A fatura elétrica das residências prevê um aumento superior a 20% em agosto em comparação com o mesmo mês do ano anterior, impulsionado por preços da eletricidade disparados pelo aumento da demanda durante as ondas de calor e por um gás natural em clara tendência de alta.
Em concreto, o recibo de luz de um consumidor médio aderido à tarifa regulada --o denominado PVPC-- aumentou mais de 22% até agora no mês em relação a 2025. Nos 21 primeiros dias de agosto, a fatura está em 61,33 euros, em comparação com os 50 euros que representou no mesmo período do exercício anterior.
Assim, no que já transcorreu de agosto, o usuário paga já mais de 11 euros adicionais em comparação com o mesmo período de agosto de 2025.
Se comparado com o mesmo período de julho, quando o recibo já havia subido com força, o aumento acumulado em agosto supera 8%, o que representa cerca de 4,6 euros a mais.
Essa evolução de preços foi calculada para um perfil de consumidor médio com uma potência contratada de 4,4 quilowatts (kW) e um consumo anual de 3.900 quilowatts-hora (kWh), distribuído entre os diferentes períodos horários (pico, plano e vale).
Para a simulação do custo, foi tomado como referência um consumo de 30% em hora de pico, 20% em período plano e os 50% restantes em horário de vale.
Do valor total estimado da fatura até agora no mês, 7,6 euros correspondem à tarifa fixa e 39,63 euros à tarifa de energia. Além disso, 2,44 euros devem-se ao imposto elétrico e o IVA e figuras equivalentes somam 10,64 euros, segundo os dados do comparador da Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência (CNMC) consultados pela Europa Press.
Até junho, houve um certo alívio no custo da eletricidade graças às medidas do decreto real aprovado em março para mitigar o impacto da guerra no Oriente Médio. No entanto, desde 1º de junho, deixou de ser aplicada a redução do IVA para 10% na fatura elétrica, retornando à alíquota geral de 21% após a moderação que vinha sendo refletida no Índice de Preços ao Consumidor (IPC).
No segundo decreto real aprovado no final de junho em resposta à crise derivada do Oriente Médio, foi incluída, no entanto, uma trajetória de redução progressiva até a eliminação total do Imposto sobre o Valor da Produção de Energia Elétrica (IVPEE), que passa de 7% para 5% em 2026, para 3,5% em 2027 e para 0% em 2028.
Da mesma forma, diante de uma possível evolução adversa dos preços da eletricidade e do gás, foi estabelecido um mecanismo de salvaguarda que permite reativar determinadas medidas se a situação o exigir. Essas ações afetam tanto o Imposto Especial sobre a Eletricidade quanto o IVA que incide sobre os produtos energéticos.
Sistema de salvaguarda para reduzir novamente o IVA para 10%
Dessa forma, se se constatar um encarecimento superior a 15%, as medidas aprovadas em março seriam novamente colocadas em prática. Ou seja, no caso do IVA da eletricidade, do gás natural, dos pellets e da lenha, a taxa seria reduzida novamente de 21 para 10%. Por sua vez, o Imposto Especial sobre a Eletricidade cairia novamente de 5,1% para 0,5%.
O aumento previsto em agosto na fatura elétrica está intimamente ligado ao forte aumento do preço da luz neste mês, impulsionado pelo aumento da demanda devido às altas temperaturas e por um gás que pressiona cada vez mais para cima.
Apesar da elevada contribuição da geração solar, nas faixas em que essa tecnologia não está disponível, os ciclos combinados ganham protagonismo para atender o consumo, transferindo assim o custo do gás para o preço do 'pool', ao qual se soma o efeito do CO2, indicaram à Europa Press fontes do setor.
Em concreto, o preço do gás natural, condicionado pela incerteza sobre as rotas de fornecimento no Oriente Médio, o nível de reservas europeias antes do inverno e a demanda elétrica do verão, não deixou de subir em agosto, situando sua cotação no mercado Mibgas espanhol acima de 65 euros por megawatt-hora (MWh).
Um 'pool' acima de 120 euros/MWh e seu impacto no PVPC
Com esse contexto, o preço do mercado atacadista da eletricidade, o chamado 'pool', marca uma média diária nos 23 primeiros dias de agosto de mais de 124 euros/MWh, apontando para sua cota mais elevada desde fevereiro de 2023.
Nesse período, o 'pool' manteve-se todos os dias com preços médios superiores a 100 euros/MWh, exceto em dois dias. Além disso, ocorreram situações em que em um mesmo dia são registrados mínimos próximos a zero euros, ou até mesmo preços negativos, nas horas centrais com maior produção solar, e máximos próximos a 200 euros/MWh durante a noite.
O preço atacadista é fixado por meio de um leilão no qual um algoritmo cruza as ofertas de venda das empresas geradoras com as ordens de compra, ordenando-as de menor a maior preço, e o valor final é dado pela oferta mais cara aceita. Isso provoca fortes variações em função de se, pela demanda prevista, em cada momento entram em jogo tecnologias que utilizam combustíveis fósseis --como o gás natural--, mais caras, ou fontes renováveis, mais baratas.
Ao preço do mercado atacadista, é preciso adicionar os custos regulados que o consumidor assume por tarifas, encargos e ajustes do sistema elétrico.
Além disso, o 'pool' já não determina de forma exata o preço final da luz para os usuários com tarifa regulada, uma vez que desde 2024 vigora um novo método de cálculo do PVPC que incorpora uma cesta de preços a médio e longo prazo para amortecer a volatilidade, mantendo ao mesmo tempo sinais de curto prazo que incentivem a economia e o consumo eficiente.
Assim, a vinculação direta com o preço do 'pool' tem sido reduzida de maneira gradual nos últimos anos para dar mais peso às referências dos mercados de futuros, de forma que, desde 2026, essas referências a prazo representam já 55%.
Esses aumentos do mercado atacadista repercutem sobretudo nos lares acolhidos ao PVPC, em torno de oito milhões, uma vez que a transferência é praticamente imediata, enquanto para aqueles que estão no mercado livre o custo depende das condições acordadas com sua comercializadora.