Estas são as principais conclusões do relatório de Ceuta: "guiado ativo" marroquino, um plano para colapsar a fronteira e um alerta sobre o CNI

As conclusões do documento ao qual teve acesso DEMÓCRATA descartam que a entrada massiva fosse espontânea, identificam um planejamento prévio e descrevem uma tática destinada a saturar primeiro o sistema fronteiriço e reduzir depois a capacidade de resposta da Espanha.

7 minutos

fotonoticia 20260902184619 1920

fotonoticia 20260902184619 1920

Adicione DEMOCRAT no Google

Pergunte à FREN

Publicado

Última atualização

7 minutos

Mais lido

DEMÓCRATA teve acesso ao relatório e coloca a lupa sobre as três páginas de conclusões do relatório elaborado pelo Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF) sobre a entrada massiva registrada em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho. O documento, enviado à magistrada da Audiência Nacional María Tardón, desenha um episódio muito diferente do de uma crise migratória convencional.

A análise policial sustenta que não se tratou de um acontecimento incidental, ocasional ou espontâneo. As conclusões descrevem um processo dividido em várias fases, preparado com antecedência e executado por meio de uma combinação de mensagens virais, movimentos coordenados, facilitação de rotas e uma atuação em campo que incluiu, segundo o relatório, o "guiado ativo" de pessoas por parte das Forças e Corpos de Segurança de Marrocos.

O relatório não identifica expressamente a pessoa ou autoridade que teria desenhado a operação. Também não estabelece uma cadeia de comando política. Conclui, no entanto, que existiram uma "autoria intelectual anterior" e outra "material simultânea", e que a especialização observada estava fora do alcance das organizações criminosas conhecidas pela Polícia espanhola na área.

Estas são as principais conclusões do relatório de Ceuta consultado por Demócrata.

Não foi um episódio incidental nem espontâneo

A primeira conclusão do CENIF é que a entrada massiva deve ser analisada como um processo completo, com uma fase anterior, outra simultânea aos fatos e uma terceira posterior cujos efeitos ainda permanecem.

"Não se trata de algo incidental cuja geração possa ser associada a um fator ocasional ou espontâneo", aponta o documento ao qual teve acesso Demócrata.

Os investigadores comparam o que aconteceu com outros episódios registrados em Ceuta durante 2021 e 2024. A experiência obtida naqueles acontecimentos teria permitido aperfeiçoar o procedimento e dotar a operação de 2026 de uma maior complexidade.

O local escolhido, as zonas concretas de acesso, as horas em que foram ativadas as distintas fases e os perfis das pessoas que participaram são considerados pela Polícia elementos que, ao ocorrerem de maneira concertada, revelam a existência de um planejamento prévio.

A finalidade migratória foi uma "cobertura formal"

Uma das conclusões centrais do relatório é que o objetivo real não teria sido exclusivamente migratório. O documento sustenta que a migração funcionou como uma "cobertura formal" utilizada para impulsionar, dirigir e concentrar um fluxo massivo de pessoas sobre a fronteira de Ceuta.

Os investigadores destacam que apenas cerca de 10% das pessoas que entraram irregularmente permanecia em território espanhol. A imensa maioria retornou posteriormente ao Marrocos, uma circunstância que, para o CENIF, questiona que o propósito principal fosse estabelecer-se na Espanha.

O relatório também menciona uma segunda convocatória divulgada para o dia 15 de agosto. Segundo suas conclusões, aquela chamada foi controlada completamente pela estrutura de segurança marroquina, ao contrário do que aconteceu durante as mais de 48 horas em que ocorreu a entrada massiva no final de julho.

O documento acrescenta que as mensagens aparecidas depois, incluindo algumas divulgadas "a nível oficial", incorporaram argumentos relacionados com as reivindicações territoriais marroquinas e com o questionamento da soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla.

Planejamento prévio e uma autoria intelectual

As conclusões do relatório ao qual teve acesso o DEMÓCRATA sustentam que o desenvolvimento dos fatos exigiu um planejamento anterior. Essa preparação leva os investigadores a falar de dois níveis de autoria: uma "intelectual", anterior aos acontecimentos, e outra "material", encarregada de realizar tarefas simultâneas de acompanhamento e controle.

Segundo o CENIF, essas funções iriam muito além da atuação das pessoas que cruzaram irregularmente a fronteira.

A escolha de Ceuta como centro de gravidade, a determinação dos pontos de acesso, a coincidência das faixas horárias e a modificação progressiva dos perfis empregados revelariam que o movimento não ocorreu de forma desordenada.

O relatório não nomeia essa autoria intelectual nem atribui formalmente o planejamento ao Governo do Marrocos. Apresenta sim uma sucessão de elementos que, na opinião dos investigadores, não podem ser explicados por meio de uma soma de decisões individuais e espontâneas.

Uma direção estratégica em redes e sistemas de mensageria

O relatório detecta também uma "direção estratégica e operacional" desenvolvida por meio de procedimentos definidos para cada fase do processo.

Entre os instrumentos utilizados aparecem a difusão e viralização de mensagens, a ativação e desativação de perfis em redes sociais e o emprego de sistemas de mensageria. A isso teria se somado uma estratégia de desinformação construída em torno de assuntos reais, como as resoluções judiciais sobre as devoluções, a regularização extraordinária ou a suposta ausência de vigilância fronteiriça.

O objetivo teria sido revestir as convocações de credibilidade e mobilizar milhares de pessoas para um lugar e horários concretos.

Para os investigadores, essa combinação de propaganda, desinformação, logística e controle sobre o terreno demonstra que se tratou de um "processo predefinido com objetivos diferentes dos migratórios".

O "guiado ativo" das forças marroquinas

O ponto mais comprometedor para Marrocos aparece quando o relatório analisa o que aconteceu do outro lado da fronteira.

O CENIF menciona a facilitação generalizada de rotas e deslocamentos para reunir as pessoas em pontos concretos e a horas determinadas. Também aponta uma "gestão favorecedora" que teria funcionado tanto durante a entrada em Ceuta quanto durante o retorno posterior ao território marroquino.

Essa gestão teria se manifestado de duas maneiras: mediante a escassa presença das Forças e Corpos de Segurança de Marrocos e mediante o "guiado ativo" da massa em direção aos locais de passagem por parte desses mesmos efetivos.

O relatório ao qual teve acesso o DEMÓCRATA não diz expressamente que as autoridades marroquinas planejaram ou executaram toda a operação. Sim atribui a suas forças de segurança comportamentos concretos que teriam facilitado os movimentos em direção à fronteira espanhola.

Uma capacidade fora do alcance das máfias

A Polícia descarta que uma organização criminosa dedicada ao tráfico de pessoas pudesse dispor por si só dos recursos necessários para desenvolver uma ação dessas características.

As tarefas de especialização, coordenação, logística, comunicação e controle observadas durante o processo não estariam, segundo as conclusões, ao alcance de nenhuma estrutura criminosa conhecida pelas autoridades espanholas na área.

O documento considera que as pequenas redes que operam habitualmente em Marrocos carecem de capacidade para mobilizar milhares de pessoas, controlar os tempos de execução, modificar os perfis dos participantes e coordenar simultaneamente os movimentos de entrada e saída.

Esta conclusão não permite identificar automaticamente um responsável estatal, mas desloca a investigação além da hipótese das máfias de imigração.

A tática: colapsar primeiro e neutralizar depois

As conclusões descrevem uma operação tática desenvolvida em dois grandes momentos.

Na primeira fase, o objetivo teria sido provocar o colapso do sistema de gestão fronteiriça em um ponto concreto. Para conseguir isso, teria sido obrigado a Espanha a desviar efetivos para os resgates marítimos, saturar os sistemas de acolhimento e contenção e retirar recursos destinados habitualmente a vigiar outros trechos da fronteira.

Uma vez alcançado esse nível de saturação e produzida a "abertura de portas", teria começado a segunda fase: "eliminar a capacidade de resposta por parte da Espanha".

O relatório destaca que os perfis foram mudando progressivamente. Aos participantes das primeiras ondas se somaram posteriormente famílias, mulheres e menores. A presença desses coletivos teria limitado ou anulado as possibilidades de atuação dos dispositivos espanhóis de controle fronteiriço.

Pessoas no terreno para controlar a operação

O CENIF considera que uma mobilização dessa magnitude precisava de mecanismos de supervisão no terreno.

O relatório identifica indivíduos cujo comportamento, atitude e atuação eram diferentes dos das pessoas que entravam e saíam irregularmente de Ceuta. Sua presença seria compatível, segundo os investigadores, com funções de organização, coordenação e acompanhamento das distintas fases.

O documento não revela em suas conclusões a identidade dessas pessoas nem concretiza a que estrutura pertenciam. Sim, sustenta que o processo precisou de um nível de monitoramento direto para verificar sua evolução e adaptar os movimentos à resposta espanhola.

Desestabilização interna e deterioração da imagem da Espanha

A Polícia enumera consequências que vão muito além da pressão migratória.

No plano institucional, o episódio provocou a saturação das capacidades de prevenção, contenção, assistência e resposta, além de um importante impacto econômico e organizativo.

Na sociedade civil, o relatório menciona limitações no exercício de direitos, agitação sociopolítica, difusão de desinformação, deterioração da confiança nas instituições, problemas de segurança cidadã e pressão sobre o sistema de saúde.

No âmbito internacional, a crise teria contribuído para deteriorar a imagem da Espanha e projetar dúvidas sobre sua capacidade de controlar e proteger suas próprias fronteiras.

O CENIF também aprecia uma "evidente desestabilização política interna" e falhas de coordenação e integração entre as estruturas estatais encarregadas de responder à crise.

A alerta sobre o CNI: uma operação de contrainteligência "de manual"

A última conclusão introduz um aviso especialmente grave sobre o Centro Nacional de Inteligência.

O documento aponta que um dos efeitos do episódio foi o questionamento público da capacidade do CNI para antecipar e detectar o que ocorreu. A escalada dessa polêmica é qualificada pelos investigadores como uma "ação de contrainteligência ofensiva de manual".

O matiz é relevante: o relatório não afirma em suas conclusões que toda a entrada massiva fosse diretamente uma operação de contrainteligência nem atribui expressamente essa atuação a Marrocos. O que identifica como tal é a utilização posterior da crise para erosionar a credibilidade do serviço de inteligência espanhol.

As três páginas de conclusões desenham, em definitiva, uma operação planejada, executada em fases e orientada a sobrecarregar a capacidade de resposta espanhola. O documento não identifica formalmente seu autor intelectual, mas descarta a espontaneidade, afasta a responsabilidade das máfias e aponta atuações concretas das forças de segurança marroquinas, incluindo o "guiado ativo" de pessoas em direção aos pontos de entrada.

Bonjour, je m'appelle Fren. Comment puis-je vous aider ?