A greve indefinida da Airbus na Espanha continua nesta quarta-feira, enquanto a direção e os representantes dos trabalhadores tentam encontrar uma saída para um dos maiores conflitos trabalhistas recentes do fabricante aeronáutico no país. UGT, CGT e ÚTIL mantêm a convocação depois que os funcionários rejeitaram a última proposta da empresa.
A paralisação afeta centros estratégicos como Getafe, Illescas, Albacete, San Pablo e Tablada, embora o conflito também alcance as instalações gaditanas. Os sindicatos comunicaram acompanhamentos muito elevados em algumas fábricas e a UGT assegurou que durante o primeiro dia a paralisação foi "quase total" nos centros andaluzes.
O conflito chega ainda em um momento de forte atividade para o fabricante. A Airbus fechou o primeiro semestre de 2026 com 33.176 milhões de euros de receitas, 12% a mais, e 2.243 milhões de lucro líquido, 47% acima do mesmo período de 2025. A companhia entregou 351 aviões comerciais e acumulava uma carteira de 9.222 aeronaves no final de junho.
O que os trabalhadores da Airbus reivindicam
As reivindicações abrangem tanto salários quanto condições de trabalho. Um dos principais pontos é a recuperação do poder de compra, depois que os funcionários consideraram insuficientes as propostas anteriores. A Airbus avançou nesse aspecto e agora propõe um aumento ligado ao IPC real mais um complemento que permita alcançar um aumento total de 5% entre 2026 e 2027. Fica pendente negociar o que ocorrerá entre 2028 e 2030.
O teletrabalho tem sido outro dos grandes focos do conflito. A companhia havia impulsionado uma maior presencialidade, mas os protestos levaram a Airbus a dar marcha à ré e manter o modelo atual, incluindo os dois dias de trabalho remoto contemplados em determinados acordos individuais.
Também estão sobre a mesa as férias, a flexibilidade de entrada e saída, as rotas de transporte coletivo e o preço do refeitório. A Airbus propõe constituir comissões específicas para abordar algumas dessas questões, mas os sindicatos exigem compromissos suficientemente concretos e consideram que ainda não foram alcançados os objetivos que levaram à convocação da greve.
Airbus cede nos descontos por baixa médica
Um dos movimentos mais concretos da empresa afeta os trabalhadores que estão de baixa. A Airbus apresentou em 24 de agosto o desistimento do seu recurso junto ao Tribunal Supremo sobre os complementos por incapacidade temporária e se comprometeu a devolver as quantias que haviam sido descontadas.
Empresa e trabalhadores deverão negociar além de um sistema alternativo para abordar o absenteísmo. Segundo a proposta comunicada pela UGT, o novo mecanismo não computará as ausências derivadas de doença, acidente ou sanção.
Apesar desses avanços, a greve continua porque o desacordo é mais amplo. Os convocadores reclamam que se revertam decisões empresariais adotadas unilateralmente, que se respeitem as obrigações legais e convencionais existentes e que as negociações desembocam em compromissos concretos.
Que impacto está tendo a greve da Airbus
O primeiro efeito está se produzindo nas próprias plantas. A UGT assegurou na terça-feira que a atividade ficou praticamente paralisada em Sevilha e qualificou o acompanhamento de "quase total" nos centros andaluzes afetados.
Isso não significa que a produção mundial da Airbus esteja paralisada. As mobilizações anteriores não haviam afetado a produção global, mas o conflito entrou agora em uma nova fase com uma greve indefinida, portanto, sua prolongação aumenta o risco industrial.
A própria Airbus reconhece esse risco. A empresa está avaliando o impacto que pode ter a paralisação sobre suas obrigações de produção, acordos com clientes, compromissos institucionais e reputação, e considera "crítico" alcançar um acordo para salvaguardar o projeto industrial na Espanha.
Por que uma greve na Espanha pode afetar a Airbus fora do país
As plantas espanholas fazem parte de uma cadeia industrial europeia na qual diferentes centros produzem e montam componentes que posteriormente são integrados nos programas do fabricante. Uma interrupção prolongada pode, portanto, deixar de ser um problema exclusivamente espanhol se começar a dificultar o fornecimento de peças e estruturas para outras instalações.
O risco adquire especial relevância porque a Airbus está tentando aumentar sua produção para atender a uma carteira de pedidos extraordinariamente elevada. Em 30 de junho acumulava 9.222 aviões comerciais pendentes de entrega e durante os seis primeiros meses do ano havia recebido 821 pedidos líquidos.
Por enquanto, no entanto, não existem dados que permitam afirmar que a greve espanhola esteja provocando atrasos generalizados nas entregas internacionais. O impacto acreditado se concentra nas plantas afetadas e o risco sobre o conjunto da cadeia dependerá especialmente de quanto dure o conflito.
A ameaça sobre as novas contratações
A terceira jornada de greve adicionou um elemento novo. Segundo representantes dos trabalhadores, a Airbus levantou que poderia suspender as contratações previstas na Espanha se a greve continuar. Os sindicatos interpretam essa possibilidade como uma medida de pressão em plena negociação.
A advertência resulta especialmente significativa porque enfrenta diretamente o conflito laboral com o futuro crescimento das plantas espanholas. A Airbus se encontra em pleno aumento de atividade e o grupo contava no final de junho com 168.754 trabalhadores em todo o mundo, um 2% a mais que no fechamento de 2025.
Convém, não obstante, distinguir entre uma advertência durante as conversas e uma decisão executada. A esta hora não há constância de que a Airbus tenha anunciado formalmente uma cancelamento geral das novas incorporações na Espanha.
Airbus ganha 47% a mais enquanto continua o conflito
A negociação ocorre com contas particularmente favoráveis para o grupo. Os 2.243 milhões de euros de lucro líquido obtidos entre janeiro e junho representam um aumento de 47% em relação ao ano anterior, enquanto o resultado operacional ajustado alcançou 2.727 milhões, um 24% a mais.
Os sindicatos utilizam a situação econômica da Airbus como argumento para reclamar melhorias depois de anos em que consideram que a equipe perdeu poder aquisitivo e determinadas condições laborais. A direção, por sua parte, sustenta que suas últimas propostas já incorporam boa parte das reivindicações que originaram as protestas.
O enfrentamento se encontra assim em um momento decisivo: Airbus está obtendo mais receitas e lucros e precisa aumentar sua produção, enquanto uma parte importante de sua equipe espanhola mantém uma greve indefinida para reclamar melhorias salariais e laborais.
A próxima reunião será esta quinta-feira
A negociação de terça-feira no Serviço Interconfederal de Mediação e Arbitragem (SIMA) terminou sem um acordo definitivo. A Airbus apresentou um documento com maior detalhe sobre algumas de suas propostas, mas os representantes dos trabalhadores reclamaram novas esclarecimentos.
A reunião foi adiada até esta quinta-feira, 27 de agosto, às 9h30. Será um encontro especialmente importante porque a greve continuará enquanto as partes não conseguirem fechar um acordo que receba o respaldo dos trabalhadores.
Até lá, a principal interrogação não é apenas quanto tempo durará a mobilização, mas quando começará a se transferir de maneira significativa para a produção. Não há evidência por enquanto de uma paralisação global da Airbus, mas cada dia adicional aumenta a pressão sobre fábricas espanholas integradas em uma cadeia de produção europeia que trabalha para responder a uma carteira de mais de 9.000 aviões pendentes de entrega.