O ex-candidato presidencial brasileiro Flávio Bolsonaro apresentou-se nesta quarta-feira como "líder" do país em sua primeira mensagem pública após concluir sua fuga para os Estados Unidos, depois de perder as eleições presidenciais realizadas no fim de semana passado.
O senador divulgou uma carta em suas redes sociais, uma versão editada de uma missiva anterior que ele mesmo apagou e na qual, além de se definir como "líder", atribuía-se o cargo de "presidente eleito do Brasil".
"Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o líder do Brasil", começa o extenso comunicado de Bolsonaro, no qual sustenta que houve uma fraude eleitoral em favor de seu adversário e vencedor do pleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de se apresentar como vítima de um "golpe de Estado" e de uma "caça às bruxas", adianta que pretende organizar do exílio uma "oposição" inspirada na experiência venezuelana.
Bolsonaro saiu do Brasil com destino aos Estados Unidos passando pela Argentina e pelo Equador, depois que a Polícia Federal cancelou seu passaporte ao expirar o prazo fixado pelo juiz do Supremo Tribunal Alexandre de Moraes para entregá-lo e lhe impôs a proibição de deixar o país, no âmbito de um caso por suposta lavagem de dinheiro por meio de casas de apostas.
A vitória de Lula, uma "impossibilidade matemática"
O filho do ex-mandatário Jair Bolsonaro —atualmente em prisão domiciliar por liderar uma trama golpista contra Lula no fim de 2022— considera uma "impossibilidade matemática" a virada que permitiu a Lula impor-se no segundo turno de 25 de outubro.
Flávio Bolsonaro questiona em particular uma resolução do Supremo Tribunal Federal "tomada acima das competências do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)" que "estendeu o horário de votação em cima da hora, depois de concluído o horário legal, quando as urnas já haviam fechado".
Essa ampliação foi aprovada a pedido da campanha de Lula, que denunciou dificuldades no transporte de eleitores em diversas regiões do país. A candidatura de Bolsonaro também reivindicou prolongar a votação, mas limitada a cinco estados: Sao Paulo, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Segundo o ex-candidato, após essa "repugnante fraude eleitoral" foi posto em marcha "um plano previamente orquestrado" pela "maquinaria de perseguição política do regime", que teria começado com a condenação de seu pai. Ele o qualifica de "golpe de Estado" cujo propósito seria "silenciar a qualquer um que não esteja de acordo com o regime de exceção instaurado no Brasil, por meio de uma Corte Suprema cooptada pela organização criminosa 'petista' (o PT, o Partido dos Trabalhadores de Lula".
Com esses argumentos justifica sua ida aos Estados Unidos, "uma terra de liberdades e de irmãos que compartilham os mesmos valores que as pessoas de bem do meu país", onde aspira articular uma oposição no exílio, seguindo o modelo de figuras venezuelanas como Juan Guaidó ou María Corina Machado.
O senador se equiparou inclusive com personagens históricos como o general francês Charles De Gaulle, que organizou a partir de Londres a resistência frente à França de Vichy submetida ao nazismo durante a II Guerra Mundial, e com o revolucionário cubano José Martí em sua luta contra o ditador Fulgencio Batista.
"Não fugi do Brasil; saí pelo Brasil", afirma Bolsonaro, que promete se dirigir de forma periódica à população e adianta que nos próximos dias tornará pública "uma estratégia para mobilizar a oposição" por "todos os meios pacíficos e legítimos" com o objetivo de "impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil".
Agradecimentos a Trump e Milei
Embora nem a Casa Branca nem o Governo argentino tenham detalhado sua implicação na saída de Bolsonaro —o Departamento de Estado só confirmou a concessão de vistos com vistas a um possível asilo político—, o senador expressou sua gratidão aos presidentes de ambos os países, Donald Trump e Javier Milei.
Ao dirigente argentino reconheceu "sua valentia, seu senso de justiça e seu respeito pela legalidade", e estendeu seu agradecimento ao "maravilhoso povo estadunidense" pela acolhida recebida.
"Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Essa luta não terminou em 25 de outubro. Só terminará quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia chegará", conclui em sua mensagem.