O magistrado da Audiência Nacional que instrui o 'caso hidrocarbonetos', Santiago Pedraz, convocou para esta quinta-feira a declarar como testemunha a Cristian Corvillo, a quem o PP identifica como ex-motorista do presidente do Governo, Pedro Sánchez, para esclarecer sua suposta vinculação com a trama investigada.
Em uma providência à qual teve acesso a Europa Press, Pedraz fixa a comparecência de Corvillo às 10h15, assim como a de seu irmão Rubén, dentro das diligências sobre o suposto fraude de mais de 200 milhões de euros no IVA de hidrocarbonetos que teria sido cometido entre 2021 e 2024. Nesta causa figuram como imputados, entre outros, os empresários Claudio Rivas e Víctor de Aldama.
O juiz precisou que o interrogatório ficará "delimitado" ao "objeto principal" do procedimento, ou seja, "o fraude contra a Fazenda Pública e consequente lavagem de dinheiro cometido pela sociedade Villafuel", propriedade de Rivas e com a qual se relaciona a Aldama, intermediário no 'caso máscaras' condenado a quatro anos de prisão pelo Tribunal Supremo.
No mês de dezembro passado, o empresário José Fernández Rosado, também investigado, declarou que Corvillo lhe propôs atuar como testaferro da Espaeventos, uma das empresas sob suspeita, em troca de uma retribuição econômica que finalmente não teria chegado a receber.
Além disso, Corvillo foi citado no ano passado pelo PP à comissão de investigação do Senado sobre o 'caso Koldo', onde sustentou que desconhece "a posição exata" que lhe atribuem os investigadores dentro da suposta rede de corrupção e se negou a responder a qualquer questão levantada.
O papel dos irmãos Corvillo na causa
A organização Hazte Oír, que exerce a acusação popular no 'caso hidrocarbonetos', solicitou a Pedraz que chamasse a declarar os dois irmãos ao entender que foram "testemunhas diretas supostamente de diversos fatos" objeto da investigação.
Em seu escrito, a acusação popular sublinhou que "ambos os irmãos se incorporaram, por mediação da Corvillo Energy --empresa representada por Rubén Corvillo--, ao acionariado das sociedades 'holding' que, segundo a própria confissão de Aldama registrada em intervenções telefônicas, gerenciavam o conjunto do patrimônio supostamente derivado do fraude".
Por este motivo, Hazte Oír considera que os dois "podem oferecer informação direta sobre a configuração e direção da organização", e sustenta que as sociedades vinculadas aos Corvillo "receberam pagamentos milionários provenientes das sociedades interpostas que presumivelmente participaram na fraude do IVA", pelo que "presumivelmente conhecem a origem e a rastreabilidade de tais pagamentos".
Em relação a Cristian Corvillo, a organização afirma que "manteve uma comunicação constante" com Aldama e que "aparece mencionado" em relatórios da Unidade Central Operativa (UCO) da Guarda Civil como "receptor de quantias em dinheiro sob a denominação chave de 'escrituras'". Adiciona, assim, que participou "na operação de aquisição do imóvel de La Alcaidesa (Cádiz) destinado" ao ex-ministro de Transportes José Luis Ábalos, um dos aspectos analisados no 'caso mascarillas'.
Quanto a Rubén Corvillo, sócio e administrador único da Corvillo Energy, Hazte Oír sustenta que "deve necessariamente conhecer a origem dos fundos com que se acometeu a compra da dívida hipotecária da Pilot Real Estate --empresa administrada por Aldama-- e a posterior execução do imóvel de Sotogrande", assim como "as circunstâncias precisas da faturação cruzada com Salamanca Fuel Center", uma das companhias que presumivelmente fingiu comprar hidrocarbonetos à Villafuel.
A Fiscalia Anticorrupção respaldou a prática dessas testemunhais, mas reclamou que se circunscrevessem a esclarecer a possível relação dos irmãos Corvillo com a operativa sob investigação por presumida fraude e com as sociedades implicadas, deixando de fora qualquer questão relativa ao 'caso Koldo'.
A suposta trama e seu alcance na Administração
Em um relatório incorporado ao sumário, a UCO expõe que a rede de hidrocarbonetos não só teria conseguido se introduzir na cúpula do Ministério de Transportes quando era dirigido por Ábalos, mas também nas de Indústria, Comércio e Turismo e de Transição Ecológica e Reto Demográfico, então chefiados por Reyes Maroto e Teresa Ribera.
Segundo esse documento, a penetração nesses departamentos teria sido articulada através de Aldama, "pessoa com acesso ao entorno" de Ábalos, com o objetivo de "influenciar na resolução administrativa pela qual seria concedida a Villafuel a autorização para operar no mercado atacadista de hidrocarbonetos, apesar do descumprimento dos requisitos legalmente exigidos" e "tudo isso em troca de uma contraprestação econômica".
Os investigadores apontam Aldama e Rivas como supostos dirigentes da rede, ao indicar que "ostentavam a decisão, o controle e a coordenação de ambas as estruturas".
De acordo com a UCO, a suposta rede teria constituído "uma organização criminosa especializada na comissão de delitos contra a Fazenda Pública no setor estratégico de hidrocarbonetos, que operava através de uma estrutura societária liderada pela operadora Villafuel e outras vinculadas ao setor".
"De forma paralela, essa organização criminosa dispunha de outra estrutura formada por empresas destinadas ao aperfeiçoamento de operações voltadas à lavagem de capitais provenientes das atividades ilícitas descritas", acrescenta o relatório.
Os agentes situam o início das manobras delitivas em 2020, quando do "entorno da suposta organização criminosa" teria sido solicitado a Aldama "que ativasse sua rede de contatos e intercedesse para intermediar, principalmente com membros do Ministério dos Transportes", com o fim de que Villafuel obtivesse a licença de operadora.
A UCO sustenta que a trama teria desembolsado cerca de um milhão de euros para tentar influenciar o empresário, o ex-ministro Ábalos e seu ex-assessor Koldo García, ambos condenados pelo Tribunal Supremo no 'caso máscaras' a 24 e 19 anos de prisão, respectivamente.