O turismo canário termina agosto com cifras ainda muito elevadas, mas com sinais de que a etapa de crescimentos excepcionais posterior à pandemia está chegando ao fim. A ocupação manteve-se neste verão em torno de 80%-85%, dependendo da ilha, as receitas continuam avançando e o emprego turístico se move em níveis históricos. No entanto, visitantes e pernoites começam a mostrar uma evolução muito mais moderada e as empresas alertam que faturar mais já não significa necessariamente ganhar mais.
O diagnóstico compartilhado por representantes empresariais e o Governo das Canárias é o de um verão bom, mas mais estável que expansivo. José María Mañaricúa, presidente da Federação de Empresários de Hotelaria e Turismo de Las Palmas (FEHT), o define como um "bom ano turístico", enquanto o vice-conselheiro de Turismo, José Manuel Sanabria, fala de uma temporada "muito boa". Ambos colocam o foco no aumento das receitas e na força do emprego mesmo em um contexto em que o número de viajantes já não cresce no ritmo dos últimos exercícios.
Mais viajantes, mas menos noites em julho
Os últimos dados oficiais refletem essa aparente contradição. Segundo o Instituto Canário de Estatística (ISTAC), 1,3 milhões de viajantes se alojaram em hotéis e apartamentos das Canárias durante julho, um 0,7% mais que um ano antes, mas as pernoites desceram 0,3%, até os 8,9 milhões de noites. A ocupação por quartos e apartamentos situou-se em 78,6%, com Lanzarote como a ilha com o maior índice.
A moderação já havia sido observada em junho: os viajantes aumentaram 0,5%, mas as noites contratadas caíram 1,8%, com um retrocesso de 2,9% entre os turistas estrangeiros. O dado mostra que as Canárias continuam atraindo visitantes, embora estes tendam a reduzir ligeiramente a duração de suas férias.
Os dados exclusivamente hoteleiros do INE oferecem outra perspectiva do mesmo fenômeno. Em julho, as Canárias receberam 1,059 milhões de viajantes em hotéis, um 5% mais interanual, enquanto as pernoites hoteleiras avançaram 2,39%. As diferenças com os números do ISTAC se explicam porque este último incorpora também os alojamentos extrahoteleiros.
Menos estadias, mas mais dinheiro
A principal força do verão está nas receitas. Apesar da ligeira descida das pernoctações, hotéis e apartamentos faturaram 507 milhões de euros em julho, um 5,8% mais do que em 2025, enquanto a tarifa média por quarto ocupado alcançou os 131,9 euros. Em junho, a faturação já havia crescido 5,3%, até os 395 milhões.
A evolução do gasto reforça essa tendência. Durante o segundo trimestre, os turistas deixaram nas Canárias 4.851 milhões de euros, um 10,2% mais do que um ano antes, e o desembolso médio diário aumentou de 157,9 até 181 euros por pessoa. Tenerife concentrou 38,4% do gasto e Gran Canária 24,4%.
Gran Canária oferece um exemplo especialmente claro. No segundo trimestre, recebeu 2,8% menos visitantes, mas a faturação turística aumentou 0,48%, até os 1.185,1 milhões de euros, o maior volume registrado pela ilha para esse período. O maior gasto individual compensou assim a redução de turistas.
"Está acabando o efeito champanhe pós-Covid"
O presidente da Ashotel, Jorge Marichal, introduz uma das principais cautelas. Em declarações recolhidas este domingo pela Cadena SER, sustenta que "está acabando o efeito champanhe pós-Covid", expressão com a qual descreve a explosão da demanda turística que ocorreu após as restrições sanitárias e que impulsionou durante vários exercícios consecutivos viagens, ocupação e preços.
A normalização é especialmente perceptível nos meses que tradicionalmente são mais fracos para as Canárias. Maio e junho registraram um comportamento menos intenso e o verão foi se recuperando depois graças, entre outros fatores, ao peso crescente das reservas de última hora. Nos estabelecimentos associados à Ashotel na província de Santa Cruz de Tenerife, julho terminou com uma ocupação de 80,38%, apenas um ponto abaixo de 2025, mas muito acima das reservas que haviam sido contabilizadas algumas semanas antes.
Marichal considera que setembro ainda deverá confirmar o balanço definitivo, embora preveja resultados positivos na maioria das ilhas e uma temporada semelhante à do ano passado. Um dos principais pontos fracos é o mercado alemão, que está funcionando pior do que outros grandes emissores, enquanto o turismo nacional também não mostrou a mesma intensidade que em verões anteriores.
O emprego turístico atinge máximos
O mercado de trabalho é outro dos indicadores positivos. Em julho, os estabelecimentos hoteleiros e extrahoteleiros contabilizados pelo ISTAC empregavam 76.719 trabalhadores, em comparação com os 74.510 registrados em junho. Desde o Governo autonômico vinculam esse comportamento com a melhoria geral do emprego nas ilhas, enquanto a patronal destaca que o setor conta atualmente com mais trabalhadores do que nunca.
O tráfego aéreo também se mantém em níveis elevados. Os aeroportos canários gerenciaram 4,69 milhões de passageiros em julho, 1,3% a mais do que um ano antes. Os voos nacionais aumentaram 4,3%, até 2,22 milhões de viajantes, enquanto os internacionais se mantiveram praticamente estáveis, com uma queda de 0,1%.
O problema: ingressar mais e ganhar menos
O aumento da faturação não está se transferindo da mesma maneira para os lucros. Fernando Estany, vice-presidente da FEHT, explica que a ocupação acumulada até julho estava aproximadamente um ou dois pontos abaixo do exercício anterior, embora as reservas tenham se recuperado após o segundo trimestre. Seu principal aviso está nos custos: "Mantemos as receitas, mas os custos realmente subiram muito".
Energia, salários, alimentação, suprimentos e outros gastos empresariais aumentaram, de modo que tarifas hoteleiras mais altas e um maior gasto turístico podem conviver com uma rentabilidade inferior. Estany antecipa precisamente que as margens do negócio turístico serão "bastante inferiores" este ano.
Canárias entra em uma etapa de normalização
A fotografia que deixa o final de agosto é, portanto, menos a de um novo salto no número de turistas do que a de um destino instalado em níveis historicamente muito elevados que começa a crescer de outra maneira. As estadias se estabilizam ou retrocedem ligeiramente, mas o gasto por viajante aumenta, a faturação marca máximos em alguns territórios e o emprego conserva uma força notável.
A mudança de cenário agora apresenta um novo teste para o principal motor econômico das ilhas. Após vários anos se beneficiando da demanda acumulada após a pandemia, Canárias deverá manter receitas e emprego sem poder confiar que o número de visitantes continue crescendo de forma automática a cada temporada. O verão de 2026 confirma que o turismo continua forte; também que o chamado "efeito champanhe" começa a perder força e que a próxima batalha estará cada vez mais na rentabilidade, o gasto por visitante e a capacidade de manter a competitividade sem depender de novos recordes de chegadas.