O relatório que aponta para Marrocos coloca Marlaska contra as cordas: pedidos de demissão generalizados

Podemos assegura que o ministro "não pode continuar nem um minuto mais" à frente do Interior, enquanto Sumar reclama explicações, responsabilidades e convocar com urgência a representante marroquina se se confirmar o documento policial sobre a entrada massiva em Ceuta

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A aparição de um relatório policial que aponta para uma possível intervenção de agentes marroquinos na entrada massiva de migrantes dos dias 30 e 31 de julho colocou Fernando Grande-Marlaska contra as cordas. O ministro do Interior assegura que desconhecia o documento, remetido à Audiência Nacional, e exigiu explicações ao diretor-geral da Polícia, Francisco Pardo.

A crise já abriu uma fratura dentro do bloco que sustenta o Governo. Podemos exige diretamente a demissão de Marlaska, Sumar reclama a depuração de responsabilidades e convocar a embaixadora de Marrocos se se creditar o conteúdo do relatório e a Izquierda Unida adverte que deverá demitir o ministro ou o máximo responsável da Polícia dependendo de quem conhecia a informação.

O documento também atinge a versão defendida até agora pelo Executivo, que havia descartado a participação de Marrocos, elogiado a colaboração de Rabat e atribuído o ocorrido às máfias, à desinformação e à atuação de organizações vinculadas à Rússia, Israel e à extrema direita internacional.

O que diz o relatório policial sobre Marrocos e Ceuta

O documento foi elaborado pelo Centro Nacional de Imigração e Fronteiras, a unidade de inteligência da Comissaria Geral de Estrangeiros e Fronteiras, e remetido esta semana à magistrada da Audiência Nacional María Tardón.

Segundo o conteúdo adiantado por El Español e confirmado por outros meios, o relatório sustenta que "a invasão de Ceuta foi guiada por gendarmes marroquinos sob as ordens de agentes à paisana com um fim distinto do migratório".

Os agentes teriam analisado as imagens e vídeos obtidos durante a entrada de cerca de 72.000 pessoas em Ceuta. Sua conclusão aponta que os migrantes foram dirigidos para transbordar os controles e colapsar o sistema fronteiriço espanhol.

O documento não constitui uma resolução judicial nem demonstra ainda que o Governo marroquino ordenou a operação. Trata-se de um relatório policial incorporado a umas diligências que se encontram em uma fase inicial e cujo conteúdo deverá ser comprovado.

Também não deve ser confundido este documento com os alertas anteriores à entrada massiva. O relatório conhecido agora analisa como se produziram os fatos, enquanto que outra questão pendente é determinar que informação tinham a Polícia, a Guarda Civil e os serviços de inteligência antes do dia 30 de julho.

## Marlaska assegura que desconhecia o documento

Marlaska enviou durante a madrugada uma carta ao diretor geral da Polícia para perguntar se o documento existe e desde quando o corpo dispunha dessa informação.

O ministro reclama conhecer, "se for verdade", quando chegaram esses dados à Polícia e exige uma resposta "o mais breve possível". O Interior considera que uma informação com possíveis consequências para a defesa do Estado e a segurança nacional deveria ter sido comunicada imediatamente ao ministro e ao Conselho de Segurança Nacional.

A reação confirma que Marlaska não conhecia, segundo sua própria versão, o conteúdo do documento que uma unidade dependente de seu Ministério havia remetido à Audiência Nacional.

Francisco Pardo convocou nesta quarta-feira o comissário geral de Estrangeiros e Fronteiras, Juan Ávila, superior dos agentes que elaboraram o relatório. Na reunião também participou o comissário geral de Informação, Juan Antonio Susín.

A explicação que sair deste encontro será determinante. Se a informação chegou ao topo policial e não foi transmitida ao ministro, a responsabilidade se concentrará sobre a Direção Geral da Polícia. Se o Interior conhecia o documento ou suas conclusões, ficará questionada a versão oferecida por Marlaska durante as últimas semanas.

## Podemos exige a demissão de Marlaska

Podemos endureceu sua posição depois de conhecer o relatório. Seu secretário de Organização e porta-voz, Pablo Fernández, sustenta que a implicação marroquina não representa nenhuma surpresa e pediu a saída imediata do ministro.

"É inquestionável que Marlaska não pode continuar nem um minuto mais à frente do Ministério do Interior", declarou Fernández.

O dirigente de Podemos qualifica o ocorrido em Ceuta como um ato de "guerra híbrida" e acusa o PSOE e Pedro Sánchez de se recusarem a apontar Marrocos apesar das suspeitas existentes.

Podemos já havia pedido a demissão de Marlaska no início da crise, mas o relatório policial agora traz um novo argumento: o ministro desconhecia informações elaboradas por uma unidade integrada na estrutura de seu próprio departamento e potencialmente relevantes para a segurança nacional.

## Sumar pede chamar a embaixadora de Marrocos

A pressão também chega do parceiro minoritário do Governo. A coordenadora geral do Movimento Sumar e porta-voz parlamentar, Verónica Martínez Barbero, pediu "clareza e transparência" e o acesso ao conteúdo completo do relatório.

Sumar considera grave que Marlaska não tivesse conhecimento da informação e pede para determinar por que o documento chegou à Audiência Nacional sem que fosse trasladado previamente ao responsável político do Interior.

"Se essas informações não foram transmitidas ao Ministério do Interior, é preciso depurar responsabilidades, porque é algo muito grave", advertiu Martínez Barbero.

A formação reclama ainda que o Ministério dos Negócios Estrangeiros convoque com urgência a embaixadora de Marrocos na Espanha, Karima Benyaich, para pedir explicações se se confirmar que forças de segurança marroquinas intervieram na mobilização.

O porta-voz adjunto de Sumar e deputado de Compromís Alberto Ibáñez solicitou ao Congresso tanto o relatório policial quanto a carta enviada por Marlaska ao diretor da Polícia.

Izquierda Unida propõe duas possíveis demissões

Izquierda Unida, formação integrada em Sumar e sócia do Governo, estabeleceu dois cenários. Seu coordenador federal, Antonio Maíllo, considera que Francisco Pardo deverá demitir-se se se comprovar que a Polícia ocultou a informação ao Ministério.

Se, pelo contrário, o Interior conhecia o relatório e não agiu nem o comunicou, Maíllo sustenta que Marlaska terá que assumir a responsabilidade política.

IU considera difícil que dezenas de milhares de pessoas pudessem deslocar-se para a fronteira sem conhecimento das autoridades marroquinas. A formação fala de uma possível deslealdade dentro das estruturas do Estado, embora subordine qualquer conclusão definitiva à verificação dos fatos.

Moncloa admite sua surpresa e Bolaños pede cautela

Fontes de La Moncloa reconhecem sua surpresa diante da possibilidade de que a Polícia dispusesse de evidências que não foram compartilhadas com o Governo. O Executivo considera que uma informação dessa gravidade poderia ter condicionado as decisões adotadas em matéria de segurança nacional e relações exteriores.

O ministro da Presidência, Félix Bolaños, pediu cautela enquanto se analisa o documento e se espera a resposta do diretor da Polícia. O Governo assegura que não ocultou informação e sustenta que conheceu a existência do relatório através dos meios de comunicação.

O vice-presidente Carlos Cuerpo também evitou pronunciar-se sobre suas conclusões até dispor do texto completo.

O relatório choca com a versão do Governo sobre Marrocos

A relevância política do documento aumenta porque contradiz, ao menos aparentemente, a posição defendida pelo Governo durante o último mês.

Marlaska havia assegurado que Marrocos não constituía uma ameaça para a Espanha e havia elogiado a colaboração das autoridades marroquinas para conter a entrada e facilitar as devoluções.

Pedro Sánchez manteve essa mesma posição durante sua entrevista de segunda-feira na Cadena SER. O presidente afirmou que não existiam evidências de uma implicação marroquina e descreveu a reação de Rabat como uma "cooperação instantânea, imediata".

Sánchez apontou, em contrapartida, para as máfias e para campanhas de desinformação relacionadas com a Rússia, Israel e organizações da extrema direita internacional.

O Governo terá agora que determinar se o relatório policial desmente seu relato, se contém informações parciais que precisam ser contextualizadas ou se ocorreu uma falha grave na cadeia de comunicação entre a Polícia, Interior e La Moncloa.

O PP, Jupol e García-Page elevam a pressão

O PP também reclamou a demissão de Marlaska. Seu secretário-geral, Miguel Tellado, acusa o ministro de ter negado durante semanas a existência de informações que apontavam para Marrocos e sustenta que não pode continuar à frente das Forças e Corpos de Segurança do Estado.

Jupol, sindicato majoritário da Polícia Nacional, reclama as demissões de Marlaska, Francisco Pardo e o delegado do Governo em Ceuta. A organização assegura que existiram alertas e comunicações anteriores à entrada massiva, uma afirmação que deverá ser confrontada com os documentos e as datas concretas.

A contestação chegou até mesmo do PSOE. O presidente de Castilla-La Mancha, Emiliano García-Page, advertiu que, se o conteúdo do relatório se confirmar, deverá ter "evidentes consequências em todos os âmbitos".

A Audiencia Nacional deve decidir se abre uma investigação

A magistrada María Tardón solicitou relatórios à Polícia e à Guarda Civil depois de receber uma denúncia de Iustitia Europa. A juíza pretende determinar se a entrada massiva foi espontânea ou respondeu a uma ação coordenada por uma organização criminosa, um Estado ou outro ator.

O documento do CENIF foi transferido para a Fiscalia para que se pronuncie sobre a competência da Audiência Nacional. Depois, a magistrada decidirá se existem indícios suficientes para abrir formalmente uma investigação e se o procedimento deve ser mantido na Audiência Nacional ou enviado a um tribunal de Ceuta.

A pressão sobre Marlaska dependerá agora de três respostas: desde quando a Polícia conhecia a possível intervenção de agentes marroquinos, por que o ministro não foi informado e que grau de respaldo têm as conclusões do CENIF.

O caso estoura ainda no Dia de Ceuta, coincidindo com concentrações convocadas em toda a Espanha e na véspera da comparecência de Pedro Sánchez no Congresso. O relatório converteu uma crise migratória e territorial em uma crise interna dentro do Governo e da própria estrutura do Ministério do Interior.

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