A militarização da fronteira de Ceuta se tornou a medida com maior apoio social após a crise migratória aberta na cidade autônoma.
Segundo a pesquisa da Sigma Dos para El Mundo, 82,4% dos espanhóis acredita que a Espanha deveria militarizar novamente a fronteira, contra 17,6% que rejeitam essa opção. O apoio é praticamente unânime entre os eleitores do PP e Vox, mas também alcança uma ampla maioria do eleitorado socialista.
97,5% dos que votaram no PP e 99,7% dos eleitores do Vox defendem essa medida. Entre os eleitores do PSOE, o apoio chega a 72,5%. Somar é o único grande eleitorado onde predomina a rejeição: 55,5% se opõem, embora 44,5% também apoiem a militarização da fronteira.
Um apoio transversal à militarização da fronteira
O dado principal da pesquisa é a amplitude do apoio a uma resposta mais dura na fronteira sul.
Não se trata apenas de uma posição do eleitorado conservador. A militarização aparece apoiada por mais de oito em cada dez espanhóis e por quase três em cada quatro eleitores socialistas.
A diferença por sexo é pequena: 81% dos homens e 83,7% das mulheres apoiam. A medida, portanto, não se concentra em um perfil demográfico concreto, mas atravessa quase todo o tabuleiro político e social.
A exceção mais clara está em Somar. Entre seus eleitores, 44,5% apoiam a militarização da fronteira e 55,5% se opõem.
47,6% vêem pressão de Marrocos como causa principal
A pesquisa também pergunta sobre o motivo principal da crise ocorrida em Ceuta.
A opção mais mencionada é a pressão de Marrocos, com 47,6% das respostas. Seguem-se a regularização de migrantes na Espanha, com 18,4%, e a política migratória do Governo, com 16,5%.
Apenas 6,2% considera que as máfias de tráfico de pessoas são o principal motivo da crise.
Esse dado é especialmente relevante porque questiona a explicação centrada nas máfias e coloca Marrocos como o ator mais mencionado pelos entrevistados.
Os eleitores do PSOE e Somar são os que mais apontam para Marrocos
A atribuição de responsabilidade a Marrocos é majoritária entre os eleitores socialistas.
61,9% dos que votaram no PSOE acreditam que a principal causa da crise foi a pressão do governo marroquino. Entre os eleitores de Somar, esse percentual sobe para 75,7%.
Na direita, a leitura está mais dividida. Entre os eleitores do PP, 35,1% apontam para Marrocos, 27,4% culpam a política migratória do Governo e 26,1% apontam para a regularização de migrantes.
Entre os eleitores do Vox, a opção mais mencionada é a regularização de migrantes, com 33,8%. 28,9% culpam a política migratória do Governo e 28,2% apontam para Marrocos.
A fotografia é chamativa: a tese da pressão marroquina tem mais respaldo no eleitorado do PSOE e Sumar do que no do PP e Vox.
Somente 6,2% culpam principalmente as máfias
O dado sobre as máfias é um dos mais delicados da pesquisa.
Somente 6,2% dos entrevistados acreditam que as máfias de tráfico de pessoas foram o principal motivo da crise de Ceuta.
Esse percentual é baixo em todos os eleitorados: 3,6% entre eleitores do PP, 9,9% entre socialistas, 2,1% entre eleitores do Vox e 3,5% entre eleitores do Sumar.
A pesquisa não nega a existência de redes ou dinâmicas organizadas, mas mostra que a opinião pública não as identifica como o fator principal. Em paralelo, El País publicou que o assalto multitudinário a Ceuta foi descrito como uma operação organizada e não como um movimento espontâneo, segundo uma análise da mobilização digital prévia.
68,7% acreditam que avisos dos serviços de informação foram ignorados
Outro dado de forte impacto político é a percepção sobre os avisos prévios.
68,7% dos entrevistados acreditam que o Governo ignorou advertências dos serviços de informação sobre o que poderia ocorrer em Ceuta. 31,3% não acreditam nisso.
Aqui sim aparece uma divisão muito mais clara por lembrança de voto.
Entre os eleitores do PP, 97,3% acreditam que avisos foram ignorados. Entre os do Vox, o percentual chega a 99,6%.
Em contrapartida, a maioria dos eleitores do PSOE e de Sumar não compartilha essa ideia. 61,5% dos socialistas e 74,1% dos eleitores de Sumar acreditam que essas advertências não foram ignoradas.
A gestão do Governo, suspensa
A pesquisa também pede para avaliar a atuação de diferentes atores durante a crise.
A sociedade ceutiana é a melhor avaliada, com 7 em 10. O Governo de Ceuta obtém 5,5 e também é aprovado.
O Ministério da Defesa recebe 3,6; os países da União Europeia, 3,4; a União Europeia, outro 3,4; o PP, 3,3; o Governo da Espanha, 3,1; Vox, 3; e o Ministério do Interior, 2,8.
O Governo de Marrocos fica em último lugar, com uma avaliação de 0,8.
O dado reforça a ideia de que a crise é percebida como uma falha compartilhada, mas com maior punição em relação a Marrocos, Interior e o Executivo central.
64% rejeita realocar os menores não acompanhados na Península
A pesquisa também aborda o que fazer com os menores migrantes não acompanhados que permanecem em Ceuta.
64% se mostra pouco ou nada de acordo com realocá-los na Península. 30,1% está total ou bastante de acordo, e 5,8% não sabe ou não responde.
A divisão por blocos volta a ser clara.
Entre os eleitores do PP, a rejeição atinge 83,4%. Entre os do Vox, 92,8%. Em Sumar ocorre o contrário: 65,6% está total ou bastante de acordo com a realocação.
O eleitorado socialista aparece praticamente dividido em dois. E 47,2% está de acordo com realocar os menores na Península e 45,4% se opõe.
63,6% aplicaria as mesmas normas a menores e adultos
A pesquisa pergunta também se deveriam ser aplicadas as mesmas normas aos menores não acompanhados que aos adultos em circunstâncias como a crise de Ceuta.
63,6% responde que sim. 36,4% responde que não.
Entre os eleitores do PP, o apoio a essa ideia chega a 79,2%. Entre os do Vox, a 88,7%. No PSOE, 48,8% é a favor e 51,2% é contra. Em Sumar, a maioria rejeita equiparar menores e adultos: 67,6% diz que não deveriam ser aplicadas as mesmas normas.
Este ponto é um dos mais sensíveis da pesquisa, porque entra em tensão com o marco legal específico de proteção da infância.
59,5% suspenderia a livre circulação se ocorresse em outro país da UE
A pesquisa também levanta um cenário europeu: o que deveria fazer a Espanha se uma situação semelhante ocorresse em outro país da União Europeia.
59,5% afirma que estaria de acordo em suspender a livre circulação de pessoas com esse país. 40,5% se opõe.
O apoio é muito alto entre eleitores do PP, com 82,3%, e do Vox, com 92,3%.
No PSOE e Sumar predomina a rejeição. 62,6% dos eleitores socialistas e 86,9% dos de Sumar se opõem a suspender a livre circulação.
Ceuta e Melilla não se veem ameaçadas a curto prazo
Apesar da preocupação com a crise, a maioria não acredita que Ceuta e Melilla vão se tornar parte de Marrocos.
62,9% considera que isso nunca ocorrerá. 14,4% acredita que poderia acontecer nos próximos 10 anos e 9,3% nos próximos cinco.
A confiança de que Ceuta e Melilla continuarão sendo espanholas é majoritária em todos os grandes eleitorados: 59,6% entre eleitores do PP, 70,6% entre os do PSOE, 56,6% entre os do Vox e 82,8% entre os do Sumar.