A catástrofe começou no rio Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi situado em uma zona abrupta do Himalaia. A explicação preliminar aponta que uma avalanche de gelo e rochas caiu sobre o leito, formou uma represa natural e provocou uma enorme acumulação de água.
Quando o bloqueio cedeu, a água desceu de golpe pelo vale misturada com lama, pedras e restos de vegetação. A corrente alcançou localidades, postos de fronteira e obras hidrelétricas sem quase margem para evacuar a população.
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Pelo menos 55 mortos e 403 desaparecidos por uma enxurrada entre o Nepal e o Tibete
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O que ocorreu no Nepal
A cheia alcançou por volta das 9h00 locais o distrito de Rasuwa, ao norte de Catmandu. A água atingiu primeiro as proximidades da fronteira e avançou depois pelo Bhote Koshi até se incorporar ao rio Trishuli. A corrente destruiu gravemente assentamentos como Timure, Rasuwagadhi e Syabrubesi. As imagens divulgadas da zona mostram edifícios desmoronados, veículos enterrados na lama e pontes arrancadas de suas bases.
Os danos também se estenderam ao lado tibetano. O deslizamento de lama alcançou o porto terrestre de Gyirong e cortou estradas, comunicações e fornecimento elétrico nesta zona fronteiriça da China.
A Polícia nepalense informou de pelo menos 95 cadáveres recuperados, embora o balanço continue aberto. O Ministério do Turismo cifra em 341 os viajantes estrangeiros que seguem sem localizar, enquanto dezenas de cidadãos nepalenses permanecem também desaparecidos. Entre eles, pelo menos dois cidadãos espanhóis figuravam entre as pessoas desaparecidas, embora ainda não se conheça sua identidade.
Muitos dos viajantes se dirigiam ao monte Kailash e ao lago Mansarovar, lugares sagrados para hindus, budistas e jainistas.
Como ocorreu a cheia
Uma inundação repentina desse tipo pode começar sem que esteja chovendo intensamente no local onde aparece a cheia. A água procede de uma zona situada rio acima e chega ao vale de forma súbita. A hipótese manejada pelas autoridades nepalenses descreve a seguinte sequência:
- Uma massa de gelo, neve e rochas se desprendeu em uma zona de alta montanha.
- O material caiu sobre o rio Lhende Khola e obstruiu temporariamente seu leito.
- A água continuou acumulando-se atrás do bloqueio até formar uma represa natural.
- A pressão terminou rompendo ou transbordando essa barreira.
- A água acumulada desceu pelo vale acompanhada de lama, rochas e entulhos.
Esse fenômeno explica a aparição de uma parede de água e sedimentos capaz de arrastar edifícios, veículos e pontes. Não se tratou unicamente de um aumento progressivo do nível do rio, mas de uma descarga súbita e concentrada de água procedente da montanha.
As imagens de satélite analisadas pela Autoridade Nacional para a Redução e Gestão do Risco de Desastres do Nepal mostram um desprendimento de gelo e rochas aproximadamente 20 quilômetros ao nordeste do passo fronteiriço de Rasuwagadhi. O material teria caído sobre o Lhende Khola antes que a cheia avançasse em direção ao Bhote Koshi.
O terremoto que possivelmente provocou a avalanche
O Centro Alemão de Pesquisa de Geociências registrou um terremoto de magnitude 4,4 perto da fronteira com o Tibete poucos minutos antes que as câmeras começassem a gravar a enxurrada. O ministro de Assuntos Estrangeiros do Nepal, Shishir Khanal, levantou que o sismo pode ter provocado o desprendimento que bloqueou o rio. A coincidência temporal respalda essa possibilidade, mas ainda não demonstra uma relação direta.
Os pesquisadores devem determinar se o terremoto desestabilizou a encosta, se a massa de gelo e rochas já estava prestes a desprender-se ou se intervieram outros fatores. A conexão entre o sismo e a avalanche continua sendo uma hipótese, não uma conclusão definitiva.