O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) advertiu nesta quinta-feira que a recente absolvição do empresário Yorgen Fenech, apontado como o cérebro do assassinato da repórter Daphne Caruana Galizia por meio de um carro-bomba em 2017, marca um preocupante "precedente" para a Europa.
"O veredicto de ontem significa que, quase nove anos depois que o assassinato de Daphne Caruana Galizia chocou a Europa, Malta ainda não condenou a pessoa que orquestrou o crime. É uma situação desgarradora para sua família, que lutou incansavelmente por obter justiça", lamentou o subdiretor de incidentes do CPJ, Tom Gibson, em um comunicado.
O responsável do CPJ qualificou como "devastador para todos os jornalistas" o veredicto do júri, que exonerou Fenech das acusações de cumplicidade e conspiração, lembrando que o jornalismo tem como missão "exigir responsabilidades dos poderosos, tanto em Malta quanto em todo o continente".
Nessa mesma linha, questionou o Estado maltês por suas "promessas" em matéria de proteção de jornalistas e cumprimento da lei, sublinhando que Malta "não cumpriu com a maioria delas". "Isso é inaceitável. Continuaremos fazendo campanha em prol da reforma e apoiando a família de Daphne Caruana Galizia até que se faça justiça", argumentou.
O CPJ também ecoou a mensagem divulgada pelos familiares da jornalista após a decisão do júri. "Durante o julgamento de Fenech, que durou meses, ouvimos muitas pessoas, mas nunca mais veremos nem ouviremos Daphne. A responsabilização já é necessária para todos aqueles que permitiram, facilitaram ou protegeram seus assassinos", sentenciou a família nas redes sociais.
SOBRE O CASO
Os parentes de Caruana Galizia recorreram à Justiça para afastar do procedimento Silvio Valletta, ex-comissário adjunto da Polícia de Malta e esposo de Justyne Caruana, então ministra do Governo trabalhista, ao considerar que não era imparcial. Tornou-se público que mantinha uma relação próxima com Fenech, até o ponto de viajar com ele para o exterior enquanto dirigia a investigação.
A essa falta de independência somaram-se supostas irregularidades na manipulação das provas e contínuas vazamentos de dados reservados sobre o avanço das investigações, o que permitiu aos implicados antecipar-se durante anos aos movimentos das autoridades.
As investigações apontam que o empresário teria pago em torno de 150.000 euros aos sicários para executar o atentado. Meses antes de ser assassinada, a jornalista havia revelado a existência de uma sociedade opaca radicada nos Emirados Árabes Unidos, denominada 17 Black e vinculada a Fenech, usada presumivelmente para canalizar comissões ilegais para altos cargos do Executivo maltês.
Outras duas pessoas, Robert Agius, apelido 'Ta Maksar', e seu sócio Jamie Vella, foram considerados culpados em junho de 2025 por fornecer o explosivo utilizado no ataque. Em 2022, os irmãos George e Alfred Degiorgio aceitaram penas de 40 anos de prisão após reconhecerem que colocaram e detonaram a bomba, enquanto um terceiro implicado, Vince Muscat, recebeu 15 anos após confessar e fornecer detalhes chave sobre o crime.
Caruana Galizia perdeu a vida em 16 de outubro de 2017, aos 53 anos, quando um artefato explodiu em seu veículo em frente à sua casa em Bidnija. Naquele momento, trabalhava em uma investigação relacionada com os Papéis do Panamá e com supostos subornos canalizados de 17 Black para empresas de fachada controladas no Panamá pelo chefe de gabinete do ex-primeiro-ministro Joseph Muscat, Keith Schembri, e pelo então ministro do Turismo, Konrad Mizzi.
Fenech, que havia sido o máximo responsável do Grupo Tumas e fazia parte do conselho da empresa ElectroGas Malta, foi preso em novembro de 2019 enquanto navegava em seu iate após sair de um porto esportivo maltês. A acusação se sustentava no testemunho de seu motorista, Melvin Theuma, que admitiu ter atuado como intermediário no assassinato e obteve um indulto em troca de colaborar.
A detenção do magnata, unida às suspeitas de implicação de altos cargos do Governo, desencadeou em dezembro de 2019 uma onda de protestos em todo o país que acossou politicamente o então primeiro-ministro Joseph Muscat. A jornalista também havia revelado que a esposa do 'premier' era titular de uma sociedade no Panamá chamada Egrant.