Portugal tem interesses concretos nas eleições presidenciais que o Brasil celebra neste domingo, 25 de outubro. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro determinará quem dirige um país em que empresas espanholas gerenciam bancos, redes elétricas, telecomunicações e aeroportos. Também definirá o interlocutor de Madri em uma relação que ganhou peso político com a primeira cúpula bilateral, realizada em abril em Barcelona.
O que está em jogo para Portugal abrange a segurança dos investimentos, as condições para acessar novos contratos e a evolução das trocas comerciais. A dimensão dessa exposição explica o interesse empresarial: em fevereiro de 2025, a Secretaria de Estado de Comércio situava Portugal como o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, com mais de 41.600 milhões de euros investidos.
As empresas espanholas que olham para o Brasil
A presença espanhola atravessa setores essenciais da economia brasileira. Santander conta com um negócio bancário implantado no país; Telefónica opera através da Vivo; e Iberdrola desenvolve sua atividade por meio da Neoenergia. A documentação de Exteriores registra, além disso, empresas espanholas de automação, alimentação, indústria e edição.
Na eletricidade, os números permitem medir o alcance dessa presença. Iberdrola informa de 16,8 milhões de consumidores e cerca de 760.000 quilômetros de linhas elétricas no Brasil, com dados ao fechamento do primeiro semestre de 2026. Sua previsão de investimento até 2028 alcança os 5.000 milhões de euros. As decisões sobre tarifas, concessões, planejamento energético e remuneração das redes formam, portanto, parte do ambiente em que se executam investimentos espanhóis de longo prazo.
Também há uma exposição direta do gestor aeroportuário espanhol. Aena administra 17 aeroportos brasileiros, que registraram mais de 3,8 milhões de passageiros apenas em setembro, segundo sua última estatística mensal publicada. O crescimento do tráfego e as condições das concessões são variáveis relevantes para esse negócio. aena.es
De uma perspectiva econômica, o interesse espanhol consiste em que o próximo Governo ofereça um marco previsível para operar e investir. Isso obriga a observar suas decisões fiscais e regulatórias, a estabilidade dos contratos e a evolução da economia, além do resultado eleitoral.
Petróleo, alimentos e exportações industriais
A relação comercial também conecta a escolha brasileira com empresas e cadeias de suprimento espanholas. Segundo os dados de 2024 coletados na ficha de Exteriores, a Espanha exportou bens para o Brasil por 3.234 milhões de euros e importou por 8.767 milhões. Entre as vendas espanholas destacavam-se máquinas, combustíveis, medicamentos e produtos químicos. Nas compras sobressaíam os combustíveis, as sementes oleaginosas, os minerais e o café.
Essas trocas explicam por que as condições de acesso ao mercado brasileiro e a continuidade do suprimento têm relevância para a Espanha. Como leitura econômica, um aumento da demanda brasileira pode abrir oportunidades para exportadores espanhóis, enquanto as variações de preços e do tipo de câmbio podem modificar custos e margens.
Mercosul: um acordo que já começou a ser aplicado
O resultado chega, além disso, em uma nova fase das relações comerciais entre a Europa e a América do Sul. O acordo comercial interino entre a União Europeia e o Mercosul é aplicado provisoriamente desde 1º de maio de 2026, com eliminação de tarifas para determinados produtos desde o primeiro dia.
Para a Espanha, a questão passa agora por como se aproveita essa abertura: exportações, investimentos e cooperação empresarial. O Ministério do Comércio identificou oportunidades em áreas como infraestrutura e energias renováveis.
A outra face está nos setores expostos a uma maior concorrência. A UE aprovou um regulamento de salvaguardas agrícolas para permitir uma resposta quando o aumento das importações do Mercosul ameaçar causar um prejuízo grave aos produtores europeus. A evolução do acordo afeta, portanto, tanto empresas que buscam vender no Brasil quanto agricultores que reclamam proteção no mercado comunitário.
Sánchez e Lula reforçaram a relação bilateral
A dimensão política tem um antecedente recente: Pedro Sánchez e Lula presidiu a 17 de abril a primeira Cúpula Espanha-Brasil, em Barcelona. O encontro elevou a interlocução bilateral e foi acompanhado de acordos entre ambos os governos. Entre eles figura um memorando sobre minerais fundamentais, um âmbito vinculado às necessidades industriais e à transição energética.
Uma reeleição de Lula manteria o interlocutor com o qual o Executivo espanhol construiu essa agenda. Uma vitória de Flávio Bolsonaro abriria uma nova etapa política e obrigaria a verificar quais prioridades mantém, quais modifica e como desenvolve a cooperação com Madrid.
As urnas decidem quem gerenciará uma relação econômica e institucional de longo prazo. Para as empresas, o exame posterior estará nas normas, nos contratos e nos investimentos. Para o Governo, na capacidade de preservar a cooperação com o Brasil e avançar nos compromissos bilaterais.