ação para que todas as instituições públicas e a sociedade como um todo redobrem o esforço na defesa dos direitos humanos e da igualdade de tratamento".

Moreno lembrou que "por trás de cada caso e cada porcentagem sempre há um rosto e há uma família a quem são vulneradas as dignidades humanas", e apontou que existem muitas formas de discriminação que não são denunciadas e que "acontecem todos os dias", como quando o vigilante de um supermercado segue uma pessoa cigana ou quando uma criança não tem acesso à escola que deseja.

Diante desse cenário, a Fundação Secretariado Cigano reafirmou seu "compromisso com a defesa dos direitos fundamentais, a igualdade de tratamento e a erradicação do antigitanismo", ao mesmo tempo que reconheceu que "embora tenha havido avanços significativos, especialmente no reconhecimento institucional e na sensibilização social", ainda persistem "desafios estruturais".

Por isso, Moreno pediu "o enfrentamento dos discursos de ódio, especialmente os de caráter antigitano", e defendeu que "é fundamental aplicar de forma efetiva a Lei de Serviços Digitais para prevenir e sancionar a propagação de discursos de ódio nas redes sociais", espaços onde "o antigitanismo se amplifica e se normaliza com demasiada frequência".

Finalmente, reivindicou a aprovação de um Pacto de Estado contra os discursos de ódio que permita "coordinar ações" entre Administrações, meios de comunicação, plataformas digitais e sociedade civil, "garantindo um marco comum de proteção frente a esta grave vulneração de direitos".

Quintana pede "não normalizar os preconceitos"

O delegado do Governo na Extremadura, José Luis Quintana, reconheceu o "trabalho constante em favor da igualdade" que desenvolve a Fundação Secretariado Gitano, e assinalou que o relatório é "muito mais" do que uma compilação de dados, já que lembra que "uma sociedade democrática não se mede unicamente pelas leis que aprova, mas pelos direitos que garante e pela igualdade de oportunidades".

Quintana indicou que o documento recolhe "nada mais e nada menos" que 400 casos de discriminação contra pessoas ciganas e que por trás de cada um "há uma experiência de rejeição e uns direitos que não foram respeitados", em situações que ocorrem "em âmbitos tão cotidianos como o emprego, a educação, a habitação, o acesso aos serviços", e também "de maneira indigna muitas vezes nas redes sociais".

Por isso, o delegado do Governo chamou a não "normalizar os preconceitos nem os discursos de ódio tão comuns nestes últimos tempos", especialmente nas redes sociais, e defendeu a necessidade de contar com "instituições comprometidas, políticas públicas que sejam eficazes, mecanismos de proteção para as vítimas e uma sociedade que não olhe para o outro lado diante de nenhuma forma de discriminação".

Sánchez Vera reclama visibilizar os obstáculos

A secretária geral de Igualdade da Junta de Extremadura, Ara Sánchez Vera, valorizou que o trabalho da Fundação Secretariado Gitano "não só contribui para melhorar a vida de muitas pessoas, mas também ajuda a construir uma sociedade mais justa e mais inclusiva".

Sánchez Vera considerou que os dados do relatório devem servir à sociedade para "refletir sobre uma realidade que não podemos ignorar", uma vez que "é um fato inegável que as pessoas ciganas encontram muitos obstáculos em sua vida", questões que "precisam ser visibilizadas".

Por este motivo, incentivou a denunciar os casos de discriminação para poder "corrigir as condutas, punir os culpados", assim como "educar e sensibilizar para que não se repitam esse tipo de comportamento".

Insistiu na responsabilidade das administrações públicas, porque "a igualdade de oportunidades não pode depender do gênero, da orientação sexual, da origem ou da classe social", e advertiu que "a discriminação nem sempre se manifesta de maneira evidente", mas "às vezes se esconde atrás de uma negativa injustificada, de uma oportunidade que nunca chega, de um olhar ruim ao entrar em um estabelecimento".

Neste ponto, Ara Sánchez Vera aludiu de forma especial à realidade das mulheres ciganas, que "enfrentam obstáculos derivados tanto de sua condição de mulheres quanto dos preconceitos associados à sua pertença étnica", uma situação que "exige respostas específicas" e políticas que impulsionem sua autonomia, sua formação, seu acesso ao emprego e sua participação na vida social.

Por último, o vice-presidente primeiro da Assembleia da Extremadura, Domingo Expósito, ressaltou que o relatório lembra que "ainda há caminho a percorrer para conseguir uma sociedade na qual a igualdade de oportunidades acabe sendo uma verdadeira realidade para todos".

Expósito apontou que o primeiro passo é "reconhecer que esse problema existe" e não olhar para o outro lado, e assegurou que a Assembleia da Extremadura continuará sendo "um espaço de encontro, de diálogo e de defesa de direitos".