Seria difícil negar que nos últimos anos se apoderou das capitais europeias uma sensação de emergência. O mundo parece adentrar-se em um período de crescente instabilidade e fragmentação, uma época de transição na qual os valores e princípios que guiaram o comportamento da sociedade internacional das últimas décadas são cada dia mais questionados. Uma ruptura —para alguns irreparável— da ordem internacional baseada em regras que havia sido construída pouco a pouco desde o final da segunda guerra mundial.
Ao longo e largo do planeta, a violência volta a ser um instrumento legítimo para resolver disputas, as guerras proliferam e o direito internacional, a soberania e a integridade territorial dos Estados estão cada vez menos garantidos.
Os Estados europeus, que confiaram que já vivíamos a Paz Perpétua, se viram descolocados diante da (não tão) repentina ruptura dessa ordem. A Europa pôde construir prósperos Estados de bem-estar em boa parte graças ao dividendo de paz, aproveitando os benefícios econômicos e sociais derivados da redução do gasto em defesa.
Em termos coloquiais, escolheu a manteiga e esqueceu os canhões; e hoje paga o preço diante de um mundo onde o raw power parece retornar, se é que em algum momento foi embora. O continente não conta com as capacidades materiais nem imateriais para enfrentar as ameaças desse novo cenário, mais instável e imprevisível do que qualquer um dos que conheceu nas últimas décadas.
Uma Europa autônoma
Que o conceito de autonomia estratégica goze hoje de tal popularidade não é casualidade. Mais além do plano militar, os últimos anos têm sido testemunhas de distintas crises que desmascararam os riscos da globalização e das excessivas interdependências. A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e, mais recentemente, o bloqueio do Estreito de Ormuz, colocaram em destaque a vulnerabilidade energética do continente e a necessidade de acelerar a transição energética, desenvolver novas tecnologias e diversificar fornecedores, já não só como necessidade ambiental, mas como imperativo estratégico.
A pandemia de Covid-19 expôs a dependência da China em insumos farmacêuticos e equipamento médico. E o desmoronamento da aliança com os Estados Unidos desde a chegada de Trump ao poder revelou as enormes carências da União em tecnologia e equipamento militar, uma dependência em matéria que levaria décadas para remediar.

O contexto atual empurra a Europa a lutar por sua autonomia estratégica. Como afirmou Von der Leyen em seu discurso sobre o futuro da União de 2025, a Europa se encontra no meio de um combate por uma Europa livre e independente, por nossos valores e nossas democracias, e por nossa capacidade de determinar nosso próprio destino.
A sucessão de crises sacudiu os líderes europeus do letargo em que se encontravam e evidenciou que se queremos tomar nossas próprias decisões e viver sob nossos próprios valores, devemos desenvolver as capacidades institucionais, políticas e materiais para poder fazê-lo, cooperando com parceiros quando possível e agindo sozinhos quando necessário.
A corrida contra o relógio
No entanto, o caminho para a autonomia estratégica não está isento de obstáculos. No que diz respeito à segurança, o principal problema é o tempo, e nasce do descompasso entre os prazos da indústria de defesa e as necessidades estratégicas imediatas. A Europa deve conciliar uma ameaça que existe hoje, a Rússia, com ciclos industriais que são medidos em anos, quando não em décadas. Além disso, fortalecer a defesa implica aumentar orçamentos em economias de crescimento modesto — prevê-se um 1,1% para 2026 na União —, com governos frágeis nas principais potências europeias e com cidadãos que exigem respostas a problemas igualmente urgentes como o emprego ou a habitação.
Para que a União Europeia consiga sua tão almejada autonomia estratégica, deverá apostar em uma melhoria na competitividade, fechando lacunas em inovação e infraestruturas, e deverá reformular sua ação exterior em busca de novos parceiros confiáveis e uma diversificação de suas dependências. Autonomia não implica autarquia. A Europa não pode, nem deve, fechar suas portas e pretender se isolar do mundo. Como sinalizava Carney em Davos, o caminho passa por construir coalizões que funcionem, tema por tema, com parceiros que compartilhem terreno comum suficiente para agir juntos.

No entanto, não devemos cair no pessimismo que parece ter se apoderado da opinião pública em toda a Europa, como se fosse a primeira vez que o continente enfrenta grandes desafios. A realidade é que a União Europeia se fortaleceu a partir de cada crise que atravessou, e dos europeus depende, mais uma vez, demonstrar essa mesma capacidade de adaptação diante do novo cenário geopolítico.
Desde a Equipe Europa queremos contribuir para este debate. A Europa se encontra em uma encruzilhada onde tomar os passos corretos pode ser decisivo. O Fórum pelo Futuro da União Europeia, que será realizado de 20 a 22 de novembro em Madrid, é um espaço onde atores importantes da sociedade civil e as futuras gerações trocam visões e constroem juntos respostas aos grandes desafios que enfrentamos como europeus.