Leire Díez tenta impedir que a Audiência Nacional concentre toda a investigação sobre as supostas manobras destinadas a obter informações contra juízes, promotores e comandantes da Guarda Civil. A ex-militante do PSOE recorreu da decisão do juiz Santiago Pedraz de assumir as diligências que até agora instruía um tribunal de Madrid e sustenta que a UCO desenvolveu uma "investigação paralela" apesar de conhecer a existência daquele procedimento.
A defesa de Díez pediu à Sala de lo Penal da Audiência Nacional que revogue a decisão de concentrar as investigações no Juizado Central de Instrução número 5, dirigido por Pedraz. Sua tese é que durante meses existiram duas investigações sobre os mesmos fatos, uma em Madrid e outra na Audiência Nacional, uma circunstância que considera lesiva para seus direitos processuais.
O recurso chega depois que o juiz madrilenho Arturo Zamarriego, que começou a investigar o caso em 2025, aceitasse o requerimento de inibição formulado por Pedraz e enviasse suas atuações à Audiência Nacional. Esta semana, Pedraz incorporou formalmente essas diligências ao procedimento que já dirigia.
Díez denuncia que a UCO agiu "em segredo"
O principal argumento da defesa é que a Unidade Central Operativa (UCO) da Guarda Civil teria continuado a investigar os mesmos fatos por uma via diferente, sob a direção da Audiência Nacional, quando já se encontravam sob investigação no juizado de Zamarriego.
Segundo a tese recolhida nos recursos, não se trataria de investigações simplesmente conectadas, mas de atuações coincidentes. Díez sustenta que a UCO e o juizado de Pedraz desenvolveram pesquisas de forma "paralela" e sob segredo apesar de que a existência da causa madrilenha era conhecida.
A defesa questiona também que durante essa segunda investigação se praticassem diligências sobre aspectos que já haviam sido examinados pelo juizado ordinário e insiste que a Audiência Nacional não deveria ter aberto uma via de instrução própria sobre esses fatos.
Não é a primeira vez que Díez apresenta este argumento. Há meses, apresentou diferentes recursos contra atuações ordenadas por Pedraz alegando precisamente a existência de dois procedimentos "paralelos" e "idênticos".
Pedraz já assumiu integralmente a investigação
A ofensiva processual chega quando a unificação do denominado caso Leire Díez já se materializou.
No dia 12 de agosto, Zamarriego aceitou enviar sua investigação à Audiencia Nacional depois que Pedraz reclamou as diligências. O magistrado madrilenho considerou que os fatos que havia investigado estavam "indissoluvelmente unidos" aos delitos que estavam sendo examinados na Audiencia Nacional e que uma única instrução permitiria determinar melhor as responsabilidades dentro do suposto esquema.
Pedraz incorporou posteriormente a documentação remetida de Madrid, formada por 14 volumes e cerca de 3.900 folhas, com o que passou a assumir de fato o conjunto das investigações.
A causa madrilenha investigava inicialmente a Díez, ao empresário Javier Pérez Dolset e ao jornalista Pere Rusiñol por supostas manobras para obter informações comprometidas ou irregulares de membros da UCO e da Fiscalia Anticorrupção.
A investigação dirigida por Pedraz tem, no entanto, um alcance maior e analisa a existência de um suposto esquema destinado a obstruir ou desestabilizar procedimentos judiciais que afetavam ao PSOE ou ao Governo. Entre os investigados figuram dirigentes e antigos responsáveis socialistas como Santos Cerdán e Gaspar Zarrías, além de empresários e outros implicados.
O juiz de Madrid via uma possível estrutura acima de Díez
A decisão de Zamarriego de se inibir supôs além disso uma virada em relação à dimensão inicial da investigação.
Em seu despacho, o magistrado apontou que Díez, Pérez Dolset e Rusiñol "poderiam não ocupar um lugar principal" dentro da estrutura investigada e indicou a existência de pessoas situadas em níveis superiores de responsabilidade.
O juiz recolheu indícios de que Díez teria contado supostamente com "impulso e suporte intelectual e/ou financeiro" de Santos Cerdán, que teria concordado em remunerá-la com fundos vinculados ao partido por determinados serviços. Trata-se de uma hipótese de investigação e não de fatos provados.
Esse maior alcance foi precisamente um dos motivos utilizados para justificar que a Audiencia Nacional concentrasse as diligências.
A situação de Cerdán e Zarrías, outro dos argumentos do recurso
A defesa de Díez questiona igualmente que pessoas que compareceram inicialmente como testemunhas diante do juiz Zamarriego tenham passado depois a figurar como investigadas nas diligências dirigidas por Pedraz.
É o caso de Santos Cerdán. Díez sustenta que essa mudança levanta problemas do ponto de vista das garantias processuais porque uma testemunha está obrigada a declarar e dizer a verdade, enquanto que um investigado dispõe do direito de não declarar contra si mesmo. Este argumento já havia sido incluído em recursos anteriores contra a investigação da Audiencia Nacional.
Pedraz ordenou em maio atuações na sede do PSOE em Ferraz e em domicílios relacionados com Cerdán, Zarrías e outros investigados dentro das pesquisas sobre possíveis pagamentos e atuações destinadas a obter informações sensíveis contra membros das forças de segurança, fiscais ou juízes.
A Sala de lo Penal deverá decidir agora sobre o recurso
O recurso abre agora uma nova batalha processual sobre qual órgão deve investigar as supostas manobras atribuídas a Díez.
A defesa pretende que a Sala de lo Penal anule a decisão de Pedraz de integrar as diligências provenientes do juizado madrilenho. Se sua proposta prosperar, poderia ficar questionada a atual concentração das investigações na Audiencia Nacional.
Por enquanto, no entanto, Pedraz mantém o controle do procedimento e continua praticando diligências. Entre elas figura a análise de dispositivos e documentação apreendida durante a investigação e atuações relacionadas com outros investigados, como o ex-chefe de gabinete de Pedro Sánchez e ex-presidente dos Correios Juan Manuel Serrano.