Existe uma tendência histórica a acusar as novas gerações de serem demasiado “frágeis” quando suportamos a precariedade com maior intensidade que nenhum outro grupo etário, de “vagabundos” enquanto encadeamos contratos temporários, jornadas parciais e salários insuficientes, de “esbanjadores” quando destinamos a maior parte de seus rendimentos ao aluguel ou de sermos uma “geração de cristal” quando a realidade é que enfrentamos uma crise de saúde mental de uma magnitude inassumível para uma sociedade como a nossa.
Este mês de agosto se celebra o Dia Internacional da Juventude. Será também o momento em que voltaremos a ser apontados como responsáveis por quase todos os males da nossa geração e até mesmo da sociedade em geral.
Como dizíamos, este discurso não é uma novidade. Já vimos isso quando um mercado de trabalho incapaz de oferecer emprego de qualidade às pessoas jovens e um sistema educacional insuficientemente preparado para combater o abandono escolar precoce, deixaram milhares de jovens sem expectativas de futuro. Em vez de apontar as causas estruturais daquela situação, nossa sociedade cunhou o termo “ninis” e transferiu a responsabilidade àqueles que eram, precisamente, as principais vítimas desse fracasso coletivo.
É um padrão que se repete com demasiada frequência. Resulta muito mais simples converter os problemas coletivos em supostos fracassos individuais do que enfrentar as causas profundas que explicam por que nosso modelo econômico e social deixa de garantir oportunidades de vida dignas para toda uma geração.
As pessoas jovens sempre estiveram na origem das grandes transformações sociais
Por isso, para uma sindicalista jovem hoje em dia, é imperativo combater continuamente o preconceito de que a juventude atual vive afastada da política. Primeiro, porque é falso e segundo, porque impede compreender os verdadeiros desafios de uma geração que decidiu deixar de esconder seu mal-estar e, com isso, encontrar respostas coletivas capazes de transformá-los.
As pessoas jovens sempre estiveram na origem das grandes transformações sociais. A história do sindicalismo de classe em geral, e do nosso sindicato em particular, são boa mostra disso. Não porque fossem um sujeito à parte ou especial, mas porque eram aqueles que ocupavam os novos setores produtivos, quem sofria antes a precariedade e quem obrigava o movimento sindical a reinventar e reimaginar suas formas de organização.
Ocorreu com a industrialização, com as migrações internas, com a incorporação massiva das mulheres ao emprego e volta a ocorrer hoje com a digitalização, as plataformas, a externalização e a fragmentação e atomização do trabalho. A juventude não é nem pode ser uma questão setorial para o sindicato: é o lugar onde antes se manifestam as mutações do mundo laboral.
Por isso, desde CCOO temos isso claro, o que realmente é transformador consiste em demonstrar que aquilo que parece um fracasso individual responde a causas estruturais e, portanto, só admite respostas coletivas. Por isso precisamos multiplicar espaços onde a juventude possa se encontrar, debater, errar, se organizar e assumir responsabilidades próprias. Não como destinatária de políticas juvenis, mas como protagonista da vida sindical.
Basta olhar para trás para ver que só intensificando as experiências compartilhadas conseguiremos hegemonizar a consciência sindical. Nossa organização cresceu quando também foi um espaço de socialização, de formação e de cultura para gerações inteiras. Promover essa dimensão não é um exercício de nostalgia: é uma condição para fortalecer o sindicalismo de classe e confederal em um tempo marcado pelo isolamento e pela individualização.
A modernidade do sindicalismo não depende apenas de sua estética, mas de sua ética
Devemos fazê-lo, além disso, a partir da convicção de que incorporar pessoas jovens aos espaços de decisão não responde a uma lógica de cotas nem de equilíbrios, mas a uma necessidade política e democrática. Nossa organização só pode interpretar um mundo do trabalho que muda aceleradamente se aqueles que tomam as decisões incorporam a experiência de quem o habita em primeira pessoa.
As pessoas jovens não pedimos organizações mais modernas no sentido simples da palavra, mas, como mencionava, na vanguarda. Não basta investir recursos em redes sociais, fazer muitos tiktoks e gastar muito tempo tentando decifrar como “utilizar novas linguagens”. A verdadeira inovação consiste em ouvir e adaptar-se de formas novas a esta realidade de mudanças frenéticas para poder organizar aqueles que ainda não estão, mas que mais nos precisam. A modernidade do sindicalismo não depende apenas de sua estética, mas de sua ética, de sua capacidade de reconhecer antes que ninguém onde está nascendo a nova classe trabalhadora e construir organização ao seu lado. Isso é o que nos fará úteis e nos fará continuar sendo quem somos.
sobre a firma:
Pau Garcia Orrit é secretária confederal de Juventude de CCOO