A entrada massiva de migrantes em Ceuta teve uma réplica imediata nas redes sociais. O sistema FARO do Observatório Espanhol do Racismo e da Xenofobia detectou 9.590 mensagens de ódio unicamente durante os dias 30 e 31 de julho, três vezes mais do que o habitual nessas datas.
O volume total de conteúdos de ódio e narrativas discriminatórias detectados durante julho ascendeu a 57.406, frente aos 40.800 contabilizados em junho.
O relatório, publicado nesta terça-feira pela OBERAXE, monitora conteúdos em Facebook, Instagram, TikTok, YouTube e X.
Ceuta provoca o pico de final de mês
Os dias 30 e 31 coincidem com a entrada massiva do Marrocos.
Segundo a OBERAXE, esses dois dias concentraram 9.590 conteúdos, o que explica uma parte substancial do aumento mensal.
O observatório prevê que a crise ceutiana continue tendo peso também em seu boletim correspondente a agosto.
Quem recebe mais mensagens de ódio
As pessoas provenientes do norte da África foram o principal alvo dos conteúdos analisados durante julho.
O 68% da amostra estava dirigido contra esse grupo. As mensagens contra pessoas imigrantes em termos gerais representavam 19% e as dirigidas contra muçulmanos, 16%. As categorias podem se sobrepor entre si.
A insegurança cidadã foi uma das narrativas com maior presença.
Também teve um peso elevado o esporte devido à celebração da Copa do Mundo de futebol, que concentrou 34% dos conteúdos analisados durante o mês.
A retirada de conteúdos sobe para 70%
O relatório registra uma melhoria relevante na resposta das plataformas.
A taxa de retirada de conteúdos notificados alcançou 70%, nove pontos percentuais a mais do que durante junho.
OBERAXE diferencia entre as denúncias realizadas por usuários convencionais e aquelas canalizadas através de mecanismos especializados como o denominado trusted flagger.
A retirada após notificações ordinárias continua sendo muito menor. Apenas 12% das mensagens denunciadas como qualquer usuário foram eliminadas pelas plataformas.
Como funciona o FARO
FARO é o sistema com o qual a OBERAXE realiza uma monitorização diária do discurso de ódio em espanhol.
Combina ferramentas automatizadas com revisão humana e rastreia cinco grandes plataformas. Seu objetivo não é medir absolutamente tudo o que se publica na Internet, mas detectar e analisar conteúdos compatíveis com os critérios de discurso de ódio e narrativas discriminatórias empregados pelo observatório.
Por isso os 57.406 conteúdos não representam o número total de mensagens escritas sobre Ceuta nem podem ser interpretados como 57.406 usuários diferentes.
Os boatos amplificam uma crise
As crises migratórias geram além de um problema adicional: imagens antigas, vídeos de outros países ou cenas descontextualizadas podem voltar a circular atribuídas falsamente a acontecimentos atuais.
Antes de compartilhar um vídeo sobre Ceuta, convém verificar sua primeira data de publicação, localizar o lugar por meio de elementos visíveis da imagem e buscar se fontes oficiais ou meios sobre o terreno documentaram o suposto incidente.
Em momentos de alta circulação, uma imagem real pode se tornar também em desinformação se for publicada com uma data, localização ou explicação falsa.