A União de Associações de Trabalhadores Autônomos e Empreendedores (Uatae) advertiu nesta quinta-feira sobre o "duplo aluguel" que suportam milhares de trabalhadores por conta própria, obrigados a assumir ao mesmo tempo o aumento do custo da habitação e dos locais comerciais. Esta carga, que a organização considera "dificilmente sustentável", torna-se especialmente intensa nas grandes cidades e nas áreas onde os preços experimentaram os maiores aumentos.
Neste contexto, a organização reivindicou que ambos os problemas sejam abordados "conjuntamente", uma vez que costumam ser analisados separadamente, insistindo que, para um autônomo com negócio na rua, a despesa com aluguel não se limita à sua residência: todo mês deve enfrentar também o arrendamento do espaço onde desenvolve sua atividade.
"Você pode vender mais, trabalhar mais horas ou tentar ajustar gastos, mas há custos fixos que atingiram um nível que um pequeno negócio simplesmente não pode compensar", expôs a secretária-geral da Uatae, María José Landaburu.
Segundo sublinhou a organização, esta realidade atinge com especial dureza o comércio varejista, a hotelaria, os cabeleireiros, as oficinas e múltiplos serviços de proximidade, tratando-se de atividades que dependem de um local físico e que não podem ser transferidas para uma residência nem operar unicamente através da internet.
Ao mesmo tempo, a Uatae destacou que o encarecimento dos locais está transformando o tecido comercial de muitos bairros, favorecendo a substituição gradual de pequenos negócios por operadores com maior músculo financeiro, estabelecimentos ligados a grandes cadeias ou locais que permanecem fechados à espera de inquilinos capazes de assumir aluguéis mais altos.
"Quando desaparece uma livraria, uma ferragem, uma frutaria ou um bar de toda a vida porque não pode pagar o aluguel, não estamos falando apenas do fechamento de um comércio", sustentou Landaburu, que ressaltou que "estamos mudando também o bairro e recuperar esse tecido depois é extraordinariamente difícil".
Propostas de proteção para os novos autônomos
Diante deste cenário, a organização considera "especialmente preocupante" o impacto sobre aqueles que desejam iniciar um negócio, uma vez que ao investimento inicial se somam fianças, garantias, obras de acondicionamento e aluguéis que tornam o acesso a um local na primeira grande barreira mesmo antes de levantar a persiana. Por isso, a Uatae instou a "abrir o debate" sobre este mercado e analisar medidas específicas.
Entre as propostas apresentadas figuram políticas que incentivem a saída ao mercado de locais vazios a preços acessíveis, sistemas públicos ou municipais de intermediação, ajudas ligadas à manutenção de atividades consideradas essenciais para a vida dos bairros e um maior aproveitamento do parque de locais de titularidade pública.
Por último, a Uatae reclamou que as políticas de habitação incorporem a realidade dos trabalhadores autônomos, cujos rendimentos podem flutuar notavelmente de um mês para outro e que, apesar de contar com negócios viáveis, encontram obstáculos adicionais para demonstrar solvência e acessar a um aluguel.
"Estamos falando muito sobre quem pode se permitir viver em nossas cidades, mas temos que começar a nos perguntar também quem pode se permitir trabalhar nelas", concluiu Landaburu.