A porta-voz do Grupo Popular no Congresso, Ester Muñoz, atacou esta quinta-feira o ex-primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, a quem reprocha "enganar" os cidadãos por não esclarecer "as dúvidas" em torno da sua possível intervenção no resgate da Plus Ultra e a origem das joias localizadas no seu escritório. A seu ver, a sua comparecência foi dirigida unicamente a "se defender" a si mesmo e ao chefe do Executivo, Pedro Sánchez, uma vez que "os seus futuros estão ligados".
Segundo assinalou a dirigente do PP, Zapatero limitou-se a uma intervenção "para salvar a sua própria imagem e a do presidente do Governo", sem esclarecer as questões de fundo que, na sua opinião, preocupam a opinião pública.
"Foi uma verdadeira enganação, não respondeu a nenhuma das perguntas, foi apenas para defender a sua inocência e a do presidente do Governo porque os seus futuros estão ligados. Se um é culpado é porque o outro também fez algo errado", declarou Muñoz nos corredores do Congresso.
A parlamentar expressou-se assim após a entrevista que Zapatero ofereceu no programa 'Mañaneros' da TVE, onde defendeu a legalidade do seu trabalho como consultor e rejeitou ter exercido influências no resgate da Plus Ultra. Em relação às joias, justificou-as como um presente de "cortesia pessoal" e negou qualquer ânimo de lucro patrimonial. Além disso, criticou Alberto Núñez Feijóo pelas suas manifestações públicas acusando-o de delinquir e exigiu respeito pela presunção de inocência.
Sem Resposta Sobre "Origem das Joias e Por Que Não as Tributou"
Nas suas declarações na Câmara Baixa, Muñoz ressaltou que "havia muitas incógnitas" e que Zapatero "não respondeu a nenhuma". Considera que o ex-primeiro-ministro não ofereceu esclarecimentos sobre as "perguntas que a maioria dos espanhóis se fazia".
"Não respondeu de onde são as joias, nem a origem nem por que não as tributou. Não respondeu por que recebia de empresários que foram resgatados na Plus Ultra", disse, para acrescentar que também continua sem explicar "por que a empresa das suas filhas recebia sem fazer os trabalhos que fazia".
A porta-voz popular censurou que Zapatero se limite a afirmar que as joias são "um presente", chegando mesmo a apontar que ele "nunca entrou numa joalharia, como se isso fosse uma isenção de algo".
"Ele diz que nunca teve um afã de enriquecimento patrimonial. Então eu me pergunto, se eu vou ao exterior e um mandatário me presenteia com um milhão e meio de euros e coloca na minha conta, se eu não tenho interesse em gastá-lo, não é necessário que eu o tribute?", enfatizou, para insistir que as explicações do ex-presidente sobre as joias constituem igualmente "uma tomada de pelo".
Muñoz sublinhou que, no âmbito do direito penal, quando uma pessoa está imputada "tem direito a mentir" e trouxe à colação o caso do ex-ministro José Luis Ábalos, atualmente na prisão, que a seu ver também incorreu em falsidades. "Portanto, é evidente que o senhor Zapatero tem direito a mentir, na televisão e no tribunal, porque está imputado, mas é evidente que não respondeu a nenhuma das perguntas nem das dúvidas que tinham os espanhóis", abundou.
A porta-voz do PP no Congresso lembrou que, diante da investigação judicial sobre o resgate da Plus Ultra, seu grupo reclamou em "multidões de ocasiões" o expediente completo dessa operação, mas o Governo declarou-o "secreto".
A seu entender, se tudo é "perfeito" como sustenta o Executivo e "tem a verdade", o lógico seria "sacar mais informações" para acreditar perante a cidadania que não existe "absolutamente nada" irregular. "Por que o Governo o declarou secreto e nos impede de conhecer o expediente do resgate? Ninguém entende", queixou-se.
"NÃO SÓ FOI DEFENDER-SE MAS TAMBÉM DEFENDER PEDRO SÁNCHEZ"
Muñoz insistiu que o ex-presidente não foi apenas à TVE para defender sua própria atuação, mas também "para defender" o atual chefe do Executivo. "É que se Zapatero acaba e resulta sendo culpável de um delito de tráfico de influências, é porque há outro culpável do outro lado da corda, que é o Governo da Espanha. E é Sánchez", ressaltou.
Diante do pedido expresso de Zapatero a Feijóo para que respeite sua presunção de inocência, a porta-voz popular replicou: "Sim, exceto quando você é do PP". Em sua opinião, se trata de um dirigente do Partido Popular "você é culpável mesmo antes de ser imputado".
Nesta linha, denunciou que ao Partido Socialista "não lhe preocupa a perseguição de inocência quando afeta a outros", algo que, a seu ver, evidencia sua "hipocrisia". "O Partido Socialista pediu a demissão de uma presidenta autonômica por um caso de sua parceira que não afetava nenhuma administração pública", assinalou, em referência à presidenta madrilena, Isabel Díaz Ayuso.
Ainda assim, Muñoz admitiu que "efetivamente" o ex-chefe do Executivo "tem presunção de inocência", mas insistiu que "há muitos indícios que apontam para ele". "Longe de mostrar, informar, explicar e que alguém possa acreditar em sua inocência, fez tudo o contrário", afirmou.
Neste ponto, ressaltou que se Zapatero "foi culpado por tráfico de influências é porque exerceu o tráfico de influências no Governo" e, portanto, "ambos são culpados". Por isso, reiterou que "a melhor prova" seria, por exemplo, tornar público o expediente do resgate da companhia aérea. "Por que não nos mostram? Temos que confiar no Governo mais mentiroso da história da democracia?", interpelou.