Seja responsável: não vale esperar até depois do 29N

Jorge Villarino, CEO da Vinces, doutor em Direito e advogado das Cortes Gerais em licença analisa em DEMÓCRATA como a antecipação eleitoral não paralisa a atividade regulatória e por que empresas e organizações devem manter sua estratégia de assuntos públicos e influência

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Desde que o BOE publicou a dissolução das Cortes, em muitos comitês de direção se repete a mesma frase: “já o retomaremos depois do 29N”. É compreensível. O ruído convida a pensar que as políticas públicas e a regulação deixam espaço por algumas semanas à pura confrontação eleitoral.

É, no entanto, uma visão muito simplista do ecossistema político e regulatório. A dissolução paralisa grande parte da atividade parlamentar, mas não o funcionamento do Estado. Muitos centros de poder normativo, a maioria de fato, continuam funcionando.

A dissolução paralisa grande parte da atividade parlamentar, mas não o funcionamento do Estado

A maquinaria do Estado e da União Europeia não se apaga

Convém começar pelo básico. Até o 29 de novembro o Governo não está em funções: conserva a plenitude de suas competências. Pode aprovar reais decretos, ordens ministeriais e, se considerar urgente, reais decretos-lei. Os ministérios continuam tramitando normas, abrindo consultas públicas e resolvendo processos que impactam diretamente na vida econômica e social.

O Parlamento também não desaparece totalmente. A Deputação Permanente, essa grande protagonista estes dias, assume as funções das Câmaras e é quem deve validar, ou não, os reais decretos-lei que possam ser aprovados. Com os de habitação ainda frescos, ninguém deveria descartar que o Governo volte a legislar por essa via.

As comunidades autônomas continuam funcionando a pleno rendimento, tanto em seus governos como em suas assembleias legislativas, e nesse âmbito continuam sendo aprovadas normas que incidem no tecido empresarial. E a isso se somam os municípios e outros organismos, que adotam decisões que impactam na conta de resultados das empresas.

Por último, mas talvez o mais importante, está Bruxelas, que não vota o 29N. Os ministros espanhóis continuam sentados nos conselhos, os trílogos avançam, o Parlamento continua legislando e a Comissão prepara sua agenda para 2027. Nada disso se detém pelo calendário eleitoral de um Estado membro.

Boa parte da regulação que afetará a energia, a indústria, o setor agroalimentar, a saúde, as relações comerciais com terceiros Estados ou a tecnologia nos próximos anos continua sendo escrita lá.

As políticas públicas que estão por vir

Mas o argumento mais potente não é o que continua funcionando, mas o que começa a se gestar. Os partidos estão fechando agora seus programas e em poucas semanas terão que traduzir slogans em propostas concretas sobre habitação, fiscalidade, energia, saúde, economia circular ou indústria. Essas propostas não nascem apenas dos aparelhos dos partidos: se alimentam de dados, de diagnósticos e de ideias que, além das internas, alguém lhes faz chegar. E fazê-las chegar com o máximo rigor. Não me cansarei de dizer: não há maior legitimidade técnica do que a de quem dedica seu dia a dia a fazer prosperar seu negócio com responsabilidade; nem maior legitimidade social do que a de quem mantém um diálogo ativo e uma capacidade de compreensão, que não de necessária anuência, com a sociedade civil. É responsabilidade das organizações buscar espaços para que exista esse diálogo; também agora.

Os partidos estão fechando agora seus programas e em poucas semanas terão que traduzir slogans em propostas concretas

Um programa eleitoral é muito mais do que um documento de campanha. É o primeiro rascunho das políticas públicas que um futuro Governo querrá colocar em cima da mesa em seus primeiros cem dias. Por isso, quem renuncia a participar deste debate deixa que outros definam o marco no qual depois terá que se mover.

Há outro elemento que costuma ser ignorado: em um sistema parlamentar marcado já há anos pela ausência de maiorias absolutas, nenhum programa é aplicado tal qual. O que acabar no BOE vem condicionado pela capacidade de negociação com os potenciais parceiros. E é aqui que é necessário fazer uma leitura inteligente, transcendendo portanto ao puro slogan, das linhas vermelhas que aqueles vão deslizando precisamente durante este período em que nos encontramos imersos.

O debate e a inteligência, também nas redes sociais.

Restringir o trabalho de inteligência à leitura de alguns programas eleitorais ou ao acompanhamento dos comícios eleitorais é demasiado simplista. O debate das políticas públicas, que não é o mesmo que o debate político, transcende à dinâmica da atualidade dos partidos políticos durante o período eleitoral.

E aqui as redes sociais, além da relação que cada um tenha com elas, já faz tempo que se demonstrou como um foco de atenção absolutamente necessário. E sim, é preciso eliminar o ruído, saber lê-las, transcender ao comentário efêmero, fugir da imediata. Isso se faz com profissionalismo, sendo conhecedor do verdadeiro poder digital, da capacidade de influência, que vai muito além do número de seguidores, ou da interação que alguém possa ter. É muito mais complexo e seria irresponsável não dedicar esforços a saber lê-lo e, inclusive, a participar ativamente nele.

Circunscrever o trabalho de inteligência à leitura de alguns programas eleitorais ou ao acompanhamento dos comícios eleitorais é demasiado simplista

Momento também para reivindicar a profissionalidade da influência

Não devo deixar passar a oportunidade de reivindicar a atividade institucional ou de assuntos públicos como uma atividade estratégica. Sei que o qualificativo está demasiado vazio de conteúdo em muitas ocasiões. Demos-lhe conteúdo: hoje em dia é inconcebível e irresponsável que a direção de um negócio seja realizada sem dedicar esforços a estruturar esta atividade internamente, dotá-la de estabilidade, exercê-la profissionalmente e prestar contas a respeito.

E isso se faz também agora, porque como temos refletido a maquinaria não se detém e no plano nacional, no dia 29 de novembro se votará quem conformará as Câmaras, mas boa parte do que fará esse futuro Governo já está sendo decidido. As empresas que entenderem o período eleitoral como uma pausa descobrirão em janeiro que as políticas públicas e a agenda regulatória foram escritas sem elas.