Espanha e a educação global: uma aliança estratégica em tempos de incerteza

Laura Frigenti, CEO do Global Partnership for Education (GPE), e Victoria Tur, nova diretora da AECID, analisam no DEMÓCRATA por que não pode haver desenvolvimento sustentável sem sistemas educativos fortes, inclusivos e capazes de chegar a quem mais precisa.

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Por Laura Frigenti & Victoria Tur

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Num momento marcado por guerras prolongadas, crises climáticas, deslocamentos forçados e uma pressão crescente sobre a cooperação internacional, poucas decisões são tão relevantes quanto sustentar o compromisso com a educação global. O recente anúncio de compromisso por parte da Espanha de 25 milhões de euros à campanha “Multiplica as Possibilidades” da Aliança Mundial pela Educação (GPE, pela sigla em inglês), que representa um aumento de 25% em relação ao seu anúncio de 2021, reflete uma convicção compartilhada: investir em educação é investir em desenvolvimento, estabilidade, igualdade e oportunidades.

Vivemos uma época de crises sobrepostas. As guerras interrompem a escolarização, os fenômenos climáticos extremos destroem escolas e deslocam comunidades, e as restrições econômicas limitam o investimento público em serviços básicos. Nesse contexto, a educação corre o risco de ser relegada. No entanto, precisamente em tempos de incerteza é quando mais necessário se torna protegê-la e reforçá-la.

A educação não é apenas um direito fundamental. É também uma ferramenta decisiva para construir sociedades mais estáveis, mais prósperas e mais resilientes. Onde crianças e jovens têm acesso a uma educação de qualidade, aumentam as oportunidades econômicas, melhora a saúde pública, fortalece a participação cidadã e reduzem-se as desigualdades. Investir em educação significa investir em paz, crescimento sustentável e instituições mais sólidas.

As guerras interrompem a escolarização, os fenômenos climáticos extremos destroem escolas e deslocam comunidades, e as restrições econômicas limitam o investimento público em serviços básicos

Desde a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID) e desde o GPE compartilhamos uma mesma certeza: não pode haver desenvolvimento sustentável sem sistemas educativos fortes, inclusivos e capazes de chegar a quem mais precisa. Esta é a base de uma aliança que combina o compromisso político e financeiro da Espanha com a experiência multilateral do GPE no acompanhamento aos países parceiros para transformar seus sistemas educativos.

O compromisso por parte da Espanha chega em um momento chave para o financiamento internacional ao desenvolvimento. As necessidades crescem e os recursos estão sob pressão. Em um cenário em que muitos países revisam suas prioridades orçamentárias, sustentar a educação exige liderança, visão a longo prazo e responsabilidade compartilhada. Também exige reconhecer que alguns investimentos não produzem retornos imediatos, mas sim transformações profundas e duradouras.

Para a AECID, essa aposta se inscreve em uma trajetória de defesa do multilateralismo eficaz, dos bens públicos globais e de uma agenda de desenvolvimento centrada nas pessoas. Para o GPE, reforça um esforço coletivo orientado a apoiar os países na construção de sistemas educativos mais equitativos, inclusivos e resilientes. Ambas as perspectivas convergem em uma mesma prioridade: ampliar oportunidades educativas onde os desafios são maiores.

O GPE oferece um marco multilateral a partir do qual governos, organizações internacionais, sociedade civil, docentes e comunidades locais trabalham conjuntamente para fortalecer os sistemas educativos. O objetivo não é unicamente aumentar o acesso escolar, mas garantir que as crianças aprendam, permaneçam no sistema educativo e desenvolvam as capacidades necessárias para enfrentar os desafios do século XXI. Para conseguir isso, é necessário apoiar reformas estruturais, promover a formação docente, impulsionar a igualdade de gênero e acompanhar os países na construção de sistemas educativos capazes de responder a crises e desigualdades.

Os resultados desse esforço coletivo são tangíveis. Entre 2021 e 2025, as subvenções do GPE e a cofinanciamento de seus parceiros apoiaram 372 milhões de crianças com uma educação de maior qualidade, alcançando cerca da metade da população em idade escolar dos países parceiros. Esses avanços mostram que a cooperação internacional, quando se articula em torno de prioridades compartilhadas e sistemas nacionais sólidos, pode transformar vidas e ampliar oportunidades em grande escala.

A educação das meninas merece uma atenção especial. Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, 119 milhões de meninas continuam privadas de educação no mundo e milhões mais enfrentam barreiras que limitam seu acesso à escola e suas oportunidades de aprendizado. Quando uma menina recebe educação, aumentam suas possibilidades de acessar um emprego digno, melhora sua saúde e a de sua futura família, e se ampliam suas oportunidades de participação social e econômica. Uma menina cuja mãe sabe ler tem 50% mais chances de viver além dos cinco anos, estar vacinada e frequentar a escola. A educação das meninas não só transforma trajetórias individuais: multiplica oportunidades dentro das famílias, das comunidades e das economias.

A educação também desempenha um papel essencial na prevenção de conflitos e na reconstrução de comunidades afetadas pela violência. Em contextos frágeis, as escolas são espaços de proteção, estabilidade e esperança. Onde as instituições são fracas, podem se tornar um fator decisivo para fortalecer a coesão social e reduzir as tensões que alimentam a instabilidade. Garantir a continuidade educativa nesses contextos é também um investimento em paz, proteção e futuro.

A educação também desempenha um papel essencial na prevenção de conflitos e na reconstrução de comunidades afetadas pela violência

A participação da Espanha no GPE permite ao nosso país participar de uma forma inovadora de enfrentar o desafio que representa o ODS4 no âmbito da Agenda 2030. Esta aliança reflete uma compreensão compartilhada da interação global. Os desafios que afetam uma região acabam tendo consequências para toda a humanidade. A estabilidade, a prosperidade e a segurança são bens comuns que requerem esforços comuns. Por isso, reforçar o financiamento da educação não deve ser entendido apenas como uma contribuição econômica, mas como uma aposta estratégica por uma ordem internacional baseada na cooperação, na solidariedade e nas oportunidades.

Em tempos de incerteza, poucas decisões têm um alcance tão duradouro quanto garantir que cada menino e cada menina, nasça onde nascer, possa aprender, crescer e construir seu próprio futuro. Essa é a responsabilidade que compartilhamos: defender a educação como direito, como investimento estratégico e como base indispensável para um mundo mais justo, mais estável e mais resiliente.

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