De sereias a ES-Alert: assim evoluiu o sistema de avisos de Proteção Civil na Espanha

A história por trás do ES-Alert: as lições aprendidas das maiores catástrofes espanholas que impulsionaram mudanças nos sistemas de alerta para avisar a população

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A atual onda de incêndios florestais voltou a colocar em primeiro plano os alertas que milhares de cidadãos recebem em seus telefones móveis através de ES-Alert, o sistema de avisos de Proteção Civil.  Longe de se tratar de uma ferramenta criada de forma pontual, seu desenvolvimento responde às lições extraídas após algumas das maiores emergências vividas na Espanha, que evidenciaram a necessidade de melhorar a comunicação do risco com a população.

Antes da implantação dos avisos massivos em dispositivos móveis, a informação de emergência dependia principalmente de sirenas, emissoras de rádio, televisão, megafonia ou dos avisos realizados pelas forças e corpos de segurança e os serviços de emergência. A consolidação do Sistema Nacional de Proteção Civil e, posteriormente, a criação da Rede de Alerta Nacional permitiram incorporar novas tecnologias para chegar aos cidadãos de forma imediata. 

Tous: a origem da Proteção Civil moderna

As inundações provocadas pela a ruptura da barragem de Tous (Valência) em outubro de 1982 evidenciaram a falta de um sistema homogêneo para coordenar a resposta das administrações diante de grandes catástrofes.

Aquele episódio impulsionou a criação de um marco jurídico específico que culminou com a aprovação da Lei 2/1985, de 21 de janeiro, sobre Proteção Civil, primeira norma estatal que regulou o planejamento diante de emergências. Posteriormente, o Real Decreto 407/1992 aprovou a Norma Básica de Proteção Civil, que estabeleceu os critérios para elaborar os planos territoriais e especiais frente a distintos riscos.

Biescas reforça a prevenção

A cheia que arrasou o camping Las Nieves de Biescas (Huesca) em agosto de 1996, com 87 falecidos e mais de um centenar de feridos, supôs um novo ponto de inflexão.

Após a tragédia, as administrações reforçaram os estudos sobre zonas inundáveis, o planejamento preventivo e os sistemas de vigilância meteorológica, consolidando a avaliação do risco como um dos pilares da gestão de emergências.

Prestige e Lorca: mais coordenação entre administrações

O afundamento do petroleiro Prestige, em 2002, e o terremoto de Lorca, em 2011, evidenciaram a necessidade de melhorar a coordenação entre as distintas administrações e de oferecer informação mais rápida à cidadania durante as primeiras horas de uma emergência.

Essas experiências contribuíram para revisar os protocolos de atuação e aceleraram a modernização do Sistema Nacional de Proteção Civil, um processo que culminou com uma nova regulamentação do sistema de emergências.

O nascimento do ES-Alert

Uma das mudanças mais relevantes chegou com a aprovação da Lei 17/2015, de 9 de julho, do Sistema Nacional de Proteção Civil, que substituiu a norma de 1985 e adaptou o modelo espanhol a novos riscos como os fenômenos meteorológicos extremos, os acidentes tecnológicos ou as ameaças derivadas da mudança climática.

A lei criou a Rede de Alerta Nacional (RAN), concebida para integrar e coordenar os sistemas de aviso das distintas administrações públicas e facilitar uma resposta mais rápida e homogênea diante de situações de emergência.

O seguinte impulso veio da União Europeia. A Diretiva (UE) 2018/1972, pela qual se estabelece o Código Europeu das Comunicações Eletrônicas, obrigou os Estados membros a dispor de um sistema de alertas públicos capaz de enviar avisos diretamente para os telefones móveis quando houver uma emergência grave.

Em cumprimento a esta normativa, a Espanha desenvolveu ES-Alert, integrado na Rede de Alerta Nacional. O sistema começou a ser implantado em 2021, realizou testes em todas as comunidades autônomas durante 2022 e ficou plenamente operativo em fevereiro de 2023. Desde então, as autoridades podem enviar uma mensagem acompanhada de um sinal acústico e vibração para todos os telefones móveis situados dentro de uma zona geográfica determinada, sem necessidade de instalar qualquer aplicativo.

A dana de Valência

A DANA que afetou a Comunidade Valenciana em 29 de outubro de 2024, uma das maiores catástrofes naturais registradas na Espanha nas últimas décadas, representou o maior exame para ES-Alert desde sua implantação.

O sistema adquiriu então uma grande visibilidade pública porque a hora em que foi enviado a mensagem de alerta para os telefones móveis foi objeto de controvérsia política, judicial e social, ao considerar distintos afetados e especialistas que o aviso ocorreu quando boa parte da emergência já havia se desencadeado.

A gestão daquelas alertas passou a ocupar um lugar central no debate institucional sobre a resposta à catástrofe e reabriu a discussão sobre os critérios de ativação do ES-Alert, a coordenação entre administrações e a rapidez na comunicação do risco à população, questões que continuam presentes nas análises sobre a gestão das emergências.

Uma ferramenta cada vez mais utilizada

Desde sua implementação, ES-Alert tem sido utilizado para advertir a população diante de incêndios florestais, inundações, fenômenos meteorológicos adversos, acidentes industriais ou vazamentos de substâncias perigosas, tornando-se um dos principais instrumentos de Proteção Civil para difundir instruções imediatas à cidadania.

A atual onda de incêndios florestais voltou a colocar o foco sobre este sistema de avisos, concebido para facilitar uma resposta rápida diante de situações que possam colocar em risco a vida ou a segurança da população.

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