Sob a consigna "A pátria não se vende", vários milhares de argentinos desafiaram nesta quinta-feira a chuva em Buenos Aires para se manifestar contra o projeto de lei sobre "inviolabilidade da propriedade privada", analisado naquela mesma tarde no Senado.
Convocados de forma espontânea e também através de organizações políticas, sindicais, comunitárias, gremiais, estudantis e movimentos sociais, os assistentes se concentraram em frente ao Congresso da Nação para rejeitar a iniciativa do governo, até que as forças de segurança procederam a dispersá-los com gases lacrimogêneos e caminhões-pipa.
Rejeição à política "entreguista" do Governo
Embora a protesto tivesse sido organizado antes que o Executivo anunciasse, na véspera, a retirada do capítulo que reduzia o limite à venda de terras a capital estrangeiro, os manifestantes decidiram manter a convocação para expressar sua rejeição geral ao projeto.
Entre os cartazes com lemas como "não se vende, queima nem desaloja" estava Mateo S., que compareceu como autoconvocado para defender a necessidade de preservar restrições à venda de terrenos a compradores estrangeiros. Em sua opinião, isso é fundamental em um contexto em que o país é governado por Javier Milei, a quem considera de marcada tendência "entreguista", sobretudo no que diz respeito a recursos naturais e terras raras.
"O fato de que você possa ter um privado estrangeiro, cujos interesses podem não coincidir com o interesse do povo argentino em geral, decidindo sobre territórios que são patrimônio dos argentinos é um ataque indireto à soberania", manifestou Mateo em declarações à Europa Press.
A legislação atual impede que pessoas físicas ou jurídicas estrangeiras controlem mais de 15% das terras rurais em escala nacional, provincial ou municipal, e fixa em 1.000 hectares o máximo de superfície adquirível na zona núcleo agropecuária. O apartado mais controverso do projeto contemplava suprimir esse limite.
Diante desse cenário, o Governo argentino propôs em um primeiro momento elevar para 25% o percentual de território nacional, provincial e departamental de terras produtivas que podem comprar os estrangeiros, segundo meios como o jornal "La Nación". No entanto, diante da falta de apoio político suficiente, o Executivo resolveu nesta quarta-feira retirar finalmente referido capítulo.
Doze detidos e cargas policiais na praça
As forças federais comunicaram a detenção de três manifestantes e relataram três agentes feridos, dois deles gravemente, pertencentes à Gendarmeria, que teriam sofrido pedradas na cabeça e foram trasladados ao Hospital Churruca, de acordo com "La Nación". Por sua vez, a Polícia da Cidade informou sobre nove prisões por "atentado e resistência à autoridade", elevando o balanço total para doze detidos.
Entre as 17h00 e as 18h00 (hora local), os corpos de segurança recorreram a gases lacrimogêneos, caminhões hidrantes e balas de borracha para desalojar a praça e dispersar os concentrados.
O chefe de Governo da cidade de Buenos Aires, Jorge Macri, defendeu a operação policial e sublinhou que a instrução dada aos agentes era "clara", consistente em "fazer cumprir a lei e defender a cidade dos violentos que pretendem destruí-la".
"Queimaram contêineres, quebraram calçadas, destruíram viaturas e atacaram a Polícia", afirmou Macri para, em seguida, tachar de "delinquentes anarquistas" aqueles que "alteram a ordem de maneira violenta e agredem a Polícia". "São inimigos do nosso estilo de vida", disparou.