A Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (IARC, pela sigla em inglês), organismo dependente da Organização Mundial da Saúde (OMS), colocou o foco nas marcadas desigualdades entre regiões do planeta no diagnóstico e tratamento do câncer infantil, uma doença que em 2024 afetou mais de 275.000 menores e jovens de até 19 anos.
Coincidindo com o Mês de Conscientização sobre o Câncer Infantil, a IARC sublinhou que os números reais de novos casos poderiam ser "muito maiores" do que as últimas estimativas do GLOBOCAN. Este possível sub-registro é atribuído às dificuldades para detectar a doença e às carências no acesso à atenção à saúde, aos testes diagnósticos e aos registros oncológicos em numerosos países.
O organismo destacou que estudos recentes realizados por suas equipes e colaboradores evidenciam que as desigualdades no câncer infantil vão muito além da mera quantificação da carga da patologia. Assim, advertiu que a África, Ásia, América do Sul e o Caribe concentram cerca de 94 por cento dos falecimentos por câncer na infância, e que os menores dessas áreas têm quase o dobro do risco de morrer por essa causa do que os da Europa e América do Norte, apesar de que nessas últimas regiões se registram taxas de incidência mais elevadas.
Diante desse cenário, a IARC valorizou os projetos que está impulsionando para reduzir essas lacunas. Entre eles, destaca-se a iniciativa "Câncer Infantil: Epidemiologia, Pesquisa e Ômicas" (CICERO), que começou um trabalho de campo no Quênia, Malawi e Tanzânia com o objetivo de analisar em detalhe os atrasos no diagnóstico, o acesso aos serviços oncológicos, a adesão aos tratamentos e os resultados clínicos.
A agência também lembrou que os tumores que afetam crianças e adolescentes diferem em grande medida dos cânceres predominantes na população adulta e que as causas da doença na idade pediátrica estão muito menos claras, o que complica o desenvolvimento de estratégias preventivas eficazes.
No âmbito, as investigações se orientam a aprofundar no papel da susceptibilidade genética e das exposições ambientais antes do nascimento e durante os primeiros anos de vida. O projeto "Susceptibilidade, Exposições Ambientais e Início da Doença na Leucemia Mieloide Aguda" (SEED-AML), que a IARC coordenará junto a parceiros internacionais, tem como objetivo desvendar esses eventos precoces e avançar na prevenção.
Impacto das exposições ambientais
O projeto Epi-BEAM se centra igualmente em esclarecer como as exposições ambientais podem influenciar o aparecimento do câncer infantil. Em particular, investiga se a exposição precoce a micotoxinas, contaminantes presentes em alguns alimentos, pode interagir com a infecção pelo vírus de Epstein-Barr e provocar mudanças epigenéticas que aumentem a probabilidade de desenvolver linfoma de Burkitt, um dos tumores pediátricos mais frequentes em determinadas áreas da África subsaariana.
Também orientado ao estudo dos fatores ambientais, o projeto "ELI-ALL" (Rumo à Eliminação da Leucemia Linfoblástica Aguda em Crianças) obteve recentemente financiamento para analisar de que maneira a poluição do ar, as substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas (PFAS) e os pesticidas contribuem para a formação de clones pré-leucêmicos e para o posterior aparecimento de LLA.
A IARC apresentou ainda um novo subsítio dentro do Observatório Mundial do Câncer, denominado SURVCAN, que facilita a visualização de dados de sobrevivência ao câncer infantil a partir de registros populacionais de alta qualidade provenientes da África, Ásia, América Latina e Caribe.
Os esforços das equipes científicas da agência para reforçar a resposta global frente ao câncer infantil, que abrangem também iniciativas como a padronização e melhoria dos sistemas de registro, visam que todas as crianças, independentemente de seu local de residência, tenham maiores opções de superar a doença. A OMS mantém como meta alcançar uma sobrevivência global de pelo menos 60 por cento até 2030.