O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, votou neste domingo em São Bernardo do Campo, na área metropolitana de São Paulo, apresentando as eleições como uma decisão sobre dois modelos opostos de país. "O povo vai ter que escolher entre fortalecer o regime democrático ou a barbárie", afirmou o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), que também contrapôs "desenvolvimento ou atraso" e crescimento econômico frente a retrocesso. Lula se mostrou convencido de suas possibilidades de vitória e assegurou que respeitará o resultado das urnas.
O principal rival do mandatário é Flávio Bolsonaro, senador do Partido Liberal (PL) e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. A eleição chega profundamente polarizada e com ambos os candidatos separados por margens estreitas nas últimas pesquisas demoscópicas. Reuters aponta que Lula parte com uma leve vantagem em várias sondagens, mas sem ter garantida a maioria absoluta dos votos válidos necessária para resolver a presidência no primeiro turno.
Lula ataca as armas, as milícias e o caso Banco Master
Depois de depositar seu voto, Lula aproveitou sua aparição diante da mídia para lançar novas críticas contra algumas das questões que marcaram a campanha. "O Brasil não irá para frente facilitando a venda de armas", afirmou antes de acrescentar que o país também não avançará "com milicianos" nem com a "orgia" que, segundo suas palavras, cerca o escândalo do Banco Master. O presidente defendeu que o futuro do país deve ser construído com "seriedade" e "dignidade" de seus governantes.
O caso Banco Master se tornou um dos assuntos recorrentes da campanha e afeta politicamente diferentes âmbitos de poder. Flávio Bolsonaro está sendo investigado por possíveis irregularidades relacionadas com o financiamento de "Dark Horse", um filme sobre seu pai, além de por seus vínculos com pessoas relacionadas ao banco. A existência de investigações não implica culpabilidade e as responsabilidades deverão ser determinadas em sede judicial.
Propõe mudar o sistema de eleição dos juízes do Supremo
Lula também aproveitou a jornada eleitoral para abrir outro debate de fundo: uma possível reforma do Tribunal Supremo Federal (STF). O presidente defendeu revisar tanto o procedimento de eleição de seus integrantes quanto a duração de seus cargos e pediu uma maior presença de mulheres na máxima instância judicial do país. Segundo explicou depois de votar, qualquer mudança deveria ser abordada após ouvir previamente juristas e especialistas.
O dirigente do PT também questionou que o cargo possa ser utilizado para acumular grandes fortunas e comparou a função de juiz do Supremo com uma atividade que exige uma especial dedicação ao serviço público. Sua proposta implicaria abrir uma discussão institucional de grande alcance, já que atualmente os magistrados do STF são nomeados pelo presidente da República, precisam da aprovação do Senado e podem permanecer no cargo até atingir a idade de aposentadoria obrigatória.
Lula vota acompanhado de seus principais aliados
O candidato do PT depositou seu voto na Escola Estadual João Firmino Correia de Araújo, um dos centros em que tradicionalmente participa nas eleições desde São Bernardo do Campo, cidade intimamente ligada à sua trajetória política e sindical. Lula esteve acompanhado, entre outros, por seu candidato a vice-presidente, Geraldo Alckmin, além de Simone Tebet, Marina Silva, Fernando Haddad e Márcio França.
A jornada representa a sétima candidatura presidencial de Lula e sua tentativa de conseguir um quarto mandato à frente do país. O dirigente brasileiro, de 80 anos, enfrenta a eleição após uma campanha marcada pela polarização com o bolsonarismo, a preocupação com o custo de vida, a segurança e diversos escândalos que afetaram os dois grandes blocos políticos.
As pesquisas deixam aberta a segunda volta
Uma das últimas pesquisas publicadas antes da votação, elaborada pela CNT/MDA, atribuía a Lula um 43,1% de intenção de voto, frente aos 38% de Flávio Bolsonaro. Quando se contabilizam apenas os votos válidos, excluindo brancos, nulos e indecisos, o presidente alcança 47,8%, enquanto seu rival se situa em 42,1%. Lula ficaria assim 2,2 pontos abaixo dos 50% necessários para resolver a eleição neste domingo, embora uma pesquisa não permita antecipar por si só o resultado final.
O estudo foi realizado por meio de 2.007 entrevistas presenciais entre 30 de setembro e 2 de outubro, com uma margem de erro de 2,2 pontos percentuais e um nível de confiança de 95%. Em um hipotético segundo turno, CNT/MDA coloca Lula com 47,3% e Bolsonaro com 43,1%, um cenário igualmente ajustado dentro das margens estatísticas do estudo. Outras pesquisas publicadas na véspera também refletem uma corrida apertada entre os dois principais candidatos.
Mais de 158 milhões de brasileiros chamados a votar
As eleições deste domingo vão muito além da Presidência. 158,7 milhões de pessoas estão habilitadas para votar e devem escolher também governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Juntas, estão em jogo mais de 1.650 cargos em uma jornada que renovará completamente a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado, além dos governos dos 26 estados e do Distrito Federal.
As urnas permanecem abertas entre 8h00 e 17h00 de Brasília e a contagem começará imediatamente depois. Para ganhar a Presidência no primeiro turno, um candidato precisa mais da metade dos votos válidos. Se nenhum alcançar esse limiar, os dois candidatos mais votados voltarão a se enfrentar no domingo, 25 de outubro, data fixada oficialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral para um eventual segundo turno.
O Brasil chega assim a uma de suas citações eleitorais mais apertadas dos últimos anos. Lula pretende prolongar o ciclo do PT e apresenta a votação como uma defesa de seu projeto democrático e social, enquanto Flávio Bolsonaro busca devolver o bolsonarismo ao Palácio do Planalto. As pesquisas desenham um cenário aberto e tornam provável um segundo turno, mas serão os votos emitidos neste domingo que determinarão se o Brasil precisa retornar às urnas dentro de três semanas.