O Observatório Nacional de Agressões a Enfermeiros e Enfermeiras, dependente do Conselho Geral de Enfermagem, contabilizou 3.285 ataques a estes profissionais durante 2025, mais do que o dobro dos registrados há oito anos, em 2017, ano em que começou a funcionar este organismo e foram comunicados 1.593 incidentes.
Estes dados foram divulgados na mesa "Cuidar de quem cuida: estratégias frente à violência no âmbito sanitário", organizada no âmbito do XLII Congresso da Sociedade Espanhola de Qualidade Assistencial (SECA), que ocorre em Gijón (Astúrias) até esta sexta-feira.
Na sessão participaram o chefe do Serviço de Prevenção de Riscos Laborais do Consorci Sanitari Alt Penedès i Garraf, Genís Cervantes Ortega; o secretário-geral do Conselho Geral de Enfermagem, Diego Ayuso Murillo; e o inspetor Miguel Ángel Gil Ruiz, responsável pela Unidade Territorial de Segurança Privada da Comissaria Local de Gijón, vinculada à Brigada de Segurança Cidadã.
Os palestrantes alertaram que os números oficiais de agressões à enfermagem ficam aquém da realidade, devido ao fato de que muitos profissionais não chegam a denunciar os fatos por medo, ansiedade ou pela tendência a assumir determinados comportamentos como algo habitual.
Os dados apresentados indicam que 77 por cento dos ataques sofridos pelo pessoal de enfermagem são de caráter verbal e 23 por cento, físicos. Uma parte muito relevante dos episódios se concentra nos serviços de Urgências hospitalares, embora também sejam registrados na Atenção Primária (AP) e na atenção em domicílio.
Entre as causas que costumam estar por trás dessas situações foram citadas a insatisfação com a assistência recebida, os tempos de espera, as demoras na atenção e o desajuste entre as expectativas de pacientes e familiares e as prestações reais que o sistema de saúde pode oferecer.
Durante o colóquio, foi ressaltada a conveniência de unificar os sistemas de notificação e de compartilhar dados entre administrações e entidades de saúde, com o fim de dispor de informações sólidas que permitam localizar os ambientes com maior risco, planejar medidas preventivas e analisar seu impacto.
COMO IMPACTA A VIOLÊNCIA NOS TRABALHADORES
Um dos aspectos analisados foi o efeito da violência sobre a saúde emocional dos profissionais e sobre o funcionamento das próprias organizações de saúde. Nesse contexto, foram divulgados resultados preliminares de um estudo multicêntrico promovido pelo Consorci Sanitari Alt Penedès i Garraf, no qual colaboram sete grupos hospitalares públicos que reúnem cerca de 10.000 trabalhadores.
A partir das informações coletadas em 489 questionários, constatou-se que aqueles que sofreram episódios de violência apresentam piores indicadores de bem-estar no trabalho e um maior impacto negativo relacionado com sua atividade laboral. Esses efeitos se agravam conforme aumenta a gravidade percebida das agressões.
Os especialistas ressaltaram que o alcance das agressões não pode ser avaliado apenas pelo número de lesões físicas ou de afastamentos laborais que geram, mas também devem ser levadas em conta as sequelas psicológicas, as possíveis mudanças na relação com os pacientes e a influência na tomada de decisões clínicas.
Com a intenção de evitar situações violentas, os palestrantes apontaram que alguns profissionais de saúde podem acabar assumindo demandas assistenciais que não estão justificadas. Igualmente, observaram um aumento do desejo de solicitar transferência de serviço ou de centro.
ABORDAGEM DO PROBLEMA
Diante desse cenário, insistiram na importância de tratar a violência como um problema de segurança no trabalho, de saúde das organizações e de qualidade assistencial, e não apenas como uma soma de casos isolados.
A mesa serviu para apresentar distintas iniciativas direcionadas a diminuir os riscos e a reforçar a capacidade de resposta das instituições de saúde frente às agressões. Nesse sentido, destacou-se a formação dos profissionais em habilidades de comunicação, gestão de conflitos e técnicas de desescalada verbal.
Nesse contexto, os participantes chamaram a articular uma atuação conjunta entre os centros de saúde, as organizações profissionais e as forças e corpos de segurança, centrada na prevenção, na implantação de protocolos de atuação e na criação de dispositivos de apoio às pessoas afetadas.
Da mesma forma, enfatizaram a relevância de consolidar uma cultura de tolerância zero diante das agressões, evitando assumir como normais os insultos, as ameaças ou as coações, e rejeitando que façam parte inerente do trabalho na área da saúde.