Junts volta a registrar a lei para que a Catalunha assuma competências em imigração e desafia o Podemos a apoiá-la

A formação de Puigdemont recupera a proposição que o Congresso derrubou em setembro de 2025 com os votos de PP, Vox e Podemos, embora desta vez a apresente em solitário e elimine do preâmbulo os argumentos que levaram os roxos a qualificá-la de "racista"

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Junts volta a tentar que a Generalitat assuma parte das competências estatais em matéria de imigração. A porta-voz do partido no Congresso, Míriam Nogueras, anunciou nesta quarta-feira o registro de uma nova proposição de lei que recupera o conteúdo da iniciativa pactuada com o PSOE em 2025, mas introduz uma mudança destinada a desbloquear sua tramitação: desaparecem do preâmbulo as referências que levaram o Podemos a votar contra e a frustrar sua aprovação há quase um ano.

O movimento chega em plena crise migratória de Ceuta e um dia depois que o Governo colocou em marcha a reforma das leis de Estrangeiros e Asilo para incorporar à legislação espanhola ferramentas do Pacto Europeu de Migração e Asilo. Junts aproveita esse cenário para recuperar uma de suas principais reivindicações da legislatura e questionar que seja o Executivo central quem decida a política migratória que se aplica na Catalunha.

Esta vez há uma diferença política importante. O PSOE não assina a proposição. Junts a registra em solitário, embora o conteúdo da parte dispositiva mantenha essencialmente o acordo que ambas as formações alcançaram em março de 2025.

O segundo intento depois do fracasso de 2025

O primeiro texto nasceu de um acordo entre PSOE e Junts e chegou ao Congresso como uma proposição de lei orgânica conjunta. A fórmula escolhida foi a delegação de competências estatais prevista constitucionalmente, em vez de uma transferência definitiva da titularidade dessas competências.

A iniciativa não superou finalmente a tomada em consideração do Plenário. PP, Vox, Podemos e UPN votaram contra em 23 de setembro de 2025, assim como dois deputados do Sumar que romperam a disciplina de voto. O resultado foi de 177 votos contra e 173 a favor.

PP e Vox rejeitaram o acordo ao considerar que invadia competências exclusivas do Estado e questionaram sua adequação constitucional. Podemos chegou a uma conclusão distinta: aceitava que pudessem ser delegadas determinadas competências, mas considerava "abertamente racista" o planteamento político registrado no texto.

Esse último obstáculo é o que Junts tenta eliminar agora.

Junts elimina o preâmbulo que rejeitava Podemos

A nova iniciativa mantém o conteúdo normativo da proposta anterior, mas suprime do preâmbulo as referências que Podemos considerava discriminatórias, segundo a informação conhecida nesta quarta-feira.

Junts pretende assim isolar o debate sobre a transferência de competências do discurso político que acompanhava o primeiro texto. Nogueras convocou diretamente o partido de Ione Belarra a decidir se volta a votar junto ao PP e Vox ou permite desta vez que a proposição continue sua tramitação.

Podemos já defendeu durante o debate parlamentar de 2025 que não se opunha por princípio a delegar competências migratórias às comunidades autônomas. Sua posição era favorável sempre que se respeitassem os direitos dos estrangeiros e a legislação fosse igual em todo o território, mas rejeitava vincular imigração e criminalidade ou introduzir planteamentos que considerava xenófobos. Assim ficou registrado no Diário de Sessões do Congresso.

A incógnita é se a eliminação desse conteúdo será suficiente para mudar agora seu voto.

Quais competências reclama Junts

A proposição pretende que a Generalitat assuma funções que atualmente correspondem à Administração Geral do Estado.

Entre elas figura a execução de devoluções de estrangeiros na Catalunha, dentro da normativa estatal, assim como competências relacionadas com a documentação de imigração, o regime sancionador e a gestão dos centros de internamento de estrangeiros situados na comunidade. (Cadena SER)

Os Mossos d'Esquadra também ganhariam protagonismo. O acordo original estabelecia sua participação em tarefas relacionadas com as fronteiras junto à Polícia Nacional e Guarda Civil e contemplava a incorporação de 1.800 agentes para assumir as novas funções. (Cadena SER)

O modelo não supõe que a Catalunha passe a controlar de maneira independente uma fronteira exterior da União Europeia. O texto de 2025 estabelecia mecanismos de cooperação com as forças estatais e mantinha a aplicação da legislação espanhola e europeia. (Servimedia)

"Catalunha não tem capacidade de acolhimento infinita"

Nogueras acompanhou o novo registro com um endurecimento do discurso de Junts sobre imigração.

A porta-voz sustenta que a reclamação de competências não responde a uma questão de "privilégios", mas de "soberania, responsabilidade, sobrevivência e capacidade de governo", e defende que a Catalunha deve dispor de ferramentas para gerir as consequências das decisões adotadas pelo Governo central.

"Catalunha não tem capacidade de acolhimento infinita, e é preciso dizer isso", afirmou.

Nogueras contrapôs também o modelo que defende Junts com o projeto do Governo de Salvador Illa. A seu juízo, a Catalunha já tem dificuldades para atender a uma população de oito milhões de habitantes e avançar para os dez milhões colocaria sob pressão os serviços públicos, o Estado de bem-estar e a situação econômica das classes médias e trabalhadoras.

Seu proposta a resumiu em uma fórmula: "Direitos, sim. Deveres e catalanidade, também".

Ao mesmo tempo, rejeitou os planteamentos que reduzem a política migratória a expulsar todos os estrangeiros e pediu evitar tanto esse discurso quanto o de quem, a seu juízo, rejeita qualquer debate sobre as obrigações de quem chega à Catalunha.

Junts ataca a regularização do Governo

Uma parte central do argumento de Nogueras se dirige contra a política migratória do Executivo de Pedro Sánchez.

A porta-voz criticou especialmente o processo extraordinário de regularização e sustenta que o volume de solicitações superou amplamente as previsões iniciais. Segundo os números utilizados por Junts, das cerca de 1,2 milhões de petições apresentadas, aproximadamente uma de cada quatro corresponderia a pessoas residentes na Catalunha.

Junts utiliza esse dado para defender que as decisões sobre imigração têm um impacto especialmente intenso na comunidade e que a Generalitat deveria intervir diretamente em sua gestão.

Nogueras contrapôs a política do Governo com o rumo que, a seu juízo, está seguindo a União Europeia, com maior controle das fronteiras, procedimentos de retorno mais eficazes e uma vinculação mais estreita entre imigração e necessidades do mercado de trabalho.

A crise de Ceuta devolve a imigração ao centro do debate

O novo intento de Junts coincide com a mudança de política anunciada esta semana pelo Governo após a crise de Ceuta.

O Conselho de Ministros aprovou esta terça-feira em primeira volta uma nova Lei de Asilo e a reforma da Lei de Estrangeiros para incorporar instrumentos previstos no Pacto Europeu de Migração e Asilo. Entre as medidas planteadas figuram novos procedimentos na fronteira e mecanismos para acelerar a tramitação de determinadas solicitações e os retornos.

Junts questiona que o Governo acometa agora essa reforma sem ter resolvido antes a reclamação catalã.

A formação independentista sustenta que o problema não deve ser colocado como um conflito entre a Catalunha e os países de origem dos migrantes. "Isto vai da Catalunha-Espanha. Isto vem de longe. Isto vai de quem decide. E hoje decide Madrid, e quem tem que decidir é a Catalunha", afirmou Nogueras.

Podemos volta a ter a chave

A aritmética parlamentar volta a situar o Podemos no centro da operação.

Há onze meses, seus votos foram determinantes para que a proposição acordada pelo PSOE e Junts não superasse sequer a tomada em consideração. O resultado de 177 votos contra 173 deixou o texto fora da tramitação antes que pudessem ser introduzidas emendas. (EFE Notícias)

Junts tenta agora mudar essa equação eliminando precisamente o conteúdo que motivou a rejeição dos roxos.

Fica também por saber o que fará o PSOE diante de uma iniciativa que já não leva sua assinatura, mas cujo articulado reproduz o acordo migratório que alcançou com Junts em 2025. Os socialistas defenderam então a constitucionalidade da delegação e votaram a favor de sua tramitação. (Europa Press)

A proposição volta assim ao ponto de partida quase um ano depois de sua derrota parlamentar. Desta vez Junts comparece sozinho e sem o preâmbulo que enfrentou a formação com o Podemos. O conteúdo da delegação, no entanto, permanece.

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