O co-portavoz do Podemos, Pablo Iglesias, atacou o presidente do Governo, Pedro Sánchez, a quem responsabiliza por manter uma atitude que considera deplorável e por aplicar uma "inação absolutamente calculada" para prolongar no tempo a crise migratória em Ceuta, ao sustentar que poderia tê-la resolvido em "24 horas".
Como hipótese, sugeriu que o Executivo teria evitado deliberadamente uma saída rápida a esta emergência e que, com essa falta de resposta, parece querer "punir" as pessoas migrantes, permitindo que cerca de 5.000 continuem "amontoadas em uma praia" e "abandonadas à sua sorte", em vez de oferecer-lhes uma atenção humanitária básica que, segundo destacou, sim estão proporcionando as ONGs e os próprios vizinhos de Ceuta.
Em uma coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira na sede estatal da formação, Iglesias acusou o Governo de estar "de joelhos" diante de Marrocos, a quem atribui a responsabilidade pela entrada massiva de migrantes na cidade autônoma, e exigiu a ruptura das relações diplomáticas com o país magrebino enquanto continuar utilizando vidas humanas como "arma arremessável" para "aplicar pressão política" contra a Espanha.
Críticas ao rei Felipe VI e à relação com Marrocos
Também censurou o silêncio "estrondoso" do rei Felipe VI diante da atuação do monarca marroquino, Mohamed VI, a quem qualificou de ditador, e expressou sua convicção de que uma futura visita do chefe de Estado a Ceuta não trará soluções reais. Por isso, desafiou publicamente Felipe VI a se pronunciar sobre a conduta de seu homólogo marroquino, com quem no passado disse manter uma boa relação.
Durante sua intervenção, Iglesias defendeu que a Espanha demonstrou capacidade para acolher migrantes e lembrou o precedente das pessoas deslocadas pela guerra na Ucrânia, quando milhares de cidadãos chegaram ao país sem que ocorressem problemas de acolhimento.
Em contraste com essa experiência, denunciou a gestão "calamitosa" e "absolutamente desastrosa" do atual Executivo em Ceuta, e exigiu uma reação imediata que inclua o traslado para a Península dos menores migrantes não acompanhados.
Assim, enfatizou que é "inadmissível" que, um mês depois da explosão desta emergência migratória atribuída à "ditadura marroquina", o Governo continue sem resolvê-la, instalado na "passividade" e na "desídia" do presidente. Fernández insistiu em suas críticas ao destacar que é "inassumível" e "inaceitável" que tenha demorado um mês para ativar um comando único para Ceuta enquanto o chefe do Executivo continuava de férias.
Vínculo com o pacto migratório europeu
O dirigente do Podemos relacionou essa falta de atenção aos migrantes com o pacto migratório da UE, apoiado pelo PSOE e que, em sua opinião, constitui um acordo de caráter racista. Por isso, considera "vagas e imprecisas" as explicações que Sánchez ofereceu sobre esta crise em uma entrevista na "Cadena Ser".
Fernández afirmou que é "patético" o grau de "submissão" que o Governo demonstra em relação a Marrocos e vê "incompreensível" que esteja "submetido" às decisões de um regime que qualifica de ditadura e ao qual se paga uma "ingente quantidade de milhões" após externalizar o controle fronteiriço.
Além disso, questionou o que Sánchez deve a Marrocos para que tenha ocorrido este "ato hostil" contra a Espanha quando, em sua opinião, é "palpável" que o país magrebino exerce pressão política enquanto mantém suas reivindicações de soberania sobre Ceuta e Melilla, com o apoio de seus aliados, entre os quais citou Israel e Estados Unidos. Em paralelo, criticou que o presidente tenha se dedicado praticamente a elogiar Marrocos.
Acusações sobre o auge do discurso racista
Em sua aparição, o co-porta-voz do Podemos advertiu que a inação do Executivo é "gasolina" para o discurso "racista" da ultradireita e acusou uma parte dos membros das Forças e Corpos de Segurança de protagonizar uma atuação "lamentável" com os migrantes e de permitir que grupos "esquadristas" se movam pela cidade autônoma "espalhando seu ódio".
Além disso, atacou o ex-presidente José María Aznar e o ex-deputado de Ciudadanos Marcos de Quinto por suas deslocações a Ceuta, que definiu como visitas "racistas". Em particular, destacou que é "lacerante" o caso de De Quinto, que "garrafinha na mão" se apresenta como "patriota" quando, segundo denunciou, houve anos em que tributou fora da Espanha para evitar o pagamento de impostos no país.