Greve de maquinistas na Renfe em 29 de outubro: 24 horas de paralisações pelo conflito sobre a segurança ferroviária

O sindicato Semaf convoca uma jornada de greve em todas as empresas do Grupo Renfe após o fracasso das negociações com Transportes, Adif e a Agência de Segurança Ferroviária. A operadora assegura que cumpriu seus compromissos e rejeita as acusações dos trabalhadores. As paralisações coincidirão com outras seis jornadas de mobilização previstas na Ouigo durante os feriados de novembro e dezembro.

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Nova ameaça de greve no transporte ferroviário espanhol. O Sindicato Espanhol de Maquinistas e Ajudantes Ferroviários (Semaf) convocou uma jornada de 24 horas de paralisação para a próxima quinta-feira, 29 de outubro, que afetará o pessoal de condução de todas as empresas do Grupo Renfe. A mobilização começará às 00.01 horas e terminará às 23.59 horas, depois que as negociações entre os representantes sindicais, a companhia e os organismos responsáveis pela segurança ferroviária tenham terminado sem acordo. O sindicato denuncia que os compromissos adquiridos em fevereiro passado para melhorar as condições de segurança continuam bloqueados, enquanto a operadora pública sustenta que executou todas as medidas que estavam sob sua responsabilidade.

A convocação ocorre às vésperas do feriado de Todos os Santos e ameaça complicar os deslocamentos de milhares de viajantes, especialmente nos serviços de alta velocidade, longa distância, média distância e Cercanias. Embora ainda não tenha sido concretizado o alcance das possíveis cancelamentos, o fato de que a paralisação afete o pessoal de condução de todas as empresas do grupo pode repercutir em boa parte da rede ferroviária. A esta situação se soma o conflito laboral aberto na Ouigo, onde o Semaf também convocou seis jornadas de greve distribuídas entre o final de outubro e o início de dezembro.

Por que os maquinistas da Renfe convocam uma greve em 29 de outubro

A origem do conflito encontra-se no desacordo sobre o cumprimento das medidas de segurança ferroviária pactuadas em 9 de fevereiro passado, quando os sindicatos e as administrações alcançaram um compromisso que permitiu desconvocar as paralisações previstas para os dias 10 e 11 desse mês. Aquelas negociações ocorreram após os graves acidentes ferroviários registrados em janeiro em Adamuz (Córdoba) e Gelida (Barcelona), que deixaram um balanço conjunto de 47 vítimas mortais e provocaram uma profunda preocupação entre os profissionais do setor pelo estado da infraestrutura e os procedimentos de segurança.

Segundo Semaf, desde então foram realizadas diferentes reuniões e mesas técnicas sem que tenham se concretizado as melhorias comprometidas. O sindicato registrou no passado 5 de outubro um pedido de intervenção da Comissão de Conflitos, que resultou em uma reunião realizada nesta sexta-feira com representantes do Ministério dos Transportes, Adif, a Agência Estatal de Segurança Ferroviária (AESF) e Renfe. No entanto, as conversas concluíram sem avanços suficientes para evitar a convocação de greve.

A organização sindical assegura que os trabalhos permanecem praticamente paralisados e acusa as administrações de utilizar os procedimentos burocráticos como justificativa para atrasar a aplicação dos acordos. "Tudo continua igual de paralisado que no mês de maio", aponta Semaf, que considera inaceitável que a coordenação entre diferentes organismos impeça a adoção de medidas que, em sua opinião, são essenciais para a segurança dos trabalhadores e dos passageiros.

Segurança diante de temporais, trens mais confiáveis e melhores condições laborais

As reivindicações do sindicato abrangem diferentes aspectos do funcionamento do sistema ferroviário. Um dos principais é a necessidade de estabelecer protocolos claros e obrigatórios diante de situações meteorológicas adversas, especialmente quando ocorrem chuvas intensas, inundações, deslizamentos ou incidentes que possam comprometer a segurança da infraestrutura. Os maquinistas reivindicam que as decisões sobre a suspensão ou retomada da circulação estejam respaldadas por critérios técnicos e por uma coordenação efetiva entre os organismos responsáveis pela rede.

Semaf também exige melhorias na confiabilidade e na manutenção dos trens, além de uma maior proteção laboral para os profissionais de condução. Entre suas solicitações figura a implantação de uma verdadeira "cultura justa", um modelo de gestão da segurança que busca analisar os incidentes e corrigir as falhas do sistema sem atribuir automaticamente toda a responsabilidade ao trabalhador. A organização considera necessário abrir um canal direto de comunicação entre os sindicatos, a Agência Estatal de Segurança Ferroviária e a Inspeção do Trabalho para abordar conjuntamente os riscos laborais e as deficiências operativas.

Em matéria de condições de trabalho, os maquinistas reclamam que se respeitem os períodos de descanso, as interrupções obrigatórias durante a condução e os acordos sobre novas incorporações. Também solicitam desbloquear a aplicação de coeficientes redutores para antecipar a idade de aposentadoria em determinadas circunstâncias e manter os protocolos de atendimento aos condutores afetados por atropelamentos, situações que podem ter importantes consequências psicológicas para os profissionais.

Renfe rejeita as acusações e assegura que cumpriu todos os seus compromissos

A resposta de Renfe não se fez esperar. A empresa pública defendeu que executou integralmente as medidas que lhe correspondiam dentro do acordo alcançado em fevereiro e mostrou seu desacordo com a convocação de uma greve que considera difícil de justificar. Segundo a companhia, boa parte das reivindicações apresentadas pelo Semaf dependem de decisões regulatórias ou administrativas que excedem suas competências e sobre as quais já se está trabalhando em diferentes grupos técnicos.

Renfe sustenta que, das 24 medidas pendentes que correspondem a outros organismos, 17 já foram executadas e as sete restantes continuam em desenvolvimento mediante os procedimentos administrativos, técnicos e normativos correspondentes. A operadora também lembra que o acordo de fevereiro não estabelecia prazos concretos para completar todas as atuações, pelo que rejeita que se possa falar de um descumprimento generalizado do que foi pactuado.

Em matéria de emprego, a companhia assegura que cumpriu seu compromisso de impulsionar até 1.200 contratações adicionais para reforçar o funcionamento do sistema ferroviário. Segundo sua versão, os processos de mobilidade territorial e funcional já foram completados e as ofertas públicas de emprego previstas foram convocadas. A empresa também destaca as medidas destinadas a melhorar a manutenção dos trens, recuperar capacidades técnicas próprias e reforçar a confiabilidade do material ferroviário.

Renfe questionou, além disso, que o Semaf tenha decidido convocar uma greve apenas três meses após a assinatura do IV Acordo Coletivo do grupo, alcançado em julho. A operadora considera que várias das questões agora levantadas não foram incluídas naquela negociação e defende que existem mecanismos de diálogo abertos para continuar avançando nas melhorias pendentes.

Os acidentes de Adamuz e Gelida, a origem das exigências de segurança

O confronto entre os maquinistas e a Renfe não pode ser entendido sem os acidentes que marcaram o início de 2026. O 18 de janeiro ocorreu um grave sinistro ferroviário em Adamuz, na linha de alta velocidade Madrid-Sevilha, enquanto que o 20 de janeiro um trem de Rodalies sofreu um acidente em Gelida, depois que um muro caiu sobre a via. Ambos os eventos, que deixaram um total de 47 falecidos, colocaram o foco sobre os sistemas de prevenção, a manutenção das infraestruturas e a resposta diante de situações de emergência.

Em decorrência daqueles acontecimentos, os sindicatos ferroviários reivindicaram medidas para reforçar a segurança da circulação e melhorar a coordenação entre a Renfe, Adif e os organismos supervisores. O acordo alcançado em fevereiro permitiu desativar uma primeira convocação de greve, mas as diferenças sobre seu grau de execução acabaram provocando uma nova mobilização oito meses depois. Enquanto a Semaf considera que os avanços são insuficientes, a Renfe insiste que a maioria dos compromissos já estão completados ou em fase de desenvolvimento.

O conflito coincide também com um período de incidentes na rede de alta velocidade. Durante esta semana, a circulação entre Madri e Barcelona foi condicionada pelo incêndio registrado em um trem AVE na altura de Ricla (Zaragoza), que obrigou a modificar serviços da Renfe, Ouigo e Iryo. A isso se soma a necessidade de renovar parte do material ferroviário, um processo no qual a Renfe trabalha por meio da aquisição de novos trens de alta velocidade.

Ouigo também enfrenta seis jornadas de greve durante os próximos feriados

A paralisação da Renfe não será a única mobilização ferroviária prevista para as próximas semanas. Semaf também convocou seis jornadas de greve na Ouigo, a operadora de alta velocidade pertencente ao grupo ferroviário francês SNCF, coincidindo com vários dos principais feriados do outono e início do inverno.

Neste caso, os trabalhadores estão chamados a secundar paros completos de 24 horas nos dias 30 de outubro e 2 de novembro, coincidindo com o feriado de Todos os Santos. Posteriormente haverá paros parciais nos dias 6 e 9 de novembro, durante o feriado da Almudena em Madrid, e nos dias 4 e 8 de dezembro, em torno do feriado da Constituição. Nessas quatro últimas jornadas, as interrupções foram convocadas de 6.00 a 12.00 horas e de 18.00 a 23.59 horas.

As reivindicações na Ouigo são diferentes das que motivam a greve na Renfe. Na operadora privada, Semaf denuncia supostos descumprimentos do acordo coletivo, relacionados com a organização dos turnos, os descansos, a conciliação familiar e as condições de trabalho. A empresa, por sua vez, sustenta que respeita o acordo vigente e expressou sua disposição a continuar negociando com os representantes dos trabalhadores para tentar evitar as mobilizações.

O que acontecerá com os bilhetes da Renfe no dia 29 de outubro

A convocação de greve abre um período de incerteza para quem tem previsto viajar de trem no próximo 29 de outubro, especialmente para os passageiros que tenham reservado deslocamentos nos dias anteriores ao feriado de Todos os Santos. Por enquanto, não foi anunciado o número de trens que poderiam ser afetados, já que o alcance da protesta dependerá do acompanhamento dos trabalhadores, dos serviços mínimos que forem estabelecidos e da evolução das negociações.

Neste tipo de convocatórias, as autoridades competentes podem fixar serviços mínimos para garantir determinados deslocamentos, especialmente em serviços considerados essenciais. Uma vez concretizados, as operadoras devem adaptar seus horários e comunicar aos viajantes as possíveis cancelamentos e modificações. Os passageiros cujos trens forem afetados poderão consultar as alternativas disponíveis e as condições de troca ou devolução de seus bilhetes.

A possibilidade de desconvocar a greve continua aberta se Semaf, Renfe e as administrações alcançarem um entendimento durante os próximos dias. No entanto, o sindicato mantém por enquanto sua convocação de 24 horas e exige compromissos concretos para desbloquear as medidas de segurança e as condições de trabalho que considera pendentes.

Com dois conflitos abertos simultaneamente na Renfe e na Ouigo, o transporte ferroviário espanhol enfrenta semanas especialmente complicadas, coincidindo com datas de elevada mobilidade. A resolução das negociações será determinante para saber se as paralisações chegam a se materializar e até que ponto podem alterar os deslocamentos previstos entre o final de outubro e o início de dezembro.