Marrocos reivindica seu "direito histórico" sobre Ceuta e Melilla e propõe uma comissão para negociar seu futuro

O ministro da Justiça marroquino reivindica um "direito histórico e geográfico" sobre as duas cidades autônomas e propõe criar uma comissão bilateral para abordar sua situação.

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Marrocos voltou a colocar a soberania de Ceuta e Melilla no centro de sua relação com a Espanha em plena crise migratória. O ministro da Justiça marroquino, Abdellatif Ouahbi, reivindicou nesta sexta-feira o que considera um "direito histórico e geográfico" de Rabat sobre as duas cidades autônomas e propôs abrir um mecanismo de diálogo com Madri para discutir seu futuro.

Ouahbi defendeu em uma entrevista ao canal público marroquino 2M a criação de uma "comissão de diálogo" com a Espanha e reclamou uma "solução definitiva" que desembocasse no "retorno ao seio da pátria" de Ceuta e Melilla.

As declarações chegam apenas três semanas após a entrada massiva de migrantes em Ceuta e enquanto Madri e Rabat mantêm contatos para gerenciar os retornos e o controle fronteiriço. O Governo espanhol, apesar de destacar durante esta crise a cooperação com Marrocos, reafirmou expressamente nos últimos dias a soberania e a integridade territorial da Espanha.

Ouahbi propõe uma comissão com a Espanha

O ministro marroquino sustenta que a questão de Ceuta e Melilla deve ser mantida dentro da agenda bilateral e que Rabat não renunciará à sua reivindicação.

A novidade de suas declarações está na proposta concreta de criar um instrumento de negociação. Ouahbi propõe estabelecer uma comissão bilateral que permita discutir o futuro de ambas as cidades, uma questão sobre a qual considera que Marrocos não deve guardar silêncio.

Não consta, por enquanto, que a Espanha tenha aceitado abrir uma negociação sobre a soberania de Ceuta e Melilla nem que exista uma comissão bilateral com esse mandato.

A reivindicação marroquina também não é nova. Rabat mantém suas aspirações sobre ambas as cidades desde sua independência em 1956 e o rei Hasán II chegou a propor à Espanha a criação de uma "célula de reflexão" para abordar a questão. Madri não aceitou aquele planteamento.

Espanha acaba de reafirmar sua soberania sobre as duas cidades

A posição expressa por Ouahbi choca com a mantida publicamente pelo Governo espanhol durante a atual crise.

O ministro das Relações Exteriores, José Manuel Albares, visitou Ceuta no dia 11 de agosto passado e transmitiu o compromisso do Executivo com a soberania e a integridade territorial da Espanha, segundo a comunicação oficial do Ministério das Relações Exteriores.

A ministra da Defesa, Margarita Robles, foi ainda mais explícita durante sua visita à cidade um dia depois. Defendeu que Ceuta e Melilla são uma parte essencial da Espanha e assegurou que qualquer agressão contra elas afetaria o conjunto do país.

O presidente ceutiano, Juan Vivas, já havia respondido a declarações anteriores de Ouahbi sobre as aspirações de Marrocos. Sua posição foi categórica: as reivindicações marroquinas, disse, "não têm fundamento" porque "Ceuta é Espanha".

A reivindicação chega em plena crise de Ceuta

O momento escolhido pelo ministro marroquino adiciona uma dimensão política às declarações.

Espanha e Marrocos mantêm desde o final de julho uma intensa interlocução após a entrada maciça de migrantes em Ceuta. O Executivo espanhol defendeu publicamente que Rabat está colaborando tanto para frear novas chegadas quanto para facilitar o retorno de cidadãos marroquinos que entraram irregularmente.

Sánchez celebrou durante agosto várias reuniões de coordenação com Exteriores, Interior, Defesa, Política Territorial, Migrações e Juventude e Infância para gerir a crise, reforçar a segurança e atender às pessoas que permanecem na cidade.

A cooperação fronteiriça convive agora com uma nova reivindicação pública sobre a soberania dos dois territórios.

Marrocos volta a reclamar também os menores

Ouahbi aproveitou a mesma entrevista para insistir em outra das questões que enfrenta atualmente ambos os países: o retorno dos menores marroquinos não acompanhados que permanecem em Ceuta.

O ministro reclamou que a Espanha os entregue a Marrocos e assegurou que as autoridades de seu país estão dispostas a recebê-los uma vez verificadas suas identidades.

Não seria, no entanto, uma devolução automática. Os menores estrangeiros não acompanhados estão sujeitos a um regime específico de proteção e qualquer retorno deve ser realizado conforme as garantias previstas na legislação espanhola, no direito europeu e no princípio do interesse superior do menor.

A situação continua sendo um dos principais problemas de gestão na cidade. O secretário de Estado de Juventude e Infância, Rubén Pérez Correa, cifrou esta sexta-feira em 1.400 os menores que estão pernoitando atualmente em recursos de Ceuta, além de outros que ainda poderiam permanecer fora do sistema de acolhimento.

Cooperação e soberania, dois planos distintos

O Governo espanhol defendeu até agora que a cooperação com Marrocos é necessária para controlar a fronteira e executar os retornos que a legislação permite. Albares insistiu durante a crise na vontade de Rabat de colaborar com a Espanha.

Essa cooperação não supôs nenhuma mudança pública na posição espanhola sobre Ceuta e Melilla.

As declarações de Ouahbi introduzem agora um pedido distinto: que Madrid aceite discutir bilateralmente o futuro das duas cidades autônomas. Até esta sexta-feira não consta que o Governo espanhol tenha aceitado abrir esse debate.

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