Uma equipe internacional de cientistas divulgou nesta terça-feira o estudo genético "maior" realizado até a data sobre fibromialgia. O trabalho sublinha o papel chave do sistema nervoso na aparição deste transtorno e aporta evidência "sólida" de que sua origem é principalmente neurológica.
A pesquisa, publicada na revista 'Nature Medicine', contribui para esclarecer as causas biológicas da fibromialgia, uma patologia que afeta cerca de dois por cento da população mundial e que se caracteriza por dor e sensibilidade generalizadas, cansaço intenso e alterações do sono, da memória e do estado de ânimo.
Para o estudo, foram analisados dados genéticos de mais de 2,5 milhões de pessoas adultas, das quais 55.000 tinham um diagnóstico de fibromialgia. A partir dessa informação, os especialistas localizaram variantes da sequência de DNA em 26 zonas do genoma associadas a um maior risco de desenvolver a doença. Muitos dos genes situados nessas regiões intervêm na atividade do cérebro e do sistema nervoso.
A professora Frances Williams, coautora principal do trabalho e catedrática de Epidemiologia Genômica no King's College de Londres, destacou a solidez dos resultados, que apontam que "a fibromialgia representa um problema no processamento da dor".
Embora a pesquisa não forneça uma prova genética para diagnosticar a fibromialgia nem apresente um tratamento novo, sim representa um avanço significativo. "Durante décadas, o dor dos pacientes foi desconsiderada ou foi dito a eles que é simplesmente psicológico. Nossas descobertas confirmam que a condição tem uma clara base biológica", apontou o pesquisador do Instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum e da Universidade de Toronto Michael Wainberg, também coautor principal do artigo.
Os autores sustentam que essa informação "valiosa" sobre os mecanismos biológicos da doença facilitará o desenvolvimento de melhores estratégias para detectar, compreender e abordar a fibromialgia nos próximos anos.
Relação com a doença de Huntington
Entre as 26 variantes genéticas descritas, a mais estreitamente ligada ao risco de fibromialgia se localiza no gene HTT. Distintas mutações neste gene são responsáveis pela doença de Huntington, um transtorno neurodegenerativo grave, progressivo e letal. Outra das variantes sinalizadas afeta um receptor denominado GPR52, que regula os níveis de HTT e que já está sendo estudado como alvo terapêutico potencial na doença de Huntington.
O trabalho também põe em evidência uma notável coincidência genética entre a fibromialgia e outras afecções como a dor lombar, a síndrome do intestino irritável ou o transtorno de estresse pós-traumático. Segundo os pesquisadores, determinados processos biológicos compartilhados no sistema nervoso poderiam predispor as pessoas a várias dessas doenças, o que ajudaria a explicar por que costumam aparecer de forma conjunta.
"Sabemos que os síndromes de dor crônica se agrupam em indivíduos e famílias e que são geneticamente similares. Abordar os mecanismos comuns que os sustentam poderia beneficiar todo um conjunto de transtornos", indicou Frances Williams.
Mais fatores além da genética
Os especialistas consideram que, mesmo em quem acumula várias variantes genéticas vinculadas à fibromialgia, provavelmente sejam necessários outros desencadeadores, como uma patologia artrítica dolorosa, para que se manifeste o quadro clínico. Isso implicaria que a genética, por si só, não determina o desenvolvimento da doença.
A professora adjunta do Centro Oncológico Fred Hutch Nasa Sinnott-Armstrong, coautora principal do estudo, incentivou a continuar analisando a interação entre genes, ambiente e experiências vitais com o fim de esclarecer o que provoca a fibromialgia e como abordá-la de forma mais eficaz.
Com este trabalho, os pesquisadores impulsionaram a criação do Consórcio de Genômica da Dor Crônica, destinado a estudar outros síndromes de dor persistente, começando pela dor pélvica. Para o consórcio, a fibromialgia representa apenas o primeiro passo de um projeto mais amplo para desvendar o conjunto de doenças relacionadas com a dor crônica.