Dirigentes de Sumar reclamaram que se assumam responsabilidades políticas e possíveis destituições no Ministério do Interior se se confirmar que, dentro da Polícia, não foi trasladada ao departamento que dirige Fernando Grande-Marlaska informação sobre o polêmico relatório que aponta para as forças de segurança de Marrocos na entrada massiva de migrantes em Ceuta, ou se foram ocultadas suas conclusões.
O dirigente mais contundente foi o coordenador federal de Izquierda Unida (IU), Antonio Maíllo, que exigiu demissões na cúpula e apontou que, se essa falta de lealdade em relação ao Interior for comprovada, deveria implicar a demissão do diretor-geral da Polícia, Francisco Pardo, ou até mesmo que Marlaska assumisse pessoalmente a responsabilidade se seu departamento conhecia essas conclusões e decidiu não comunicá-las.
"Vamos esperar o que diz o relatório, mas o que está claro é que se se confirmar que a Polícia foi desleal com o Ministério do Interior, o diretor-geral da Polícia terá que renunciar. E, se se confirmar que o Ministério do Interior teve essa informação e não a transmitiu, então o ministro do Interior terá que assumir a responsabilidade", ressaltou em uma coletiva de imprensa no Parlamento andaluz.
Maíllo endureceu seu discurso em razão dessa controvérsia, dado que o relatório corroboraria a tese defendida pelo sócio minoritário do Governo de que Marrocos teve um papel relevante na crise, em contraste com a posição mantida pelo setor socialista do Executivo.
"Se ele conhecia, não pode continuar um dia a mais como ministro"
Após sua intervenção pública, o líder da IU reiterou sua postura nas redes sociais, sublinhando que "o alcance final e quem conhecia ou não o relatório" deve "ter consequências". "Se seu conteúdo não chegou até o ministro, ele deve destituir imediatamente o diretor-geral da Polícia; se Marlaska o conhecia, ele não pode continuar um dia a mais como ministro", enfatizou.
Por sua parte, o ministro do Interior solicitou ao diretor-geral da Polícia que lhe confirme "o mais breve possível" a veracidade e o conteúdo do documento no qual se atribuiria às Forças e Corpos de Segurança marroquinos a entrada massiva de migrantes em Ceuta no final de julho.
Mais tarde, o Ministério do Interior comunicou que o diretor-geral da Polícia Nacional, Francisco Pardo, informou Marlaska que "não existe relatório policial algum que atribua às Forças de Segurança marroquinas o planejamento ou execução do que aconteceu nos dias 30 e 31 de julho em Ceuta".
Sumar exige esclarecer o papel de Marrocos e depurar responsabilidades
No seio de Sumar, o deputado de Compromís, Alberto Ibáñez, apontou que só cabem dois cenários nesta polêmica: ou a Polícia teria ocultado dados ao Interior ou o próprio Marlaska "mentiu" sobre a implicação de Marrocos na entrada massiva de migrantes na cidade autônoma.
A porta-voz de Sumar no Congresso e coordenadora geral do Movimento Sumar, Verónica Martínez, sustentou que o ocorrido com o relatório e sua filtragem é "grave" e pediu "clareza e transparência" por parte do Interior.
Sem citar diretamente o PSOE, pediu para depurar "responsabilidades" e apontou, em alusão à ala socialista, que "continuar dizendo que Marrocos não teve nada a ver se torna cada vez mais difícil".
Maíllo acrescentou que a opacidade em torno deste relatório se encaixaria com o que vem denunciando durante o verão: que "há terminais na estrutura do Estado que funcionam à margem e em paralelo, e com deslealdade" em relação a governos legítimos. "Se isso se confirmar, é que há uma insuficiência de informação ao Governo e isso precisa ser esclarecido", advertiu.
Além disso, reiterou que, à parte deste documento, para IU é evidente que representa um "erro" do presidente do Governo, Pedro Sánchez, não reconhecer que "há uma responsabilidade no Governo de Marrocos" sobre o que ocorreu em Ceuta, que a formação considera "uma responsabilidade de caráter criminal, porque provocou nada mais e nada menos que 145 mortes de inocentes", conforme sublinhou.
O deputado de IU Nahuel González apontou, a respeito da negativa do PSOE em vincular Rabat com a crise, que admitir que Marrocos esteve por trás de um ataque direto "teria enormes consequências geopolíticas e obrigaria a reagir à União Europeia", mas que "é ainda pior tratar as pessoas como idiotas".
Urtasun pede prudência e Podemos volta a atacar Marlaska
O ministro da Cultura, Ernest Urtasun, optou pela cautela até que se determine a credibilidade do relatório, embora tenha reiterado que Sumar considera evidente que Marrocos tem responsabilidade, "por ação e omissão", nesta crise.
Nessa mesma linha, a porta-voz parlamentar de Sumar pediu que, se essas investigações policiais forem corroboradas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros convoque a embaixadora de Marrocos na Espanha, Karima Benyaich, para exigir explicações formais.
A ministra da Saúde, Mónica García, sustentou que reclamar responsabilidades ao país vizinho é "imperativo" caso se confirme o conteúdo do relatório policial.
Desde o Podemos, o co-porta-voz Pablo Fernández se expressou em termos próximos aos de Maíllo e voltou a exigir a destituição ou demissão do titular do Interior por sua "desastre de gestão".
"Acho que é incontestável que Marlaska, a dia de hoje, não pode continuar nem um minuto mais à frente do Ministério do Interior", declarou no 'Canal Red' e em uma mensagem na rede social 'X'. O dirigente 'roxo' já havia reclamado em várias ocasiões a saída do ministro.