Trump, Groenlândia e o bacalhau: a Islândia bate à porta da Europa

Há países que parecem pequenos até que se olha o mapa. A Islândia é um deles.

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Pouco mais de 400.000 habitantes, sem exército próprio e perdida no meio do Atlântico Norte. Mas situada precisamente onde o Atlântico se encontra com o Ártico, entre a Groenlândia, Europa e América do Norte. Um lugar que durante muito tempo pareceu remoto e que hoje começa a parecer demasiado estratégico para continuar sendo remoto.

Este sábado, 29 de agosto, os islandeses irão às urnas para decidir se querem retomar as negociações de adesão à União Europeia congeladas há 11 anos. Não decidirão ainda se querem entrar na União. Essa decisão, se algum dia chegar, teria que ser submetida a um segundo referendo. O que votarão agora é algo aparentemente mais modesto: se vale a pena voltar a sentar-se com Bruxelas para averiguá-lo.

Mas por trás de uma pergunta aparentemente técnica há outra muito mais interessante: pode um pequeno país europeu conservar melhor sua soberania estando sozinho ou fazendo parte de uma estrutura política maior? E, no caso da Islândia, essa pergunta adquiriu uma nova dimensão desde que Donald Trump tornou a Groenlândia uma questão estratégica americana.

A Islândia já está integrada na Europa, mas não decide suas regras

A Islândia não é, nem de longe, um país alheio à Europa. Está integrada no Espaço Econômico Europeu e, portanto, participa no mercado único; faz parte ainda do espaço Schengen. Seus cidadãos desfrutam de boa parte das vantagens econômicas e de mobilidade da União sem pertencer politicamente a ela. É uma situação bastante confortável. E precisamente por isso resulta difícil entender à primeira vista por que gostaria de complicá-la.

A resposta dos partidários da adesão é simples: estar dentro do mercado único não significa estar sentado à mesa onde são tomadas as decisões que afetam esse mercado. A Islândia aplica boa parte das regras europeias sem ter representantes com voto nas instituições da União. Em um mundo relativamente estável, isso poderia parecer um inconveniente aceitável. Mas o mundo deixou de ser assim. A Rússia trouxe a guerra de volta ao continente europeu. O Ártico está se tornando um cenário de competição entre grandes potências. A China busca ampliar sua presença no norte. E os Estados Unidos colocaram a Groenlândia no centro de sua política estratégica.

"Estar dentro do mercado único não significa estar sentado à mesa onde são tomadas as decisões que afetam esse mercado"

Durante muito tempo, a Islândia foi uma periferia europeia. Mas o derretimento e a crescente importância do Ártico podem transformar essa periferia em uma dobradiça entre a Europa, a América e as novas rotas do norte.

Para a Islândia, a Groenlândia não é um ponto perdido em um mapa. Está do outro lado do estreito. A Islândia está além disso sobre o chamado "GIUK Gap" (Groenlândia, Islândia, Reino Unido), uma zona fundamental do Atlântico Norte para as comunicações marítimas e a vigilância militar. E sua posição estratégica explica uma das peculiaridades mais chamativas do país: A Islândia pertence à OTAN, mas não tem exército permanente. Sua defesa depende essencialmente da Aliança e de sua relação com os Estados Unidos.

Durante décadas isso não pareceu levantar um problema. Agora começa a levantá-lo. As declarações de Trump sobre a Groenlândia obrigaram os islandeses a se fazer uma pergunta que até pouco tempo atrás mal fazia parte do debate: os Estados Unidos continuarão sendo um parceiro tão previsível como foram até agora?

Não significa que a Islândia queira substituir os Estados Unidos pela Europa. Nem que considere dispensável a OTAN. Significa algo mais elemental: que um país pequeno começa a se perguntar se, em um mundo cada vez mais dominado por grandes potências, é conveniente ter mais de uma carta na mão. E aí aparece a Europa.

O bacalhau, a grande fronteira da soberania islandesa

Seria, no entanto, um erro transformar o referendo islandês em uma consequência de Trump e da Groenlândia. A questão fundamental continua sendo em casa: no mar que rodeia a ilha.

Para entender a Islândia é preciso entender o bacalhau. Durante os anos cinquenta, sessenta e setenta, a Islândia enfrentou o Reino Unido nas chamadas Guerras do Bacalhau para ampliar o controle de suas águas pesqueiras. As pequenas embarcações da guarda costeira islandesa chegaram a enfrentar os grandes navios da Royal Navy. A Islândia venceu. E aquela vitória não ficou nos livros de história como uma disputa comercial a mais. O controle das águas passou a fazer parte da própria ideia de soberania nacional. Meio século depois continua sendo assim.

Por isso o principal argumento contra a adesão não tem a ver com Bruxelas, nem com o euro, nem mesmo com Trump. Tem a ver com quem decide quanto peixe a Islândia pode pescar em suas próprias águas.

A pesca continua sendo uma indústria fundamental para a economia islandesa e, sobretudo, para muitas comunidades costeiras. Os partidários do "não" temem que a Política Pesqueira Comum europeia limite a capacidade de Reykjavik de decidir sobre seus próprios recursos. Para boa parte da indústria pesqueira, a questão não é simplesmente quanto peixe é capturado, mas quem tem o direito de decidir quem o captura.

Há algo quase paradoxal em tudo isso. A Islândia está disposta a negociar com a Europa quase tudo. O que não parece disposta a negociar facilmente é o bacalhau. E resulta compreensível, para um país que construiu boa parte de sua soberania moderna sobre o controle de suas águas, entregar competências sobre a pesca não é uma questão técnica. É uma questão de identidade.

"A Islândia está disposta a negociar com a Europa quase tudo. O que não parece disposta a negociar facilmente é o bacalhau"

Os partidários de retomar as negociações veem as coisas de outra maneira. A Islândia já está profundamente integrada na Europa. Portanto, argumentam, a questão não consiste em passar de estar fora para estar dentro, mas em completar uma integração que em muitos aspectos já existe. Adicionam um argumento econômico importante. A coroa islandesa é uma moeda pequena e vulnerável, e a economia tem sofrido problemas de inflação e elevado custo de vida. A eventual adoção do euro poderia oferecer maior estabilidade monetária e eliminar o risco cambial com boa parte de seus principais parceiros.

Mas talvez o argumento mais importante seja outro: "ter voz." A Islândia participa hoje do mercado único, mas não nas instituições políticas que decidem boa parte de suas regras. A adesão significaria aceitar novas concessões de soberania, sim, mas também adquirir capacidade para participar diretamente nas decisões europeias.

E aqui aparece a grande paradoxo do referendo. Os islandeses devem decidir se a soberania consiste em conservar todas as competências nacionais ou em compartilhar algumas delas para adquirir maior capacidade de influência e proteção em um mundo dominado cada vez mais por grandes potências. Não há uma resposta simples.

As pesquisas também não oferecem uma resposta. O último levantamento da Gallup coloca os islandeses praticamente empatados em relação à retomada das negociações: 46% votaria sim e 46% não, enquanto 8% permanece indeciso. Mas há um dado ainda mais revelador: não é a mesma coisa querer reabrir as negociações do que querer entrar na União Europeia.

Os levantamentos mostram que o apoio à retomada das conversas pode ser maior do que o apoio à adesão definitiva. Ou seja, muitos islandeses parecem estar dizendo: "Negociemos primeiro. Já decidiremos depois." E talvez essa seja a postura mais sensata diante de uma decisão dessa magnitude. Porque votar sim no sábado não significa entregar a pesca a Bruxelas, adotar o euro ou transformar a Islândia em membro da União. Significa abrir uma negociação na qual a Islândia terá que defender seus interesses. Se finalmente houver acordo, os islandeses voltariam a ter a última palavra em outro referendo. A porta se abre no sábado, mas ninguém é obrigado a cruzá-la.

O que a Europa está jogando na Islândia

Do ponto de vista europeu, o resultado também importa. A Islândia seria um país pequeno em população, mas grande em geopolítica. Sua incorporação reforçaria a presença da União no Atlântico Norte e no Ártico e adicionaria à União um país democrático, próspero e já profundamente integrado no mercado único. A Europa tem uma política para o Ártico; com a Islândia dentro, também teria um pé nele.

Bruxelas contempla ainda o referendo com interesse porque um resultado favorável poderia dar impulso político à sua política de ampliação enfraquecida.

Mas seria um erro pensar que a Europa pode se limitar a oferecer à Islândia um mercado que já tem. Se quer que a Islândia entre na União, terá que oferecer algo mais: uma comunidade política capaz de proporcionar influência, segurança e capacidade de resistência em um mundo cada vez mais dominado pelas grandes potências. E também proteção de infraestruturas estratégicas que um país tão pequeno dificilmente pode garantir por si só, desde as rotas marítimas até os cabos submarinos que conectam a ilha ao exterior.

A paradoxa é que a Islândia pode precisar da Europa, mas a Europa também pode precisar da Islândia. E aqui a questão deixa de ser islandesa. Porque a pergunta que se coloca à Islândia é também a pergunta que deveria ser feita à Europa.

"A paradoxa é que a Islândia pode precisar da Europa, mas a Europa também pode precisar da Islândia"

Durante anos falamos de autonomia estratégica enquanto continuávamos dependendo de outros para nossa defesa, nossa energia, determinadas tecnologias e boa parte de nossa segurança. Construímos um enorme mercado, mas nem sempre soubemos convertê-lo em poder político. Agora um pequeno país de 400.000 habitantes nos coloca diante do espelho.

A Islândia pode continuar fora da União e manter seu atual equilíbrio: segurança fundamentalmente proporcionada pela OTAN e Estados Unidos, integração econômica com a Europa e plena soberania nacional em questões como a pesca. Ou pode tentar dar um passo a mais e se tornar membro de uma Europa que, precisamente quando o Ártico se torna um dos cenários da nova competição geopolítica, precisa demonstrar que também sabe proteger seus interesses.

Trump queria transformar a Groenlândia em uma peça do tabuleiro americano. Talvez, involuntariamente, tenha contribuído para que a Islândia olhe com outros olhos para a Europa.

Mas essa não é a única lição. A verdadeira questão que os islandeses estão colocando sobre a mesa é muito mais ampla: o que significa ser soberano quando se é pequeno e o mundo volta a ser dominado por grandes potências?

Durante muito tempo, a resposta islandesa foi simples: controlar nossas águas, manter nossa independência e confiar nos Estados Unidos para nossa segurança. Agora o mundo mudou. E uma pequena ilha situada entre a Groenlândia, Europa e América tem que decidir se, para continuar sendo dona de seu destino, é conveniente estar sozinha ou compartilhar parte de sua soberania com aqueles que podem ajudá-la a defendê-la.

A Islândia não está decidindo somente se quer entrar na Europa. Está tentando descobrir onde quer estar no novo mapa do poder. E talvez essa seja a verdadeira pergunta que os islandeses responderão neste sábado.

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