A Justiça peruana decidiu estender a ordem de busca e captura, tanto em território nacional quanto no exterior, contra a ex-primeira-ministra Betssy Chávez, condenada a mais de onze anos de prisão por sua implicação na tentativa fracassada de golpe de Estado liderada pelo ex-presidente Pedro Castillo em dezembro de 2022, apesar de que atualmente se encontra no México sob proteção diplomática.
A medida foi adotada pelo magistrado da Corte Suprema, Juan Carlos Checkley, por meio de uma resolução datada de 14 de agosto de 2026, na qual determina manter ativas as ações dirigidas a localizar e deter Chávez com o fim de executar a sentença condenatória emitida pela Sala Penal Especial deste alto tribunal.
A decisão, proferida em dezembro de 2025, declarou a ex-chefe de gabinete coautora do crime de conspiração para a rebelião contra o Estado peruano e fixou uma pena efetiva de onze anos, cinco meses e 15 dias de prisão, da qual deverá ser deduzido o tempo que já passou privada de liberdade de forma preventiva.
Neste cenário, Checkley ordenou que as ordens de captura sejam renovadas de maneira periódica e que a decisão seja notificada tanto ao Escritório de Requisições Distritais de Lima da Polícia Nacional quanto ao Escritório Central Nacional da Interpol, com sede na capital peruana.
A resolução atual lembra, além disso, que no dia 19 de maio já havia sido remetido à Polícia Judicial um mandato para proceder à localização e captura de Chávez dentro e fora do território peruano. Com este novo pronunciamento, busca-se assegurar a continuidade de tal disposição e facilitar a execução provisória da condenação.
Chávez, no entanto, abandonou o Peru após passar vários meses na residência da Embaixada do México em Lima. O Executivo mexicano lhe concedeu asilo diplomático e, posteriormente, um salvoconducto que lhe permitiu sair da legação e viajar para o México a bordo de uma aeronave militar.
A defesa de Chávez rejeita a decisão judicial
O advogado da ex-primeira-ministra, Raúl Noblecilla, questionou a resolução do juiz e sustenta que as autoridades peruanas não poderão efetivar a ordem de captura enquanto sua defendida permanecer sob a proteção do Governo mexicano.
"Pode renovar ofícios quantas vezes quiser senhor Checkley, mas o que não pode é renovar a grosseira mentira de que a jurisdição peruana está acima da soberania do México e do Direito Internacional", reivindicou Noblecilla em uma mensagem divulgada nas redes sociais.
Na mesma linha, o advogado ressaltou que Chávez se encontra plenamente localizada no México e colocou em dúvida que uma decisão judicial peruana possa ter efeitos em território mexicano. "Uma resolução peruana não governa o território mexicano nem transforma a INTERPOL em polícia de perseguições políticas", prosseguiu.
Chegados a este ponto, Noblecilla reiterou que o asilo concedido pelo México deve ser respeitado pelas autoridades de Lima e apelou às garantias previstas na normativa peruana.
"Betssy Chávez se encontra protegida no México. O artigo 36 da Constituição reconhece o asilo político e obriga nosso país a aceitar a qualificação realizada pelo México", sublinhou o advogado da ex-primeira-ministra, antes de voltar a criticar a atuação do magistrado e reclamar que o conflito seja abordado sob uma ótica estritamente jurídica e não política.
Mexicano e Peru normalizam suas relações diplomáticas
A saída de Chávez da Embaixada mexicana ocorreu no contexto de uma aproximação entre México e Peru, depois que ambos os governos acordaram no início de agosto retomar suas relações diplomáticas após encaminhar a crise gerada em torno da ex-primeira-ministra.
A presidenta mexicana, Claudia Sheinbaum, anunciou a reabertura dos vínculos diplomáticos bilaterais uma vez que as autoridades peruanas autorizaram, por meio de um salvoconducto, o traslado da ex-primeira-ministra para o México.
"Com isso, as relações com o Peru serão restabelecidas", declarou Sheinbaum em uma de suas conferências de imprensa matutinas, na qual destacou os "laços históricos de irmandade, amizade e cooperação" entre os dois países e qualificou a decisão de Lima como um gesto de "boa vontade" em relação ao Governo mexicano.
Chávez se encontrava desde o início de novembro de 2025 na residência da Embaixada do México em Lima, que lhe concedeu asilo político após ser condenada por sua participação no autogolpe de Estado do ex-presidente Castillo, episódio que precipitou a ruptura das relações entre os dois países, já deterioradas há anos.
O Peru já havia manifestado seu descontentamento com o México pelas críticas feitas às medidas impostas ao ex-presidente Castillo, cuja família conseguiu asilo no país norte-americano.
Chávez, que havia solicitado sem sucesso uma medida de graça alegando seu delicado estado de saúde, permaneceu refugiada durante todo esse tempo na Embaixada mexicana em Lima, cuja segurança ficou sob responsabilidade do Brasil depois que o Governo peruano decidiu romper relações diplomáticas.
A ex-primeira-ministra foi finalmente condenada por seu papel na tentativa de Castillo de dissolver o Congresso e reestruturar as instituições do Estado em dezembro de 2022, assim como a uma inabilitação de dois anos para exercer determinadas funções e cargos públicos.
A sentença da Corte Suprema também fixa uma reparação civil conjunta de doze milhões de soles que deverão ser assumidos os condenados Pedro Castillo, Betssy Chávez, Aníbal Torres e Willy Huerta.