O PP censurou esta terça-feira que o Governo não tenha ativado antes o comando único nem declarado a "situação de interesse para a segurança nacional" pela crise de Ceuta, e que o tenha feito apenas quando o presidente Pedro Sánchez concluiu suas férias, quase um mês depois da entrada massiva de 80.000 migrantes desde Marrocos para a cidade autônoma.
A porta-voz do PP no Congresso, Ester Muñoz, ressaltou que seu grupo não foi informado da convocação do Conselho de Segurança Nacional, no qual participa também por via telemática o presidente ceutí, Juan Jesús Vivas. "A única informação que tínhamos era a que todos os espanhóis tinham: que Sánchez terminava suas férias esta semana", destacou em uma entrevista na "Onda Cero", coletada pela Europa Press.
Muñoz lembrou que, frente à primeira avaliação do Executivo após a explosão da crise migratória, o PP já sustentou que a "normalidade" não havia retornado a Ceuta e que era imprescindível adotar "medidas extraordinárias", propostas por seu partido desde 30 de julho, data da entrada massiva de migrantes.
"Agora, quando Sánchez volta de férias, agora é preciso aplicar a Lei de Segurança Nacional e ter um comando único e que haja coordenação", insistiu a porta-voz parlamentar, sublinhando que o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, reivindicou essas medidas anteriormente e foi tachado de "alarmista, racista e xenófobo" porque, segundo o Governo, já existia "normalidade".
Na opinião de Muñoz, em Moncloa já são "conscientes" da "sensação de deserção" que o Executivo transmitiu durante este mês em relação à crise em Ceuta. "Não havia uma situação de normalidade, havia um Governo ausente", criticou a dirigente popular, que também denunciou o "regueiro de ministros" que, a seu ver, apenas pretendia encenar uma "realidade" distinta da que vive a cidade autônoma.
"É uma imagem tão lamentável e tão desastrosa a que está provocando o Governo da Espanha que até os seus próprios já têm dificuldade em defendê-los", acrescentou Muñoz, lembrando que tanto Vivas quanto a Assembleia de Ceuta, por unanimidade, solicitaram o comando único e a aplicação da Lei de Segurança Nacional.
Questionada sobre a designação do ministro de Política Territorial, Ángel Víctor Torres, à frente do comando único na crise de Ceuta, a porta-voz do PP expressou suas reservas sobre essa escolha. "É uma evidência do interesse que Pedro Sánchez coloca nisso. O lógico é que quem tivesse o comando único fosse um ministro como o da Interior, a ministra da Defesa... Gente que tem seus próprios serviços, toda a informação e os serviços de inteligência", expôs.
Pedidos de comparecimento de Sánchez nas Cortes
Muñoz advertiu ainda que o presidente do Governo poderia ser convocado para comparecer no Senado se a Deputação Permanente do Congresso derrubar o pedido para que Sánchez dê explicações em um pleno monográfico pela crise migratória de Ceuta.
"Vamos esperar que chegue a Deputação Permanente e em função disso decidiremos, mas absolutamente não descartamos nada", assinalou, defendendo que as câmaras territoriais, "por direito constitucional, têm a faculdade de exigir que os membros do Governo e o presidente compareçam". "O Governo não escolhe", rematou.
Avisos prévios e acusações de inação
Em declarações posteriores à imprensa no Congresso, antes do comparecimento da ministra da Defesa, Margarita Robles, Muñoz assegurou que o Executivo contava com avisos prévios sobre a possibilidade de que se repetisse um episódio semelhante ao de 2021.
Mencionou três documentos que, em sua opinião, provam que o Governo conhecia esse risco: a Estratégia de Segurança Nacional de 2021, a Estratégia de Segurança Marítima de 2024 e o Plano Anual de Segurança Nacional de 2025, aprovado este ano. Segundo Muñoz, nesses textos se advertia sobre as "guerras híbridas" através da imigração irregular, do aumento dos fluxos em Ceuta e da necessidade de reforçar a prevenção, o alerta e as capacidades na fronteira.
"O Governo da Espanha não fez absolutamente nada. E passou", denunciou a porta-voz, recriminando que a situação se repetiu com Robles na Defesa, Fernando Grande-Marlaska na Interior e Pedro Sánchez na Presidência. A seu ver, não se deve à falta de meios, mas a um "Governo da Espanha ausente".
Muñoz também trouxe à colação que o ministro dos Transportes, Óscar Puente, publicou no dia 1 de agosto uma mensagem nas redes sociais afirmando "outra crise que resolve Pedro Sánchez", e o confrontou com a decisão, 26 dias depois, de aplicar as medidas que, segundo reiterou, vinham reclamando desde o dia 30 de julho tanto o PP quanto a Assembleia de Ceuta.
Críticas de Sémper à gestão e à política migratória
Em outra entrevista na "Telecinco", coletada pela Europa Press, o porta-voz nacional e vice-secretário de Cultura do PP, Borja Sémper, também atacou um presidente do Governo "que perdeu o contato com a realidade" e que, em sua opinião, não sabe "gerir os problemas dos espanhóis". Sémper considerou que Sánchez "acerta geralmente quando retifica", e avaliou a instauração do comando único em Ceuta após a chegada sucessiva de ministros à cidade autônoma "como frango sem cabeça", lançando mensagens "desarticuladas e descoordenadas".
Nesse contexto, Sémper defendeu que cabe a Marrocos aplicar "política social", e não à Espanha, alertando ainda que o sistema assistencial espanhol "está saturado" e não pode assumir mais imigrantes.
"A realidade é que a Espanha já não pode acolher mais imigrantes. Portanto, o que parece razoável é que aqueles que entraram de maneira ilegal voltem para Marrocos", reiterou o porta-voz nacional do PP, que criticou a disparidade de critérios entre o ministro de Assuntos Exteriores, José Manuel Albares, e a titular da Infância, Sira Rego, em matéria migratória.
Na sua opinião, o Governo de Pedro Sánchez tem "uma confusão interna" e "uma falta de coordenação" em seu seio, com uma "batata quente", a das devoluções dos imigrantes, que os "incomoda". "Mas eles têm que fazê-lo", insistiu, antes de ressaltar que o retorno das pessoas que saíram ilegalmente de Marrocos "está amparado pela União Europeia" com um "marco legal" que deve ser aplicado.